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3.5.11

Assumamos o corpo e o prazer


Assumamos o corpo e o
prazer, bebamos no elmo
de bronze o vinho e os
cheiros do fogo.

*

E o desejo de amar e o desejo de mar
no seu mais belo canto Safo cantava.
Oh, quanto no meu coração tarda
o que o seu canto louvava.

*

Se contigo ardo, Safo,
se todas as coisas provêm
da noite, seremos a chama
da eterna beleza.

*

Como funda gota de cera no flanco
do lesto gamo,
sequestra-me, Safo, no teu rijo seio.

*

Ser a pomba ou o cavalo no bosque
de macieiras onde espera e anoitece
O teu terso corpo de deusa rara.

*

Oh, apagar-me no teu peito suavemente
enquanto nos teus olhos leio
a respiração do tigre.

*

Nada é glorioso, nem a solidão
absurda. Só a memória permanece,
para, em cada carícia,
ser outra.


Orlando Neves

23.1.11

Criei, não possuí.


Criei, não possuí.
Instante de infinitude, o que moldei na voz
respira. A firme casa do meu corpo se fez
pelo contraste, que só o contrário cria.
Não possuí,
denso ou raro,
pequeno até ao nada,
nenhum símbolo,
nenhum olhar de brasa,
nenhum odor colado à pele.
Pretendi a verdade, mas tudo se muda
pelos meus olhos e a fosca luz do que foi viver
só no amor se moveu. Morto o amor,
transforma-se a água.
Onde a noite não há e o dia não é,
esqueço as mudanças do tempo
e com meus ardis me defendo
do terror de mim.


Orlando Neves

23.11.10

Pandora



De repente,
o corpo da mulher fulgura,
pupila de deus,
punhal ou bico,
sede que chama.
Pára em mim e deslumbra
— nula possibilidade
da lucidez.

Orlando Neves