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29.10.10

A concavidade descoberta


Sou o relêvo aprendido
voz deserdada e matriz
seca: alegria operante

Que não saberei jamais
avêssa do saber. Mal da
vocação a cumprir. Cume

flutuante à superfície
do vácuo transmissível
cientificado. Artesanal

pedra de remoer-se em
mim. Suficiente emoção
lapidada na divindade

O divino moldado cerne
embutido mas revelador
amaldiçoado e revivido

Sou retorno. Semelhança
modular de tempo na fé
quebrada face ao vento


Fernando Lemos

11.12.09

As novas leis



Atrás de qualquer porta
está sempre o mar alto que me espreita
Ou então a capa em que o vento abate
a dúvida ou a suspeita

Linhas rectas seguem cidades
quebrando fazendo nós
quando um homem lança mão num estrado
de abelhas completamente sós

Criaram-se novas leis
novos modelos de calçado
Fotografias com cores
décors do patriarcado

Mas as facas de cortar fruta
que correm a praia de extremo a extremo
dançam em pontas sobre o pequeno
E as mães que já não sabem
fazer as suas contas
deitam-se ao mar pelo que vêem
e julgam-no sereno

Saem dos astros pés das ondas mãos
a taparem os rostos os medos
As fardas que andam nuas
sobram armas lugares amenos

O mundo não previa tanto
e esgotou-se a lotação
Vão pelos canos correndo pardais cegos
como convém à perseguição

Criaram-se novas leis
há pânico pelas nossas varandas
nascem entretanto árvores nuas
tantas
Mas os dentes ainda são de pedra
apesar da nova lei que os não respeita
Embora a máquina de fazer peças para novas peças
seja o mar alto que atrás da porta me espreita.


Fernando Lemos