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28.3.11

O espelho dos magos

para o Heliodoro Baptista

Pombas radioactivas
soltam-se-me das mãos
quando chega o pôr-de-sol
e partem disciplinadamente
varejando o horizonte
que as leva em direcção
às rocas da paz.

Vede a disponibilidade delas
mesmo sabendo tão longa
a escalada do galho onde mora
do outro lado da noite.
Hão-de compreender de certo
quanto mais altos o andaime
para o ensaio da queda
a falésia do cárcere
mais puro renascerei
contra todos os vaticínios
pois reservado fora-me
o destino daqueles
que na dor se desplumam
em lamelas de cinza
como folhas anémicas
dum cipreste qualquer.

Caí vassalo do medo
em território de algozes
sitiado por veraneantes
tubarões sem pergaminhos
a tecerem contas de piolhos
de cócoras sob os autoclismos.
Aprendi a solfejar
com o queixume dos búzios
onde retine a mensagem
dos náufragos da injustiça.
Venho de um continente
de transmigrados de calamidade
em calamidade
com meninos que morrem
desapercebidamente
no dorso das suas mães
a caminho dos centros
de emergência da cruz vermelha.

E quando de modo abusivo
me detive junto das bordas
da indenunciável imagem
dos teus disfarces reflectida
no mármore em que oficias
morri no espelho de um mago!


Julius Kazembe
Moçambique

30.12.09

A Teia



Dormimos versos cercados de cal
para onde quer mesmo que nos leve a malha
quando a gente se transforma em cristal
encravado na bota de um canalha.

Ó desventurados da conjuntura
pirilampos sem luz, sem prevenção
retidos na teia cor-de-toga impura
porque a mão vos furtou para a boca o pão!

Encoleirou-se o corvo com o diadema
esquecido pelo ex-compadre burguês:
não houve toga nem sequer algema
e, de súbito, a teia se desfez!

Porém, sem darmos por ela, o fermento
destas lágrimas de terebentina
entrança já tatuagens de alento
para uma teia mais pura e cristalina.


Julius Kazembe
Moçambique

30.7.09

O girassol


O brilho inteiro das galáxias
a latejar no girassol
enfurecido
desdobrando-se em arco-íris
para a morte sobrevivida
entre os gomos do canto.
Um barco é uma faca que rasga
essas dunas cheias de sortilégios
e de luz as salpica.
Reapetece.
A asa fresca da madrugada
encrespará levemente
dos corpos nus a seda
para outra vez.


Julius Kazembe
Moçambique

10.2.08

Changara



Engoliram luas as crianças de Changara
Os olhos delas são pássaros tristes sem voo
que no desespero da fome acumulada
comem estrelas como se fossem grãos de milho.
Quando as sementes secaram nos campos
e o sangue secou nas veias dos rios
e a seiva secou nas veias das plantas
e o sol secou os celeiros da aldeia,
serpentes famintas silvam em volta
do peito cindido. Uma toupeira chora
ao frémito dos imbondeiros. Grave,
arde sobre a erva amarga a dor:
Das luas engolidas pelas crianças
quantas tardará a ecoar nos jornais?

Julius Kazembe
Moçambique