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11.6.11

Pescadores



A pesca que eu sonhei nas águas dum mar vago
espumas d’oiro e sol, cristas azuis de lua −
é longe desse mar dramático e pressago
por onde em barcos tristes vosso olhar flutua…
É sobre águas serenas
que reflectem a rir as nossas penas,
por onde caminhou o Cristo docemente
na paz cristã dum legendário poente…
Na pesca que eu sonhei iam os pescadores
(não como vós, roucos de dor, as mãos crispadas)
sobre um mar de piedade aberto em flores
que o vento ia esfolhando em pétalas nevadas…

A pesca que eu sonhei que vos importa
a vós os que partis nas roxas manhãs frias
e ouvis as águas a rezar ave-marias
pela alma talvez da noite morta…
a vós que ides cumprindo esse destino
e sabeis entender a voz do vento
e tanta vez errais no mar sem tino
olhando vagamente o céu nevoento…
a vós irmãos das águias que perdidas
vão doidas de saudade pelas brumas
e rezais a chorar de mãos erguidas
os rosários partidos das espumas…

No barco que afinal é o vosso lar das águas,
lançais a vossa rede e as vossas mágoas
ao mar sagrado do Senhor…
E tudo que ele diz − ladainhas de dor,
rezas d’outono, músicas, soluços −
como que o não ouvis se descansais de bruços,
os claros olhos húmidos d’amor…
Mas quando os ventos vão rasgar as velas
que tanto luar diáfano sagrou
e os lúgubres fantasmas das procelas
cortam o ar d’inverno que gelou,
o peito nu, as magras mãos crispadas,
num esforço supremo a combater,
lembrais as vossas noivas desgraçadas
vossos filhos talvez a adormecer,
o adro, a casa branca, as romarias,
as vossas mães velhinhas sem ninguém
e as covas das ondas muito frias
e os outros, vossos pais, que Deus lá tem…
E as águas mugem sobre vós num doido assalto…

Na vossa voz há ecos d’ondas no mar alto,
no vosso olhar há coisas vagas, esquecidas,
tons de lua a morrer no colo duma onda,
vestígios d’ilusões já ressequidas,
o mistério do mar que ninguém sonda…
Levais a cruz de Cristo sobre o peito…
(Campo Santo do mar que não tens cruzes!)
Se o leme parte ao temporal desfeito
e a espuma ri em turbilhões de luzes,
quando caís de joelhos a rezar,
os olhos vagos no pavor da morte,
pensais que vão ficar no vosso lar
bocas sem pão gritando a vossa sorte…

E uma manhã bem roxa de piedade,
vossas viúvas trágicas, de preto,
hão-de beijar-vos loucas de saudade
e arrancar-vos do peito o amuleto…

Meus rudes e trigueiros pescadores,
olhos da cor do mar, único Livro d’Horas!
que não sabeis que quem suporta as vossas dores
é santo e tem a bênção das auroras…
Moradores do túmulo das águas
em que dormis a rir como num berço,
poetas que deitais vossas redes de mágoas
lembrando o lar humilde em que se reza o terço…
Heróis que não sabeis o que é heroísmo,
suicidas serenos d’aventura,
corações de crianças sem egoísmo
a dizer orações à noite escura…

Queria embalar-vos nos meus versos e dizer-vos
que sou um vosso irmão e sinto nos meus nervos
e em todo o meu ser, o vosso ser,
a ânsia de partir, a alegria da volta
sobre as águas erguidas em revolta,
a saudade de tudo que eu maldigo
a dor de errar na treva sem abrigo,
e a sede
de deitar docemente a minha rede,
como um palio de luz por sobre o oceano…
Queria viver todas as vossas dores,
as noites de mar bravo, os poentes de mar plano,
a vossa vida nómada no oceano…


António Patrício

5.7.09

De que me rio eu?



De que me rio eu?... Eu rio horas e horas
só para me esquecer, para me não sentir.
Eu rio a olhar o mar, as noites e as auroras;
passo a vida febril inquietantemente a rir.

Eu rio porque tenho medo, um terror vago
de me sentir a sós e de me interrogar;
rio pra não ouvir a voz do mar pressago
nem a das coisas mudas a chorar.

Rio pra não ouvir a voz que grita dentro de mim
o mistério de tudo o que me cerca
e a dor de não saber porque vivo assim.


António Patrício

12.3.08

O que é amar?


Amar é ver morrer a cada hora
Um sonho que o Amor crucificou
E vestir-se de luto a cada aurora
Um desejo febril que agonizou...

É lavar toda a dor, toda a amargura
Na fonte de piedade d’um olhar
E ver depois por uma noite escura
Que a dor é imensa e a fonte está a secar...

É ver nos olhos verdes que beijamos
Cair a cinza vá da vida morta...
E quando o tédio bate à nossa porta,

Erguer nas mãos as d’essa que adoramos
É beijá-las pedindo-lhe perdão
De ter a alma morta e morto o coração...


António Patrício


2.3.08


Relíquia


Era de minha mãe: é um pobre xale,

Que tem p’ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.


Na sua trama, já puída e lassa,
Deixo os meus dedos p’ra senti-la ainda;
E Ela vem, é Ela que me abraça,
Fala de coisas que a saudade alinda.


É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
Que eu sinto quando toco o velho xale,
Que guarda não sei quê do seu carinho.


E quando a vida mais me dói, no escuro,
Sinto ao tocá-la como alguém que embale
E beije a minha sede de amor puro.


António Patrício


25.2.08

Não há sereias


Não há sereias,
não há tritões:
pergunta às ondas,
aos vagalhões...

Pergunta às névoas
que andam no mar
e às estrelas
a cirandar...

Pergunta aos búzios
quem as ouviu,
ou aos marujos
se alguém as viu...


António Patrício

23.1.08


É o Poema


É o poema de quem rasga os versos
porque os sentiu demais para os dizer
e os ouve nas ondas tão dispersos
como os sonhos que teve e viu morrer

António Patrício

Ser luz


Queria ser luz para poder sentir
a tua alma sôfrega bebê-la...
Queria ser luz para poder dormir
vibrando e ardendo como aquela estrela...

Se eu fosse luz iria descobrir
mais oceano ainda a cada vela;
como os olhos das águias a fulgir
seguiria nas noites de procela...

Ser luz para doirar toda a miséria,
talhar em jóias as pedras dos caminhos,
florir as almas, acordar os ninhos...

Quando beijo a chorar a noite etérea
do teu olhar, amor, a minha cruz
é esta sede imensa de ser luz!

António Patrício