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1.2.11

Elegia amarga para Benjamim Moloise



As poeiras negras do Soweto
que botas calcam este corpo
as esporas a medo rasgam a terra

(1980)

Gulamo Khan
Moçambique

7.1.11

2.1.11

Moçambicanto V


Com a enxada
eu bem cantava
que a força telúrica
movia o Hino
inventávamos nomes
o alfabeto
e da guerrilha
e da espingarda fulgia o verso
calibrada a fome
(Pátria era nascer)


Cresço áureo como o imbondeiro
áspero e sou terra
elanguescente corpo cativo húmus
de mim a monotonia do xitende
galga ilhas e espraia em raiva

Gulamo Khan
Moçambique

23.11.10

Moçambicanto III


Vem da polpa dos teus lábios
o sussurro amargo da lua cheia
sura doce em noite de cio
embebedados
Sei do corpo e do matope
a geografia da tua idade

Sei-te vegetal e fria
na geografia do canto

Gulamo Khan
Moçambique

21.11.10

Xitimela

para Alexandre Langa

neste xitimela nosso comboio da vida
que nos faz meninos de ontem
pensar hoje vamos não só à Manhiça
mais longe vamos meu amigo
espera ver no diesel do teu peito
a força motriz que sopra
as mais belas ngomas deste moçambicano
e diz ao povo como sabes
que xitimela da vida é da gente
e faz poh poh poh num apeadeiro livre.

Gulamo Khan
Moçambique


Moçambicanto II



Havia a árvore
um embondeiro
uma azagaia enferrujando na terra
um murmúrio de casuarinas
namorando o mar

a palavra eram anos
micaias na frotne da angústia
silvo astral decapitado
corpo de mulher tatuado

Gulamo Khan
Moçambique



18.11.10

Sento-me na carlinga


Sento-me na carlinga e fecho os olhos
cheira a velho este antonov
na penumbra

o roncar possante
desta ave de aço
as negras mãos refulgindo

dos primeiros moçambicanos
a domar uma ave de aço

Gulamo Khan
Moçambique



20.2.08

Mocambicanto 1


céleres as águas
zambezeiam pela memória
das almadias do silêncio

nem o zumbido da cigarra
me entontece

nem o troar do tambor
me ensurdece

as vozes que são
sulcos das nossas esperanças

Oh pátria
mocambiquero-te
neste alumbramento
e amar-te
devo-o à carne e ao nervo
deglutidos em revolta.


Da enxada e do martelo
é o verso escrito na palma
da tua mão punho fechado
que nas alavancas das horas
faz refulgir o aço
analfabetamente parido
Cavador maldito
pronto a decepar o tronco
deste imbondeiro tão pária
carcomido pelas talecuas
sugadoras do seu sangue
e o veneno da nhoca cuspideira
queimando as migalhas bélicas
postadas de cócoras no caminho
dos simples
assim altivo ergues o teu nome
num pais ainda
de nadas e famélicos
desbravando os crápulas bem como os satanhocos.

Sei da Pátria
o nome erguido
a estrela tatuada
no corpo do Indico

uma timbila
canção guerreira


Gulamo Khan
Moçambique