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9.12.10

Sitiados



Esta cidade é a última cidade...
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.

Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.

Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.

Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.

Egito Gonçalves

22.9.08

Pode uma rosa



Pode uma rosa
sofrer de insuficiência cardíaca?
Podem substituir-lhe
as coronárias por uma safena
que não contava com essa?
Podem as dificuldades ser maiores,
ou menores, conforme
a rosa seja branca ou vermelha?
A rosa do povo
que rompe do asfalto
perde o fôlego ao subir as escadas?
A rosa murcha mais depressa,
que o homem, é certo. Os meus espinhos,
voltados para dentro, ferem-me
a mim mesmo. Toda uma lista
de diferenças se pode fabricar
para mostrar o absurdo
da rosa cardíaca.
Não preciso reflectir muito
para saber
que não sou uma rosa. E a rosa
poderá ter água nos pulmões?
Há hospitais para rosas?


Egito Gonçalves

18.9.08



O primeiro sopro arrancou-lhe a roupa;
o imediato levou também a carne.
Ao longo da rua
durante alguns segundos correu o esqueleto.
Mas a rua já não estava,
estava toda no ar;
de lá caíam bocados de prédios, bocados
de crianças, restos de cadilaques...
O esqueleto não compreendia sozinho
aquela situação:
deixou-se tombar sobre algumas pedras radioactivas
e permitiu na queda o extravio de alguns ossos.

(Caso curioso: o coração
pulsou ainda três ou quatro vezes
entre o gradeamento das costelas.)


Egito Gonçalves


4.8.08

Por algum motivo as lágrimas descem

Por algum motivo as lágrimas descem
até à boca.
Mastiga-se o sabor, entra
no sangue o sal,
em vida se transforma, é
sulco que a dor abre, fertiliza,
aberta linha de semeadura onde
poderá surgir um bosque,
uma cidade, uma injustiça...

É o gosto da dor
que vitaliza, acende o palpitar
no coração que sobe à superfície.

Descem até à boca
por algum motivo as lágrimas.

Egito Gonçalves


7.5.08


Praça da Liberdade


Sobre a cabeça brônzea de D. Pedro
sempre pombas repousam no bicórnio.
Dificilmente se pensa em homenagem
a excremencial oferta a que se entregam
alados bandos que nele se revezam;
melhor se inscreveriam em vingança
do ali vencido miguelismo. Ódio
velho não cansa. As pombas
são as vacas sagradas da cidade.
E também na farda de Caçadores 5
o verdete se compraz. E na Carta
Constitucional! Razão teve el-rei
para doar à invicta cidade
o coração, mas esse posto a salvo
no resguardo prateado da Lapa: ali
ouve missas, concertos de órgão.
Longe do corpo
nada o perturba, goza as flores
das beatas, o repouso do guerreiro.
Simbolicamente apenas
monta o cavalo sobre a Fonte da Arca,
revê a muralha que no seu passado
ainda protegia o mosteiro, ouve, talvez,
os doces madrigais dos outeiros de S.Bento,
pensa no passado de que é já um ícone
e de longe a longe amaldiçoa as pombas
com os palavrões que soldados e vivandeiras
lhe ensinaram nas batalhas do Cerco.


