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18.2.11

Água Dormida



Toda manhã é pétala
da mesma rosa eterna.
A mesma água dormida
da palustre cisterna

que recolhe as imagens
das nuvens que viajam
no céu mais fugidio
que está além dos píncaros

e além dos passarinhos:
lá onde o vento venta
e faz seu próprio ninho

um ninho de gravetos
folhas adormecidas
e pétalas perdidas.


Lêdo Ivo
(poeta brasileiro)

14.11.10

Acontecimento do Soneto


À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilónia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.

Lêdo Ivo
Brasil

27.5.10

O jumento



No alto da crestada ribanceira
pasta o jumento. Seus grandes dentes amarelos
trituram o capim seco que restou
de tanta primavera.
A terra é escura. No céu inteiramente azul
o sol lança fulgores que aquecem
tomates, alcachofras, berinjelas.
O jumento contempla o dia trêmulo
de tanta claridade
e emite um relincho, seu tributo
à beleza do universo

Lêdo Ivo
Brasil

25.5.09

A passagem


Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por seu eu diferente ou indesejado
mesmo assim eu passarei.
Inventarei a porta e o caminho
e passarei sozinho.


Lêdo Ivo
Brsail