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27.3.08


Roça


A noite sangra
no mato,
ferida por uma aguda lança
de cólera.
A madrugada sangra
de outro modo:
é o sino de alvorada
que desperta o terreiro.
É o feitor que começa
a destinar as tarefas
para mais um dia de trabalho.

A manhã sangra ainda:
salsa a bananeira
com um machim de prata;
capinas o mato
com um machim de raiva;
abres o côco
com um machim de esperança;
cortas o cacho de andim
com um machim de certeza.

E á tarde regressas
á sanzala;
a noite esculpe
os seus lábios frios
na tua pele.
E sonhas na distância
uma vida mais livre,
que o teu gesto
há-de realizar.


Maria Manuela Margarido (poetisa sãotomense)


20.3.08


Alto com o silêncio


A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas
de abandono e medo.

No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba negra
e mortal das cobras.


Maria Manuela Margarido (poetisa sãotomense)


14.3.08

Serviçais


O aroma dos mamoeiros
desde a grota.
Os moleques sonham cazumbis
nas lajes do secador.
Lenta, a narrativa
dos serviçais sentados
no limiar da esperança
é palanca negra a derrubar
paliçadas e fronteiras,
palanca a devorar a distância,
a regressar a Angola,
aos muxitos do Sul;
é chuva grossa
empapando os campos de Cabo Verde
a germinar o milho da certeza.

Trazem na pele tatuada
a hierarquia das relíquias
alimentando-se de um sangue
desprezado
que elege os magistrados
da morte.
Amanhã os clamores da resta
acordarão as longas avenidas
de braços viris
e a terra do Sul
será de novo funda e fresca
e será de novo sabe
a terra seca de Cabo Verde,
livres enfim os homens
e a terra dos homens.


Maria Manuela Margarido (poetisa sãotomense)


9.3.08


A Ilha

A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas de abandono e medo.

No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba
e mortal das cobras.



Maria Manuela Margarido (poetisa sãotomense)

16.2.08

Vós que ocupais a nossa terra


É preciso não perder
de vista as crianças que brincam:
a cobra preta passeia fardada
à porta das nossas casas.
Derrubam as árvores fruta-pão
para que passemos fome
e vigiam as estradas
receando a fuga do cacau.
A tragádia já a conhecemos:
a cubata incendiada,
o telhado de andala flamejando
e o cheiro do fumo misturando-se
ao cheiro do andu
e ao cheiro da morte.
Nós nos conhecemos e sabemos,
tomamos chá do gabão,
arrancamos a casca do cajueiro.
E vós, apenas desbotadas
máscaras do homem,
apenas esvaziados fantasmas do homem?
Vós que ocupais a nossa terra?


Maria Manuela Margarido (poetisa sãotomense)

6.2.08

Memória da Ilha do Príncipe


Mãe, tu pegavas charroco
nas águas das ribeiras
a caminho da praia.
Teus cabelos eram lembas-lembas,
agora distantes e saudosas,
mas teu rosto escuro
desce sobre mim.
Teu rosto, liliácea
irrompendo entre o cacau,
perfumando com a sua sombra
o instante em que te descubro
no fundo das bocas graves.
Tua mão cor-de-laranja
oscila no céu de zinco
e fixa a saudade
com uns grandes olhos taciturnos.

(No sonho do Pico as mangas percorrem a órbita lenta
das orações dos ocãs e todas as feiticeiras desertam
a caminho do mal, entre a doçura das palmas).

Na varanda de marapião
os veios da madeira guardam
a marca dos teus pés leves
e lentos e suaves e próximos.
E ambas nos lançamos
nas grandes flores de ébano
que crescem na água cálida
das vozes clarividentes.


Maria Manuela Margarido (poetisa sãotomense)

24.1.08

Paisagem



Entardecer... capim nas costas

do negro reluzente

a caminho do terreiro.

Papagaios cinzentos

explodem na crista das palmeiras

e entrecruzam-se no sonho da minha infância,

na porcelana azulada das ostras.

Alto sonho, alto

como o coqueiro na borda do mar

com os seus frutos dourados e duros

como pedras oclusas

oscilando no ventre do tornado,

sulcando o céu com o seu penacho

doido.

No céu perpassa a angústia austera

da revolta

com suas garras suas ânsias suas certezas.

E uma figura de linhas agrestes

se apodera do tempo e da palavra.


Maria Manuela Margarido (poetisa sãotomense)

Socopé


Os verdes longos da minha ilha
são agora a sombra do ocâ,
névoa da vida,
nos dorsos dobrados sob a ca
rga
(copra, café ou cacau - tanto faz).
Ouço os passos no ritmo
calculado do socopé,
os pés-raizes-da-terra
enquanto a voz do coro
insiste na sua queixa
(queixa ou protesto - tanto faz).
M
onótona se arrasta
até explodir
na alta ânsia de liberdade.




Maria Manuela Margarido (poetisa sãotomense)