7.2.11

Quando já não há nada


Quando já não há nada
absolutamente nada pra dizer
e cada dia te parece apenas
uma longa e inútil sequência
de vinte e quatro horas vazias

Quando uma folha de papel
é um deserto branco já sem rosto
um firmamento sem constelação
uma página nua, uma página
muda
há dois rápidos olhos que te falam
desde sempre da terra prometida

Consegues fixá-los Não tens medo?
Vê como arde súbito o seu gelo
no fundo das pupilas
e não hesites – rouba essa vertigem
ao coração da noite
porque às vezes não há outra saída
para algumas palavras que ainda podem
ser um arco uma flecha
perto do alvo que ninguém conhece

Fernando Pinto do Amaral