Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio Lisboa (Moçambique). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio Lisboa (Moçambique). Mostrar todas as mensagens

12.9.08

Transparência



Morrer é só não ser visto,
é sair de ao pé de ti,
apagar-me em tudo isto,
deixar de ver o que vi.

Morrer é não estar em ti,
e mais do que não te ver,
é não ser visto por ti,
no deserto do não ser.

Morrer é como apagar-se
a chama que houve em nós,
é uma espécie de ficar-se
vazio da própria voz.

Vive o amor da atenção
que se tem por quem se ama.
Mas a morte atiça em vão
o fio que não dá chama.

Morrer é só não ser visto,
é passar a pertencer
a um livro de registo
que guarda o nosso não-ser.

Eugénio Lisboa
Moçambique

14.4.08

Origem

Ao Sebastião Alba

Regresso ao passado espesso
Tecido incestuosos vário sujo
Magna de ódio embebido em gesso
Rápidos pavores de que fujo
Ó húmida tentação horizontal
Cave podre e quente latejante
Onde menina sedução mineral
Viva palpo aliso quase ofegante
A vida a violência o sangue o sal
Incrível solo de augusta criação
O leite o mar a mão o sexo
O amor o riso e a traição
Os livros e a pureza ó quase nexo
Ó embruxado, aquecido caldo
Turva sopa inquieta mátria
Em ti me aqueço grito escaldo
Noiva do negro cru espasmo-pátria!
Tempo turvo incerto fino rubro
Metálico fogo ruivo trampolim
Horizontal finura que recubro
Ó mãe irmã uva de cetim!
Tempo antigo de impura surdina
tudo era ali calor de incerteza
Risco cerco sugestão de mina
Súbito esperma surto da represa.
O estupro a morte o oleoso sangue
O mar que tudo lava a memória
O ódio a agonia o corpo exangue
Do negro rebentado – única vitória!
Infância plasma leite de origem
Noite descoberta febre violenta
Profanação antiga ó mãe vertigem
Noite confusa vigília peçonhenta.
Sabor antigo e brusco a caju
Pecado de limão ao fim do dia.
Histórias de mamba e de surucucu
Alçado gozo de fruto e agonia.


Eugénio Lisboa
Moçambique

10.2.08

A Música das Cores

Ao Ângelo

A pintura; às vezes, sabe ser
uma forma de música: sugere,
no fluxo imparável do acontecer,
que a vida pode não acabar. Fere
o centro de nós mesmos. Amacia
e dissolve tensões que a vida impura,
em tantos momentos, cega, nos cria.
Como a música, é boa a pintura.


Eugénio Lisboa
Moçambique

17.1.08

No tempo em que, Fernando

Ao José Craveirinha


Era terra de sol e alegria,
de húmida, vegetal espessura:
ali a minha voz acontecia,
com o ritmo do sangue e da negrura.

Agora, a neve branca cobre a estrada,
com seu manto de noite e solidão.
Já, se o círculo traço, não há nada,
se não fora gelada vibração.

Era terra de ouro fecundada,
força macha, leal, apetecida.
Era chuva, magia visitada,
era sal, sugestão de força ardida.

Agora é só o branco que faz mal
ao filho cujo sal já emigrou.
A vida, agora, é lisa, mineral,
o coração, gelado, sossegou.

Eugénio Lisboa
Moçambique