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11.9.11

Beija-me



Beija-me com os beijos da tua boca.
Tuas carícias melhores do que o vinho.
E sê-me luz. Luz total. E água.
Profunda água pelo fogo enamorada,
terra que grita exasperada plenitude.
E frescura. Fecundidade.
Árvores frondosas, ramagens,
verde iluminado,
primavera, enfim.

Que aroma de ti parte? Olor a fruto?
Tua pele é jasmim?
Flor de pura laranjeira?
Pétala de alfena e de nardo?
Oh! Tudo! Tudo em ti é perfume
quando ondeias o corpo lindo!
Teus lábios destilam mel,
teus cabelos a essência feliz do rosmaninho.
És carne, apenas?
Mas sem ti como
explicar a razão de haver no mundo claridade?


Gonçalo Salvado

11.6.11

Onda



Se te pudesse dizer o som vivo
da mais pura claridade
e oferecer o azul raro que mora
no centro da onda que o mar não dissipou,
se a palavra que de mim se desprende,
como halo submerso da alga que verde emerge
para a orla que os teus passos demarcaram,
se a música florisse de minhas mãos
para a carícia que o teu corpo merece,
então o poema ganharia a fria calidez
do cristal que o fogo namorou
e a água beberia em teus lábios
a forma dos beijos que para ti
tantos anos em segredo sonhei.


Gonçalo Salvado

14.3.11

Aragem



Como aragem perfumada
a mim te entregas, minha amada.

E não sei se existes ou se te sonho:
meu desejo te nomeia
pura brisa de folhagem.

Que aroma me envolve quando te despes?

Esta fragrância que me inebria
vem do teu corpo ao desnudar-se
ou da luz rosada que amanhece?


Gonçalo Salvado

12.1.11

Frémito



Ah, suprema delícia
a tua boca sobre o meu peito,
à ombra desta madrugada
que de luz esplende e irradia!

Como crer na aridez do mundo
se a terra se adornou
com o cintilante aroma de teu corpo,
se tudo é oferenda de primavera em teu regaço,
aragem doirada de perpétuo estio;

se o próprio ar ao respirar-te
se fez verde horizonte de fragrâncias,
ganhando um ritmo
de clara dança e harmonia?

Nenhum vento de secura me perturba.
De teus gestos brotam fontes,
água bebo de tua cintura plena
- ó manancial perfeito!-
e aspiro a frescura de tua pele
com a minha a cada instante confundida.

Quando ao amanhecer
se enchem os céus de um clamor de aves peregrinas
de que pura claridade és promessa?

Que brancura se derrama de cada nuvem
imitando a tua nudez a mim aberta?

Por que voam longe de ti os anjos
se a luz perfeita só no teu rosto existe?

Por que o roçar de suas asas não te visita?

Ah, se eu pudesse ao beijar teus lábios
alcançar de vez a tua alma
e negar esta solidão que me chora ainda!

Morro para mim porque te vivo
e nessa vida mais alta e incessante sei que
ao despertar em ti já não existo-
sou apenas o frémito feliz de uma folhagem,
a linha da tua irradiante fronte,
o límpido regato que humildemente te reflecte.


Gonçalo Salvado

10.1.11

Este vento


Sem ti
sou apenas este vento
que investe contra
as árvores
e as desfolha longamente
muito antes do outono.


Gonçalo Salvado

30.9.10

Dá-me o puro cansaço após o amor



Dá-me o puro cansaço após o amor
à fresca sombra da tarde.
Agora que é ido o desejo, concede-te
este breve instante de paz e repousa.

Toda a minha vida possui isto:
uma boca a brilhar sozinha em meu peito.

Mas a carne é sonho ao tocar-se nela,
ao senti-la fremente em nossos lábios indefesos;
a carne é já cinza, esquecimento,
frio desolador que se anuncia.

Porém, vê como arde a tua boca
negando o vazio que sempre perto nos aguarda;
vê como arde o meu peito
com um resplendor que por ti jamais se apaga.

“Porquê beijar teus lábios se se sabe que a morte
está próxima, se se sabe que amar é esquecer
a vida apenas, fechar os olhos ao sombrio
presente para os abrir aos radiosos limites
de um corpo?”

Porquê respirar esta luz carnal frente ao curso
de um poderoso rio que cruelmente nos ignora
mas onde de súbito uma gota de orvalho esplende
como uma lágrima nossa?

Não, também eu não quero acreditar numa verdade
que nos livros se lê como uma água,
também eu não posso aceitar essa futura agonia
que reduz a um último estertor
a cálida juventude de um amado corpo.

Quero crer, oh sim, crer que a luz que das tuas mãos
se evola subsiste à melodia triste dessa água,
passageira, quero acreditar no talismã vermelho
que pulsa feliz
em meu peito enamorado só porque o teu nome
fulgura nele como uma estrela obstinada,
nesses olhos que não são feridas mas apenas
frescas margens,
que me devolvem, cada dia, incólume,
o azul das ondas
que contra mim, mortais, embatem.


Gonçalo Salvado

11.9.10

Mulher


Mulher que escondes em teu corpo
a alma secreta das paisagens,
com o seu fluir de rios
e seus socalcos de pura dádiva e bondade.
Hoje, meu coração, talvez te revele
que não serás, como ela, passageira.
Qualquer coisa de ti perdurará
na verde folhagem destas árvores
que vegetalmente te observam
e tua música imitam.
Porque eu te amo és eterna,
vives para além da invalidez do tempo,
és pólen fecundante que o vento não sonega,
pétala de lume a perfumar a brisa desta tarde,
Primavera que de ti própria vi brotar.
E nos céus antes áridos entoam já suaves sinos
anunciando que todos os dias serão agora teus,
só porque os fizeste de seda para mim.


Gonçalo Salvado

30.4.10

Arte poética



Como um pequeno rebanho
as palavras alinharam-se
em meus lábios
tendo a tua boca
como seu pastor.


Gonçalo Salvado

16.11.09

Nudez



E era a terra
vastamente seca,
longamente nua,
que a ti se abria.
E eras tu, amor,
por mim despida,
o único verde
que a cobria.


Gonçalo Salvado

11.10.09

Embriaguez



Toda a noite bebi vinho.
Mas foi o teu corpo
que me embriagou.


Gonçalo Salvado