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19.1.11

Último poema



sair do temporal

é ganhar tempo pra coser as velas,
é ganhar tempo pra fazer aguada
e aparelhar.
o meu destino certo e tão inquieto
é o destino trémulo e concreto
duma agulha de marear.

ah, não esperem que eu não espere,
nem acreditem que eu tema
ou que eu possa naufragar…
numa vela renovada
há insistência pra conter o vento,
há arrogância pra conter o mundo,
há energia pra domar o tempo
e força pra singrar.

sair do temporal
é ter a nostalgia do combate
que vai recomeçar.

tomei o gosto às horas de calema
e sou irmão do mar.


Cochat Osório
Angola

16.12.10

Oração



senhor,
dá-nos o prometido no princípio
quando os homens errantes no deserto
receberam de ti a obrigação;
dá-nos a terra fértil dos eleitos;
a pátria para o povo de escolhidos
que ainda não têm pão.
senhor!
é a hora da estrela refulgir
guiando os passos do teu povo esparso
nas trevas desta noite de ganância
e dor
e confusão.
é a hora,
senhor!
dá-nos o prometido no princípio:
a terra da promissão.


Cochat Osório
Angola

Mas eu sei que não é!


Mas eu sei que não é!
mas eu sei que não é!

esta cidade,
a terra desta gente,
a terra do trabalho que consome
e que contenta
e mata a fome;
esta cidade de calor,
com sangue
e carne
e fel
e amor
e corpo de cidade;

que é cheia de trabalho e de suor
e força
e dignidade;
cidade com as cores do arco-íris,
que o sol acorda e pinta
com as tintas de sangue da paleta inquieta
dum pintor
que além de ser pintor inda é poeta;

a cidade que vibra intensamente
e grita
essa mensagem quente de vigor
e de ansiedade
que é o sangue da gente misturado à cor
da cor
duma cidade;

esta cidade quente
fantasiada com a luz potente
do sol
e da manhã;
cidade que recebe do trabalho
a condição humana;

terra que o sol queimou para a tornar mais sã;

é feita com a força consciente
da luta continuada desta gente
que vive
e sofre
e ri
e canta
e sente
e encharca de suor os dias da semana!


Cochat Osório
Angola

8.3.09

Quando a hora chegar...



A hora
que anda na angústia forte da esperança
e na alegria trágica e cansada
de não esperar.

Quando a hora chegar...

Essa hora
com bandeiras, bandeiras e bandeiras
e multidões vibrantes a passar
para dizer aos homens do passado,
para dizer aos homens do futuro,
para dizer presente
e continuar.

Quando a hora chegar...

Há crianças sem pai,
há crianças sem mãe,
que hão-de por risos novos sobre a boca
que ainda não tem pão;
que hão-de pôr brilhos novos sobre os olhos
que ainda vão chorar;
que hão-de pôr forças novas no combate
que vai recomeçar.

Quando a hora chegar...

Cimentada com lágrimas e sangue
e dor
e ansiedade
e medo de a perder...

Ah!, levem-me também,
eu vou também!
( Eu quero ter esta certeza
se não sobreviver!)...

Cochat Osório
Angola



21.2.08

Paisagem



no fundo
além da fortaleza sonhadora,
das acácias em flor,
da cidade espalhada em colinas,
da cascata de vidros nas encostas,
do voo disparado daqueles patos
e do calor da tua mão,
no fundo,
feito paisagem indiferente,
o ruído do mar.

monótono , constante, distraído,
marcando-me o compasso ao pensamento.

e o põr-do-sol, as nuvens cor de fogo,
a cinza abrazada, um dongo na baía,
a fortaleza debruçada, além,
como quem espreita para além do mar…
toda a beleza cálida me fere.
só porque o mar,
monótono, indiferente,
repete aquelas frases, cáusticas, brutais,
que eu trouxe no meu peito com vinte anos
os versos de combate,
o meu olhar altivo,
as horas de visão
e os passos muito incertos e tão fortes
que eu sentia no rumo do futuro.

há uma sombra no céu
e uma névoa nos meus olhos.

as janelas apagam-se em penumbra,
o dongo atravessou a água mansa
e a tua mão aquece a minha mão.

e a tua mão aquece a minha mão.
crispas os dedos, sentes esta angústia:
a beleza completa-se com dor.

ao fundo, o mar,
o mar que nos embala e nos conforta,
o mar…
ó meu amor, e diz,
eu ouço, ele diz,
que a alma não está gasta,
a ânsia não está morta,
se os olhos são capazes de chorar!


Cochat Osório
Angola