Mostrar mensagens com a etiqueta Armando Artur (Moçambique). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Armando Artur (Moçambique). Mostrar todas as mensagens

7.4.10

Divagações


Pelo dever
de resistir e caminhar
pelos destroços da nossa utopia,
eis-nos aqui de novo, acocorados,
aqui onde o tempo pára
e as coisas mudam.

E para que o nosso sonho renasça
com a levitação do vento e do grão,
eis-nos aqui de novo,
passivos como os espelhos,
no tear da nossa existência.

Este sempre será
O nosso amanhecer.
E a nossa perseverança
é como a da erva daninha
que lentamente desponta na pedra nua.

Armando Artur
Moçambique

24.3.10

A Arte de Viver




Habito no halo
dos meus versos
onde incansavelmente
rimo palavras sem rima
e seco lágrimas sem pranto

é a arte de viver...

como lacrar a vida e o amor
sem cantar?
como vencer o tédio e o temor
sem bailar?
eis a razão
porque sonho sem sono
porque voo sem asas
porque vivo sem vida

no avesso dos versos escondo
o tesouro da minha contrariedade
o mistério da minha enfermidade
e o feitiço da minha eternidade

Armando Artur
Moçambique

25.11.09

Quando a pátria que é nossa



Quando a pátria que é nossa
É assim esgravatada e repilhada
Até aos limites do seu interior
Por gente nossa e despudorada

Quando a pátria que é nossa
É assim regateada ao preço da gula
E ganância, por gente que jurou
Defendê-la com bravura e valentia

Quando a pátria que é nossa
É assim extorquida e ameaçada
Por gente sem dó e auto-esconjurada
Que não olha a meios senão a fins

Quando a pátria que é nossa
É assim leiloada em praças obscuras
À taxa diária do sangue, suor e lágrimas
De milhões de braços, e uma só força
Por gente ilustre e de colarinho branco

Quando a pátria que é nossa
É assim assaltada pelos flancos da sua
Beleza e contornos da sua geografia
Por gente forasteira de si própria

Quando a pátria que é nossa
É assim deixada à deriva e ao relento
E à mercê dos párias do nosso maior
Descontentamento colectivo

Quando a pátria que é nossa
É assim atraiçoada por essa gente sem
Nome, que se aliança com mercadores
De insónias e arautos do caos e do mal
Em troca do fútil e do asco
Todo silêncio e todo exílio serão

Sempre iguais a pátria que é nossa!


Armando Artur


20.7.08

Escrevo-te, melancólico,



(Ao Rui Nogar)


Escrevo-te, melancólico,
estas palavras reverberadas
nas folhas das palmeiras.
A tua ausência ganha,
em mim, a forma dum poema
subitamente inacabado.
O nojo e o frio do teu silêncio
apaga a lógica poética
em que me fundo.
A bordo do teu nome vazio
escrevo-te estes versos
com a azul absurdo deste dia.


Armando Artur


9.7.08

Urgência



Eu sou das noites
mais negras…
não sei dizer «sim»
quando quero dizer «não».
porque é longa, deveras,
esta contenda
que é necessário vencer.

eu sou das galerias
mais profundas…
não sei dizer «amanhã»
quando quero dizer «hoje».
porque sou todo urgência
urgência de chegar
urgência de partir.

eu sou dos rios
mais longínquos…
não sei percorrer
o inverso dos caminhos
porque o tempo é-me escasso
nesta caminhada sem apeadeiros.


Armando Artur


20.5.08

O Rosto




O rosto e o tempo
Cruzam-se num espelho
Rachado. E dialogam.
É uma conversa de surdos.
O rosto e o tempo divergem
Na mesma vertigem do absurdo.
Ambos não se reconhecem.
(Ah, tão misterioso este rosto,
Tão plácido este tempo,
Tão cruel este espelho).


Armando Artur
Moçambique

19.4.08

Infância


Sempre o mesmo desejo
de voltar às praias
da infância:
argúcia dos dedos na areia
alegria dos olhos na espuma…

mas como voltar aos trilhos
apagados?
e como voltar às fontes
incendiadas?

(ao invés deste desejo
eis-me espiando o futuro
que nunca vivo!)


Armando Artur


14.4.08

Pelo dever



PELO DEVER

de resistir e caminhar
pelos destroços da nossa utopia,
eis-nos aqui de novo, acocorados,
aqui onde o tempo pára
e as coisas mudam.

E PARA QUE O NOSSO SONHO RENASÇA

com a levitação do vento e do grão,
eis-nos aqui de novo,
passivos como os espelhos,
no tear da nossa existência.

ESTE SEMPRE SERÁ

O nosso amanhecer.
E a nossa perseverança
é como a da erva daninha
que lentamente desponta na pedra nua

Armando Artur
Moçambique

16.3.08

O teu corpo de terra e maresia


O teu corpo de terra e maresia

onde o meu barco se desencalha
e abre velas e caminhos livres

o teu corpo de terra e maresia
onde a minha proa anuncia
segredos na esteira branca

o teu corpo de terra e maresia
onde a minha bandeira de sonhos
no mais fundo se revela

o teu corpo de terra e maresia
onde o meu barco de novo se prepara
para novas e longas viagens

em busca de um dia justo, limpo e pleno,
(assim seja!).



Armando Artur


15.3.08

Para a Sophia de Mello Breyner



Os búzios
iam e vinham
vinham e iam
como um pêndulo do tempo perdido

Que mistério lá havia, afinal?

(Será, realmente, o náufrago
cúmplice dum crime impossível?)

- Talvez. Pois da redoma dos astros
ressoa a marcha fúnebre dos deuses


Armando Artur
Moçambique

5.3.08

Viagem



Para habitar as planícies da ausência
e escalar os montes de tempo
que não vives

eis a secreta viagem
duma ave imaginária
em busca do instante

onde tudo recomeça

Armando Artur

27.2.08

Quando deponho sobre os teus dedos


Quando deponho sobre os teus dedos de frio

uma mão de grinalda e de sonhos
vejo o amanhã inscrito nos teus olhos.


Armando Artur


21.2.08

Agora não professo


Agora não professo
nem sussurro ao vento
os segredos que reinvento,
remo na transumância dos dias.
O sonho, esse discípulo
da noite dissipada,
inspira-me à peregrinação.
Agora não tenho fronteiras,
mas quando o exílio da memória
me retém o espelho dos dias
ao sentido original das coisas
regresso, porque é necessário
ser contemporâneo do tempo.
Agora, sim, professo:
viver e abraçar os rumores
do presente.


Armando Artur