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31.1.10

Onde estou


Porquê
pois
procurar-me na Glória de Beethoven

se estou aqui

erguendo-me
nos milhões de ais
que se elevam dos porões
em todos os cais

se estou aqui
bem vivo
na vos de Robeson e Hughes
Cásaire e Guillén
Godido e Black Boy renascidos

nas entranhas da terra
transformando com meu corpo
os alicerces da vida

se estou aqui

soma consciente e firme
dos homens
que compuseram o poema

da vida contra a morte

do fim da noite
e do começo do dia.


Kalungano
Moçambique

14.1.10

Terra-Mãe



Ai
mãe negra chorando

ai
doce terra gemendo

nas capulanas de areia fina
embrulhando teus filhos

há flores de sangue
girassóis de dor
e amor exangue
- Ó voz intranquila e singular

Meus filhos todos partiram

Um levado no fundo dos barcos
por outros oecanos
a mundos distantes

Outro
ficou sob o solo queimado
das terras estendidas
p'ra além do nosso sul

Um terceiro
aqui perdeu a chama viva
aberta em fruto
nos nossos olhos
.........................
- Ó terra dolorosa
que os filhos perdes

ó mãe imensa
que as lágrimas lavam
como os rios sempre loucos.


Kalungano
Moçambique

6.1.09

Aqui nascemos




I

A terra onde nascemos
vem de longe
com o tempo

Nossos avós
nasceram
e viveram nesta terra
e como ervas de fina seiva
foram veias em corpo longo
fluído rubro perfume terrestre

Árvores e granitos erguidos

seus braços
abraçaram a terra
no trabalho quotidiano

e esculpindo as pedras férteis
do mundo a começar
em cores iniciaram
o grande desenho da vida

II

E foi também
aqui
que eu e tu nascemos

Terra quente
de sol nascente

Terra verda
de campos plenos

Terra meiga
de colo largo

foi a nós
que se entregou
cheia de vida
e amorosa ânsia

III

Crescemos embalados
no canto do chirico
e brotando assima a planície humana
tão fundo impulso germinou
ondas fecundas de cristal

E quando o vento
vergasta o firmamento

e a espada cai
e rasga os corpos
o horror tinge
a face crua

O nosso amor não treme

Esta é a terra
onde nascemos

seu sofrer
é a nossa dor

e a nuvem fel de agora
é momento doloros
que a chuva há-de secar

IV

Nossa terra é de esperança
aberta ao franco amplexo

Na esteira dos passos dados
vão brilhando círculos livres

e como irmãos mais novos
de um século mais velho
vamos levvando em largas mãoes
a herança dos nosso avós

e com folhas do coração
continuar a obra humana
o grande desenho da vida.


Marcelino dos Santos
Moçambique

19.6.08

Mas o que nós queremos


e o caminho é assim

Cavado na montanha
a descer e a subir

Cavado na planície
no capim e no mato espesso
e mesmo no milho mais alto do que nós

O esforço que fazemos

não é leve nem pesado

É o que é necessário

Guerreiro
cultivando a terra
transportando munições
ou medicamentos

Construindo um hospital uma escola
ou a estudar num país distante

O meu lugar
é lá onde a FRELIMO determina

A linha de combate
é lá onde a Revolução me leva

SOMOS SOLDADOS DA FRELIMO
CUMPRIR A MISSÃO DO PARTIDO
CAVAR O SOLO BÁSICO DA REVOLUÇÃO

PÔR UM FIM À EXPLORAÇÃO DO HOMEM PELO HOMEM
CONSTRUIR A INDEPENDÊNCIA NACIONAL
COMPLETA


Marcelino dos Santos
Moçambique

28.3.08

Nampiali


Verde carmim azul e violeta
e nós
marchando no planalto

Em baixo
o vale
e as machambas de Nachinhooo

Mais longe
nas encostas do Nampiali

as árvores
verde carmim azul e violeta
enchem os nossos olhos

É já o pôr do sol

Vamos marchando
e as vozes vão cantando

«somos soldados da FRELIMOOO…»

Verde carmim azul e violeta
e nós
marchando no planalto
Luindo sempre para além

verde carmim azul e violeta

Aqui os portugueses foram

Aqui os portugueses não voltarão

Agora nascem os campos de produção

«Deciiididos
Nós lutaremos…»

Nós
marchando no planalto
seguindo para além

e sempre nos nossos olhos
as cores suaves e doces
de verde carmim azul e violeta
na paisagem quente
da terra livre de Moçambique


Marcelino dos Santos
Moçambique

26.3.08

Onde estou


Não

Não me procureis
onde não existo

Eu vivo
curvado sobre a terra
seguindo o caminho inscrito
pelo chicote
nas minhas costas nuas

Eu vivo
nos portos
alimentando as fornalhas
movendo as máquinas
pelo caminho dos homens

