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9.2.10

Vais ficar sem canções



O ronco da sirene à entrada
da barra traz o jovem às
portas enchameadas do deserto.

O olhar vai espancado nas
águas inflamadas, para o vão
das escadas iam sentir o
lume das salivas, o cabelo
desfeito no céu das calçadas.

Vais ficar sem canções,
tigre baleado, os dedos destronados
do peito, coração encordoado
na rocha dos fulgores.

E o brilho que nos varais
o mar entrança não é senão
o esgar do adeus, giz da boca,
cinza mordida que voa
para o último crepúsculo.


Fernando Luís

17.10.09

Berkeley Square



O alto adolescente. Caminha
em passo danção.
Camisola às riscas larga
vem dizer o
olhar tão alvejado.

O ar invulnerável é-lhe
dado pelo chapéu
de abas luminosas.
Ele e eu poucas palavras
perdidos para os lados
do mar.

O frio das ribanceiras
levou-nos às paredes,
eu pedi-lhe a mais breve
constelação, sal, areão
molhado, o rumor de outra coisa ainda.


Fernando Luís

2.2.09

No parque da cidade



O parque desce sob o meu olhar
instável desce para o lago
onde florescem latas de cerveja, folhas
e a névoa dos namorados.

À superficie das coisas o pó
aquietado da vida, a poalha dos impropérios
da castiça, o fumo do monte branco
a coroar, à hora da bica, a ave da juventude

que assobia canções combatentes.
Muita coisa começou assim, um punhal
a esmagar os sonhos, uma pedra a torcer
o primeiro amor contra o mundo.

Mais tarde, é sempre mais tarde, a morte
de amigos cuspiu de mim toda a cidade,
as ruelas que iam para o fontelo
escureceram também para sempre.

O silêncio, como o inferno, começa sempre
com os outros.


Fernando Luís Sampaio
Moçambique