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30.5.11

A pessoa de Josefane


A PESSOA DE JOSEFANE FICOU NO MASSACRE DE MALUANE, MAS SEU CORPO VEIO A MAPUTO PARA POR VELAS

Uma rajada de metralhadora
e ele caiu do camião.
Rachou-se o cóccix.
Coaxaram as rãs do rio vizinho.
Cócegas no sangue dele.
O primeiro grito foi
o canto plangente do cisne.

As árvores deliravam
ruídos de harpa. A morte,
com a sua foice aguerrida,
saqueou-lhe todo o sangue baboso
e levou-lhe a cruz ao calvário
doloroso da fossa comum.

O rio de lágrimas secou
na roda dentada da vida.
A moagem do coração parou.
Os açudes que represam o sangue
das veias desmoronaram-se.

No seu organismo
só ficaram gemidos de grilo,
primeiro;
piares de coruja,
depois;
e o silêncio sepulcral dos vermes,
por último.

A morte encafuou-se no seu ninho.
E lá, dentro do Josefane madrugador,
ficou quentinha e satisfeita
a pôr seus ovos de cotovia.

E um louva-a-deus
foi o primeiro ser vivo
a pousar no seu corpo morto.

Eu vi!, com o coração aos pirilampos...


José Pastor
Moçambique

30.3.10

Como sou - sinopse



Eu sou como as algas:
necessito de luz e calor.
Eu sou como os pinheiros:
verde em todas as estações.
Sou fóssil de toda e qualquer era,
muito mais homem que fera.

Eu sou um vulcão:
dentro de mim há crateras e grutas,
cheias de estalactites
e estalagmites puras e brutas,
que nascem da filtração
do sangue e lava
de todas as minhas artérias em erupção.

O relevo do meu fundo marítimo
tem mais picos e cumes
que abismos e barrancos.
Os altibaixos internos
que embriagam o meu coração legítimo,
e as minhas entranhas montanhosas
vivem numa eterna bruma de cantos
indubitavelmente cheia de horizontes.

Dentro de mim há cascatas
e cachoeiras. É por isso
que meus lábios e maneiras
sempre falam espuma cristalina
que sai pelos rios
múltiplos da minha voz.

Também tenho portos fluviais
onde desaguam todo o meu
silêncio, todas as minhas
palavras, que aí flutuam,
e são tantas e da mesma linhagem!
Aí ficam, se quedam, e alimentam
a minha personagem primária,
ermita e selvagem.

O meu sangue é como o trigo:
panificável por excelência.
Eu vivo no pão impecável do
meu sangue.

A minha génesis é o resultado
da condensação do «grand pás de quatre»
e criação que alegra e desperta
a natureza vivente e agreste:
terra, água, sol e semente.


José Pastor
Moçambique

30.9.09

Nesta madrugada acordei


Nesta madrugada acordei
com o meu peito em flor.
O meu lençol branco
onde ontem me acostei,
estava esverdeado de árvore
e de amor.

Gradeados por raízes
meus lábios febris e ardentes
beijaram o nevoeiro
e meus olhos feirais e quentes
saíram do viveiro do meu rosto
e na alvorada um olhar ficou posto.

Voltei ao quarto e a ti.
Escorreguei nos flancos
das colmas do teu corpo
porque chovias suor abundante.
A noite caiu por sobre a tua ausência.

Fiquei só, com o meu lençol branco,
com tudo aquilo que sou
e mais o pranto!


José Pastor
Moçambique

28.12.08

As estrelas hoje saíram



As estrelas hoje saíram
fora do seu leito azul
e vieram brilhar nas margens
dos meus olhos terrosos.

Com fúria de granizo
uma fumaça de luar
me embacia os olhos
num nevoeiro de borrasca ventosa…

Eu suporto frios intensos
e o branco polar
também pode ser pomba

Fechei minhas pálpebras
e as cisternas dos meus olhos
armazenaram mais águas.
e eles permaneceram límpidos,
sem uma lágrima,
com as raízes mergulhadas
no húmus milenário que me
alimenta.

Que me perdoem as flores,
mas eu hoje amei-as assim mesmo:
perdidas na cor e no balido dos
charcos, dançando ao vento
lágrimas vivas
confundidas com pinhais.


José Pastor
Moçambique