Eu vivo
no corpo de minha mãe
vendendo a minha carne
o meu sexo
não é para amar

Eu vivo
perdido nas ruas
de uma civilização
que me esmaga
com ódio
sem pena

E se é a minha voz que se ouve
e se sou eu que canto ainda
é porque não posso morrer
Mas só a lua escuta a minha dor

Não

não me procureis
nos grandes salões
onde não estou
onde não posso estar

Aqui na América

Sim
eu estou também
eu estou

Mas Lincoln
foi assassinado
e eu
eu
eu
todos os dias sou linchado

O comboio especial
rolando vertiginosamente na estrada
é ouro
é sangue
que eu verti através dos séculos

Porquê
pois
procurar-me na Glória de Beethoven

se eu estou aqui

erguendo-me
nos milhões de ais
que se elevam dos porões
em todos os cais

se eu estou aqui
bem vivo
na voz de Robeson e Hughes
Césaire e Guillén

Godido e Black Boy renascidos
nas entranhas da terra
transformando com o meu corpo
os alicerces da vida

se eu estou aqui

soma consciente e firme
dos homens
que compuseram o poema

da vida contra a morte

do fim da noite
e do começo do dia.


Marcelino dos Santos
Moçambique

11.3.08

Oferenda


O Sol
Nas pedras pequeninas dos carreiros.

O vento,
nas veias largas das árvores das florestas,

Os rios,
nas veias largas da terra morna,

são a oferenda
que o teu filho te traz,
nos sonhos guardados,
desde os tempos longínquos
da sua infância, .
na recordação que se aviva,
constantemente,
através do contínuo e imperioso
desejo de viver.

São a grinalda das flores de milho
que o teu filho
depõe sobre a tua fronte
no dia da tua festa,

no teu dia, mamã!

Como nos dias
em que as minhas traquinices
não te arreliavam,
eu venho hoje repoisar a minha cabeças
no teu colo
e adormecer embalado

no baloiçar dos barquinhos
que as ondas dos lagos dos teus olhos
levavam para longe,
nos sonhos que os teus braços
construíam para NÓS.

Eis-me agora aqui,
Mãe,

pedras nos carreiros,
transportando as carnes nuas
dos teus pés fatigados,

árvores, cobrindo-te nos teus braços
e envolvendo-te na sombra
do teu repouso impossível,

rios, correndo na planície do teu corpo,
banhando as tuas mãos,
dádiva à terra
onde tu nasceste.

Eis-me agora aqui,
Mãe!


Marcelino dos Santos
Moçambique

31.1.08

É preciso plantar




É preciso plantar
mamã
é preciso plantar

é preciso plantar
nas estrelas
e sobre o mar

nos teus pés nus
e pelos caminhos

é preciso plantar

nas esperanças proibidas
e sobre as nossas mãos abertas

na noite presente
e no futuro a criar

por toda a parte
mamã

é preciso plantar

a razão
dos corpos destruídos
e da terra ensanguentada
da voz que agoniza
e do coro de braços que se erguem

por toda a parte
por toda a parte
por toda a parte mamã

por toda a parte
é preciso plantar
a certeza
do amanhã feliz
nas caricias do teu coração
onde os olhos de cada menino
renovam a esperança

sim mamã
é preciso
é preciso plantar

pelos caminhos da liberdade

a nova árvore
da Independência Nacional.


Marcelino dos Santos
Moçambique

27.1.08

Sonho de Mãe negra


Mãe negra
Embala o seu filho
E na sua cabeça negra
Coberta de cabelos negros
Ela guarda sonhos maravilhosos

Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Que o milho já a terra secou
Que o amendoim ontem acabou

Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho iria á escola
Á escola onde estudam os homens

Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Os seus irmãos construindo vilas e cidades
Cimentando-as com o seu sangue

Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho correria na estrada
Na estrada onde passam os homens

Mãe negra
Embala o seu filho
E escutando
A voz que vem de longe
Trazida pelos ventos
Ela sonha mundos maravilhosos
Mundos maravilhosos
Onde o seu filho poderá viver.


Kalungano
Moçambique

20.1.08

Xangana filho pobre




Nas minhas veias
corre o sol da terra austral
cor de fogo e de vulcão
em florestas de leão

e o rio avança na paisagem

em curvas altas
tumultuosas
contra o acre
destino adverso

ou em alegre ondular
se Xangana vem nadar

As árvores erguem troncos fortes
e suas copas verdes e largas
se abrem cobrem e abraçam Xangana
filho pobre do meu país

Xangana
filho de Moçambique
nasceu pobre
e não foi à escola

Dizem mesmo
que não sabe história
nem conhece geografia

No entanto

quando o rio enfurecido
ecoa nas palhotas
e no ar verde-amarelo de caju
vai pelos campos e florestas

é a voz longa de Xangana
filho pobre de terra rica
que cantando vem gritando

Ó sol do meu país
ó sol de Moçambique
filho escravo nasci pobre
sobre a terra de meus pais

Baila ó sol do meu país
baila sobre a terra
de mangueiras e cajueiros
Do alto das copas verdes
de novo serei rei


Marcelino dos Santos
Moçambique