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29.4.11

Nocturno


Nem estrelas nem lua

No vidro de uma janela
que dá sobre a noite escura
rola uma lágrima quente
de solidão que receia
que a noite dure
eternamente.

Alberto de Lacerda
Moçambique

8.4.11

Soneto do Único Amor



Fios de ouro na voz e nos cabelos
Andar, o andar do ar, se o ar andasse;
Olhos azuis horizontais e belos
Como se a luz do mar os inventasse:

Recordações sem conto se porfiam
Em desgastar no tempo o fio ardente
E inquebrantável, onde morriam
Desde o início, futuro e presente.

Fria talvez, de chama que morreu,
Muito anterior à Terra; o corpo de ave
Plácida e presa, deusa que desceu

E quebrou portas que não tinham chave:
Essa a medusa que eu fitei sem esperança,
Praia sem água, vida sem mudança.


Alberto de Lacerda

26.5.09

Recordação



O rosto erecto
Dá a impressão de inclinado
Por certa graça esplendente
De nobreza

Rio lindo chama pura
Aparição convergida
Pelos astros espantosos
Deixas-me o corpo o teu corpo
E o desenho da tua alma
Nas minhas mãos escultoras
Deixas-me a voz essa voz
Que guarda vozes no fundo

Dos seus véus de maravilha
Deixas-me véus maravilhas
A confiança na vida
E dois lábios esmagados
Insuportáveis felizes

Alberto Lacerda
Moçambique

17.5.09

Eu vou partir





Eu vou partir Não indiques
A ninguém a maravilha
De partir assim sem nada
Sem sequer uma saudade

Eu vou partir Sou o vento
E não propriamente um homem
Por isso não sei chorar
A ausência nos meus dedos
Dos teus cabelos do fogo
Dos teus olhos dos teus dedos
da tua voz dos teus lábios
Eu vou partir Vou sem lábios
Vou sem voz sem nenhuns dedos
Vou sem oplhos nem cabelos
Eu vou partir Sou o vento
Antigamente era um homem
Vou inteiramente só

Alberto Lacerda
Moçambique

6.4.09

Renúncia



Deixei enfim de pedir
Eternidade ao amor

Aceito o ritmo sem ritmo
Que há por dentro desse ritmo
Que não se vê não se ouve
Mas eu sinto deslumbrado
Quando os teus olhos acendem
Os corredores da noite

Alberto Lacerda
Moçambique

6.3.09

Lago Niassa


Era um lago um lago imenso
Um mar um mar a primeira
Vez que eu via o m ar

Ecordo o som entre redondo
E ensurdecedor das vagas
(Autênticas) rebentando
Na praia Recordo ainda
Recordo também a luz
Aquele sol vertical
Caindo caindo caindo
Pairando deixando em nós
A sensação de existirmos
Adormecidos despertos
Num mar morto mar vivíssimo
De calor calor calor

Metangula eis a terra
O nome do posto (era isto
Em 33 mais ou menos -
Lembras-te irmã mais velha?
Onde eu fui passar um mês
Paradisíaco à beira
Do lago Niassa onde vi
Onde tive a vez primeira
A sensação formidável
Da virginal maravilha
Do mar do mar que é meu pai
Minha mãe meu deus supremo
Meu filho irmão e amante
Minha pátria verdadeira
E meu túmulo se os deuse
Me renderem tão sublime
Prova do seu amor

Alberto Lacerda
Moçambique

2.3.09

Desespero






Onde nada brilha
No alto da montanha
No sopé da montanha
Onde o grito impera
Sem garganta
Tornando opaco
O ar da montanha
Se o tivesse
A luz
Que já não tem -
Desde quando?

Onde nada brilha
Onde a parede impera
A porta
Sempre fechada
O abrupto
Abutre
Onde a treva se corta
Em talhadas
E sai um pus sem jus
Onde o cão não ladar
Por desprezo
Onde a criança e a teta
Não correm
Uma para a outra

Onde a onda não morre
Sumptuosa
Porque a praia não existe
E a água
Não chegou a nascer

Alberto Lacerda
Moçambique


2.2.09

A terra tem túmulos a mais



Mas os teus olhos
Ressuscitam tudo

Tu e eu
Morreremos
De excesso de eternidade


Alberto de Lacerda
Moçambique

22.1.09

Ao longe, a Vida





Agora eu sou a margem indiferente deste rio,
deste rio da Vida, que passa sem me ver...
Agora eu sou um desejo do esperado Fim,
um sonho que ficou por despertar,
uma lágrima apenas que jamais tardou
às chamadas da minha alma doente.
Eu sou o tédio,
O que ambicionou tudo o que não veio...
Eu sou o tédio, eu sou a morte... eu sou o frio...