Egito Gonçalves


7.4.08

Jardim da Cordoaria


Dia e noite os leões forneciam água!
Apossavam-se do nome do lugar,
deixando na sombra o topónimo ilustre.
Eu saía do eléctrico, atravessava a praça,
depois a Cordoaria
onde um Nobre sem corpo ouvia os patos
e à noite coisas que não teria sonhado
no tempo em que de inglesinhas alimentava
os seus poemas. "Era um jardim de má fama"
cantaria o Pedro. A alameda dos plátanos
era o recreio da escola. Ali jogávamos
a barra, a polícias e ladrôes ou
ao pilha-galinhas quando o guarda não
vigiava a proibição de pisar a relva.
A igreja, ao lado, olhava as Virtudes,
as altas grades de impedir suicídios
por desgostos de amor. E do outro lado
os ladrões espiavam de outras grades
a liberdade ajardinada onde brincávamos.
Uma janela se tornara célebre
por ter permitido o olhar de Camilo,
ter-lhe dado, na solidão, uma nesga de rio,
enquanto pelas tardes afiava a caneta
o varapau com que iria zurzir, determinado
e férulo, burgueses e "brasileiros".
Grandes navios sulcavam a corrente,
levando galerianos para as áfricas
e grandes malas de porão para os brasis
de futuros comendadores. Passavam automóveis,
nós corríamos, "apanhei-te", e de Camilo
não sabíamos nada, não constava
dos livros que perdíamos pelos bancos
onde hoje – meio século passado –
velhos reformados jogam a sueca. O jardim
tinha os seus encantos, a árvore da forca,
o vendedor de gelados, o caramileiro,
em cada nove de Abril o canhão disparava
na álea dos nossos jogos tiros de pólvora seca
para comemorar a «derrota» do CEP. Sempre
dominámos bem a teoria das vitórias morais.
Voltando a Camilo: um novo Amor de Perdição
daria hoje para comprar um automóvel, daria
para amigos cento e dez darem umas voltinhas?
A liberdade pode ser um motor, uma boa estrada
para S. Miguel de Ceide, um boné de postilhão
atrás do volante que nos afaste das grades
do cansaço, da rotina, da ideia da morte
que aflora os nossos passos ou embrulha
as insónias, desliza comprimidos no esófago.
Hoje, quando ali passo, os leões prosseguem
o seu rugido de água, divertem-se, quando há vento,
a borrifar os transeuntes. Mas são
os reis dos animais, possuem a única fonte
onde a água da cidade nunca seca. Como a inspiração
de Camilo, o seu olhar o jardim além das grades,
a sua memória fixada na relva, essa relva
que então não podia ser pisada e que agora
a estranha maquineta do jardineiro apara
para que melhor reverdeça. O seu ruído
leva-me a sentar num dos raros bancos
para brincar um pouco com o passado,
cerzir farrapos da longínquia memória
que me ficou na pele. Passo-os na retina
antes de seguir o meu caminho. Camilo fica
a olhar o Palácio da Justiça. Não saberei
se ele lhe acha alguma graça. A estátua
tem os olhos abertos, recolhida a balança.
Coisas muito suspeitas,
a acreditar na tradição.


O itálico reproduz um verso do Pedro Homem de Melo

Egito Gonçalves

7.3.08


A bucólica margem


Sento-me então a olhar o rio,
os pensamentos formam cardumes
que contra a corrente se insurgem
mas as águas são inexoráveis;
olhando-as, a superfície cintila,
propaga-se como se fossem notas
de um piano na garupa de um cavalo
que se dirige para o mar.
O Douro bebe as cores da cidade,
sobre elas eu abro o coração
em que te encontras, as colinas
emolduram as raizes que à terra
nos ligam. Para os meus olhos
é momento de pausa: as coisas
que interrogo não resistem à maré,
não dão respostas; perdem-se no mar
como tudo o que a memória não reteve.
Mas este rio
já foi longamente folheado, nele
escrevemos
o romance que nos deu uma casa,
nos cortou o cabelo, nos afastou
das rugas, nos entregou o azul
(tecido, nuvem, divã, janela...),
o voo das artérias, lugar do corpo,
portas que amanhecem, espelho
onde fazemos fluir a vida. Acordes
da guitarra que forja o horizonte,
que guia o sinuoso voo das gaivotas
e acaricia a pele que rasga atalhos
no interior dos sonhos. Estarei
vivo enquanto assim me guardar
teu coração. E no seu lucilar,
esta água imita o fogo
que devora sombras e escombros,
libertando a asa que no sangue
respira. A foz está próxima,
mas o horizonte é o teu olhar.
No leitor do carro, a guitarra flexível
sublinha o que divago; os acordes
disparam,
encontram-me na trajectória do seu alvo.


Egito Gonçalves

21.1.08


Difícil é esperar
quando sabemos
nada haver a esperar.

O eco de uma lágrima não basta
para dar vento à sementeira.


Egito Gonçalves


6.1.08


Como cresceram as brasas! Como queimam
o ar em que desenho
o vazio dos dedos!

Que mala de amianto possuir
para guardar o fogo
de iluminar as noites que virão?

Egito Gonçalves