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13.1.11

Tempo de apagar pegadas



O tempo das pegadas
enevoa-se na humidade do vazio
os sabores confundem-se sem substância
e os cheiros
esses últimos redutos da infância
já não atravessam paredes nem distâncias

nem uma marca de luz na vidraça
nenhum olhar

no lugar dos olhos só uma sombra
repousa

imagem
de ser tempo de apagar pegadas
e de caminhar sobre as águas

uma imagem desfocada
cada vez mais nítida
de um não tempo que resiste

até um dia quando deixar eu de resistir-lhe


Ana Viana

3.1.11

Sopra um vento entre mim e ti


Sopra um vento entre mim e ti
nascido como todos
quando escavávamos dentro de nós
escavando a distância

foi já tempestade fechada em nevoeiro
hoje é apenas brisa
afrouxada na distância

recebo esse sopro suave como uma carícia
de quem ao largo me acena
enquanto parte

sempre entre nós um vento
ar com que te respiro
enquanto o longe nos escava
a distância


Ana Viana

21.8.10

Soprar os fios



Pêlos de gatos cinza eriçados como ratos
amigos mortos
vozes sem corpo
silêncios desdobrados na distância

é preciso soprar
sobre os fios de aranha que restam

e deixá-los ir


Ana Viana

23.8.09

Rasteja uma luz negra



Escuto as palavras que amontoas na intermitência do sentir
as que traduzem o silêncio e os gestos da sobrevivência
e onde rasteja uma luz negra
a mesma que um dia te absorveu a pele e te cristalizou o
sangue

observo esses cristais-palavras a dissolver-se na neve
a manter-se espelho
ou a lapidar-se em eco

e não sei o que fazer com a espuma que me fica
entre os dedos


Ana Viana

22.6.09

Desarrumação



Hoje sei
que nenhum canto se encontra arrumado
e que certos sentimentos são papéis amarrotados fáceis de alisar
outros são pergaminhos inquebráveis que não sei decifrar
atravessados todos eles por sinais contrários que me distraem


Ana Viana