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16.6.11

Bósforo



Um dia minha âncora erguer-se-á dum porto qualquer,
e nesse instante o horizonte entrará num frenesim.
Os mármores diluir-se-ão sob as águas indefinidas
como na travessia entre Eminönü e Üsküdar, a luz
se dilui
no espelho do alvorecer dos minaretes de Istambul

Corrido o mar chega o silêncio. A distância amarra,
e mergulho num sotaque de transterrado.
Aos vapores na correria entre dois mundos
entrego o lirismo da minha língua — este sabor
a enxofre dos caranguejos das ilhas,
para que ela se dilua na água de cobre do entardecer.


Ivo Machado

16.5.11

Casa


Das casas sobram sempre lamentos,
a languidez do amor nos rios dum lençol, a mão
disforme nos lábios húmidos duma palavra;
das casas restam sempre nomes, vozes

das casas cresce uma alma
que esmaga o tecto minúsculo das mariposas
do Verão; das casas sempre um cheiro de nascer;
das casas sempre o roçar das asas da morte.

Nascer e morrer na mesma casa é privilégio,
sabedoria, ou sublime instante de passagem,
apenas.


Ivo Machado

6.1.11

Os girassóis



os girassóis
ao longe parecem o mar
mas como podem parecer
mar
se não vejo espuma
nem sinto os silêncios
das velas no horizonte?


Ivo Machado

28.2.10

A poesia é tudo



haverá descanso para uma nuvem
as nuvens
abraçadas
em entrelaçado?
água
vento
um desalinho
desconcertante
certeza nos movimentos?
não conformada a Terra é o pão
as nuvens a água
e o sol
o centro
total e universal.
os frutos nascem por amor
no quintal
do Éden
e Deus
com as nuvens
sempre
sempre impelindo o pólen
o pólen é o abraço.
diga-se o nome das forças e das coisas
escreva-se o testamento dos frutos
o nome e destino da cor dos peixes
por fim
pergunte-se:
haverá descanso para a Terra?
indelevelmente escreva-se a palavra
as palavras
enquanto as nuvens tocam o pólen
o fermento engenha o pão
pois a Terra não descansa
gira
dança como peão na palma da tua
da nossa mão.


Ivo Machado

16.10.09

Divagação



Quando morrer
quero correr o mundo. Nas primeiras horas
desse lusco-fusco, colocarei a última pedra
na estrada que minha mãe rasgou no mapa
acenado por meu pai em terra desbastada.
Depois começarei a viajar. Começarei por Paris.
Não perguntem porquê Paris. Quem sabe,
pela erudição dos mendigos
a celebrar os seus excessos

Quando morrer
quero conferenciar com Deus. Na primeira
aula de catequese instalou-se a ideia
que Deus era um relógio igual ao de Brooklyn
existente na casa dos meus avós.
Era perfeito, infalível o relógio
manufactured by the Ansonia Clock Company.
Não por ser americano ou pertencer à família,
mas porque mediava a história do mundo interior,
mais a crença naqueles que não se escondem
para morrer; e no exterior em mutação
padecendo de amnésia.
Um dia o relógio avariou, deixei de crer em Deus.

Quando morrer
quero dizer a Ele tudo isto, até O convidarei
a viajar comigo. Quem sabe, não iremos a Brooklyn
falar com os donos da Ansonia Clock Company
para um certo de contas
e clarificação de dúvidas.


Ivo Machado


6.9.09

Dívida ou dádiva


Dívida ou dádiva,
o que de mim sobrar
Será entregue a quem o reclamar
Como a água,
Sou o meu lugar de nascimento.
Como o fogo,
Sou a alma e o dia.
O dia está depositado em meu coração
Como o vinho nas adegas.
Dívida ou dádiva
Compreendo que nunca estive,
Ou estarei só.


Ivo Machado

4.1.09

Concerto para a ilha




A todas as horas
há segredos perdidos nas notas de Liszt.

Aos pés da ilha
os degraus de giesta estão em silêncio
e as palavras
tombam pequenas… tão pequenas… fugindo.

Na praça vai haver concerto.
Acabaram de chegar Deus e alguns santos.
(Há confusão:
Quebraram-se cordas de um piano).
As palavras
esbarram no infinito feitas loucas.
A música queima.
Perdem-se sons irrecuperáveis.
Toda a multidão esquece o mistério do olhar,
e Liszt,
com a última partitura
ensaia um coro de anjos.

Na campa
anti-nuclear não há descanso.


Ivo Machado