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30.3.10

Restos de chuva

in memoriam de Nhu Xinhu


ossários da esperança
cantarolando fúnebres
no limiar da sepultura
apenas pressentido

longos jazigos
engolindo
os restos da chuva
arribada
com a ilusão de setembro
apenas pressentido

solenes câmaras ardentes
acoitando o vento leste
silentes rememorados esquifes
açoitando o cadáver das cheias
apenas pressentido

longos meses
ininterrupto ciclo
da viva estiagem
namoriscando
as montanhas
áridas e em cio
sonhando
alucinadas
com o silvo da humidade
apenas pressentido


José Luís Hopffer Almada
Cabo Verde

27.1.10

Anti-chuva



Os sonhos fedem à chuva
e os braços apodrecem
à beira dos súbitos charcos
e do frágil tornozelo dos subúrbios

Inexauríveis
os sonhos fedem
ante a nua ossatura
dos casebres
sitiando a cidade
e a sua enxuta
e antiquíssima idade

Os sonhos fedem
no aglomerado de pedras anónimas
acocoradas de desânimo
ante o jejum dos dias
e a fútil passagem dos meses

Os sonhos fedem à chuva
e eis-nos
de órbitas alagadas
sem saber o que fazer
da turva humidade
dos dias enclausurados
que com os sonhos
padecem fenecem…


José Luís Hopffer Almada
Cabo Verde

30.10.09

Poemas da chuva



I

Os meus horizontes são fugazes
porque do arco-íris construídos
do escarlate e do azul
lilases se extinguindo
sob os céus da Cidade Velha

Também o vulto de Cristo
crucificado
entre a nudez da palavra
e a inanição da ribeira

II

a palavra.
a morte à cabeceira do sonho:
santiago ou nho nacho

oh! o insondável martírio
do verbo
entre as ervas das ribeiras


III

A bruma
húmida e só
cobre o dia

Um relâmpago
risca rápido
o meu coração

Uma ribeira
corre em catarata
na minha alma

A chuva cai
desvairada
sobre a apodrecida espiga
da minha boca

IV

A hidropisia da cidade
cobriu-se de fuligem

É agora a idade
dos grilos e de outros insectos
hílares como cítaras na noite

V

São deveras memoráveis
estes tempos setembrinos

A chuva
promíscua
dorme
com os políticos
um sono sem pesadelos

VI

Os vegetais
como as éguas
esganiçam
com as primeiras águas

VII

Recolhem-se as baga-bagas
às luzes da noite

Encolhemo-nos nós
mais os gafanhotos
na sombra dos dias


José Luís Hopffer Almada
Cabo Verde

27.2.09

Curvo-me


Curvo-me ao obstinado peso das raízes.
Mais alto se erguem os morosos frutos
da inquietude. Por todo o meu corpo
animais em deserção, bélicos murmúrios,
impendentes murmúrios, desdenhada fortuna.

Não sei de barcos, não sei de pontes,
para outro tão melodioso território.
Afeiçoados ficaram os olhos ao sonhado
verde dos campos. Derrotados sob o
adivinhado zelo do sol por quantos dias
a ilha estremece ao temor da sede
e da ruína.

Deram-lhe navegadores nome de santo,
quando à vista das angras lágrimas
e gritos se confundiram. E na hora terreal,
feito o sinal da cruz, divisa de quem
por tão longes terras os mandara navegar,
um destino de penumbra ali se traçou.

E ficámos náufragos, irmãos dos chibos,
pela ocidental terra que o dia já desnuda.
Pelos sinos da matriz avisando da inexorável
aproximação dos corsários (um tempo
de rapina subjaz ainda na memória desses
anos) eu vos saúdo, velho cadamosto,
diogo gomes, antónio da noli; eu vos saúdo
desde esses picos de sede de onde a noite
mais veloz se confunde com os desfraldados
estandartes da alegria.


José Luís Hopffer Almada
Cabo Verde