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13.1.11

Desculpa meu amor



Desculpa meu amor
não há tempo para o amor

Quando melhor arfar o mar
o céu for mais azul
a lua menos leviana

Desculpa meu amor
‘inda é cedo para o amor

Quando fenderem os ares
os pássaros da liberdade

Desculpa meu amor
temos em breve o nosso amor

Quando soluçarem os tambores
na Mãe-Terra distante
Quando endoidecerem tinindo
os sinos todos de Cabo Verde


Ovídio Martins
Cabo Verde

13.4.10

Bendito sejas


Bendito sejas
serviçal cabo-verdiano
que teimas em ver
para além da prisão
Sabes bem
que para lá dos teus olhos
há a terra de Cabo Verde
que espera por ti
Se tu cansas
É que ainda te abraça
a esperança
e não morreu dentro de ti
o desejo de matar a morte

Bendito sejas
serviçal cabo-verdiano
Não deixes que tuas pálpebras
amorteçam na dor
É preciso enrijá-las
para o dia do regresso
Que voltarás
não numa manhã de nevoeiro
de morbidez alquebrada
mas num dia de sol quente
ébrio de saudade
da terra que ficou
sedento do perdão
da terra que entregaste
sozinha quase nas mãos dos Cains


Ovídio Martins
Cabo Verde

29.10.09

Silêncio Cabo-Verdianos!



Silêncio Cabo-Verdianos!
choram irmãos nossos
nas roças de São Tomé

E há perigos e ameaças
na noite
grávida de punhais

Prepara o braço
serviçal!

Dos olhos do poeta
rolam lágrimas
cor de sangue.


Ovídio Martins
Cabo Verde

27.6.09

Aviso


Não nos venham dizer depois
que não vos avisamos!

Podem brandir o chicote
E arreganhar os dentes
E espumar pela boca

(são serviçais...)

podem metê-los em prisões
cadeias nos pulsos
correntes nos pés

(são serviçais...)

podem humilhá-los
mil vezes massacrá-los
matá-los de mil mortes

(são serviçais...)

mas depois
não nos venham dizer
que não vos avisamos!...


Ovídio Martins
Cabo Verde

23.4.09

Anti-evasão



Pedirei
Suplicarei
Chorarei

Não vou para Pasárgada

Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue

Não vou para Pasárgada

Gritarei
Berrarei
Matarei

Não vou para Pasárgada


Ovídio Martins
Cabo Verde

28.3.09

Flagelados do Vento-Leste


Nós somos os flagelados do Vento-Leste!

A nosso favor
não houve campanhas de solidariedade
não se abriram os lares para nos abrigar
e não houve braços estendidos fraternamente para nós

Somos os flagelados do Vento-Leste!

O mar transmitiu-nos a sua perseverança
Aprendemos com o vento o bailar na desgraça
As cabras ensinaram-nos a comer pedras para não perecermos

Somos os flagelados do Vento-Leste!

Morremos e ressuscitamos todos os anos
para desespero dos que nos impedem a caminhada
Teimosamente continuamos de pé
num desafio aos deuses e aos homens

E as estiagens já não nos metem medo
porque descobrimos a origem das coisas
(quando pudermos!…)

Somos os flagelados do Vento-Leste!

Os homens esqueceram-se de nos chamar irmãos
E as vozes solidárias que temos sempre escutado
São apenas
as vozes do mar
que nos salgou o sangue
as vozes do vento
que nos entranhou o ritmo do equilíbrio
e as vozes das nossas montanhas
estranha e silenciosamente musicais

Nós somos os flagelados do Vento-Leste!


Ovidio Martins
Cabo Verde