Alberto Lacerda
Moçambique

12.12.08

Tese e antítese



Nunca mais
E arrasto comigo pelo braço da esperança
As horas marejadas as pedras do desgosto
A fome de amor
A cavernosa rouca diamantina
Fome de amor

Nunca mais e sobre os altos silêncios
No tumulto insensato
À beira do abismo
Ressuscito
Os rostos bem amados
Traiçoeiros
Dou-lhes andas
Dou-lhes palhaços
A infância que não tive
E que perdi
A paz que não é minha

Nunca mais

Agora só há abismos não há rostos

Passem duendes príncipes Antinos
Mas de largo

Alberto Lacerda
Moçambique


2.12.08

O verde é muito verde



O verde é muito verde
A luz mais clara
Do que nunca
As recordações são do tamanho
Do coração transbordante
O calor é Apolo
perpendicular à terra

Os pássaros
os esquilos
Atravessam a imaginação numa diagonal sem fim

Alberto Lacerda
Moçambique


10.8.08

Lourenço Marques Revisited

A água que murmura espectros lentos
O que houve e não houve e não volta nunca mais
Os quartos sem esperança que os guardasse
As casas sem anjo da guarda

A luz intensa bela e dolorosa
A adolescência dilacerada
A ternura dezoito anos recusada
Na casa dos Átridas
O crime horroroso que não houve
Mas as feridas abriram manaram um sangue
Que penetra implacável as fendas do sono
E me deixa acordado à beira da estrada
Com lágrimas que percorrem
Trinta e quatro anos


Alberto de Lacerda
Moçambique

3.8.08

Outros Sons


Já não peço o ardor extasiado
Da luz por dentro das horas mortas
Aprendi onde vivem os pássaros
Já parti de propósito as portas

Já não sei regressar como dantes
Já não choro o que perco Já ouço
Outros sons para além da amurada
Morreu o navio E eu que era moço


Alberto Lacerda
Moçambique

27.7.08

Moçambique


Ó Oriente surgido do mar
Ó minha Ilha de Moçambique
Perfume solto no oceano
Como se fosse em pleno ar

Alberto de Lacerda
Moçambique



20.7.08

Peregrino



Ó alma errante, onde brilha o fulgor
Das perguntas que a terra silencia,
O que buscas? A que estranho vigor
De visão tu aspiras noite e dia?

Porque me trazes o manto rasgado,
E me rasgas a mim, que tu geraste?
Amas ou não este humano traslado,
Arremedo divino, flor só haste?

Porque nos perseguimos sem nos vermos,
De terra em terra, na esperança, no esforço?
Aonde a luz dos invisíveis ermos
Brilhando inteira na luz de um só corpo?

Onde pressentirás o teu começo?
Então descansarás. Nada mais peço.

Alberto Lacerda
Moçambique

13.7.08

Não encontraste a rua


Não encontraste a rua
Não encontraste a casa
Não encontraste a mesa
No café que alguém
Por engano indicou.

Mas a cidade é esta
E não outra

Não encontraste o rosto

O anel caiu
Ninguém sabe aonde.


Alberto Lacerda
Moçambique

9.7.08

As árvores no parque


As árvores no parque

A relva
Cada vez mais verde

A tua voz
Ontem

Alberto Lacerda
Moçasmbique

19.6.08

Mandimba Metónia Vila Cabral



Infância triste mas encantada
Em casas grandes muito sombrias
Outras crianças não as havia
Os meus amigos? Dois grandes gatos
A luz o vento a água a água

Se alguém tocava velho e roufenho
O gramofone de manivela
Eu perturbava-me e a quem me via
Com lágrimas que não entendia

Havia festas de vez em quando
Eram janelas do paraíso
Lembro os adultos. Como eram estranhos
Como eram estranhos e imprevistos

Como eu sentia que não sei onde
Um outro reino de festa e luz
Inteiramente me pertencia
E só de longe naquelas casas
Naquela gente que me era fria
Muito por alto se reflectia


Alberto de Lacerda
Moçambique

8.6.08

A Mouzinho de Albuquerque


Tinhas o germe odioso dos tiranos
O fogo sinistro da intolerância
Mas que era feito duma só palavra
Herói soberbo
Ó árvore gigantesca
Que tu próprio abateste
Em vez dos deuses
Que te contemplam a distância


Alberto de Lacerda
Moçambique

18.5.08

Exílio



O exílio é isto e nada mais
Na sua forma mais perfeita:
Hoje na terra de meus pais
Somente a luz não é suspeita


Alberto Lacerda
Moçambique