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14.2.11

Quando cheguei a casa


Quando cheguei a casa o meu porco Rosalina
estava a escrever à máquina. Fiquei num grande
estado de perplexidade e por isso perguntei o que
estás aí a fazer. Sem erguer a cabeça Rosalina
apontou com o chispe para o papel convidando-me a
ler. A folha estava em branco porque Rosalina tinha
retirado a fita da máquina para a enrolar na sua
encaracolada cauda que nesse momento agitava com
prazer. Rosalina foi sempre o que me impeliu ao
mergulho na metafísica. Por isso sem dizer nada
dirigi-me para a cozinha. Abri a gaveta dos talhe-
res. Tirei a grande faca do estojo do trinchante.
Acendi o lume e pus a grelha a aquecer. Dirigi-me
de novo para o escritório onde Rosalina escrevia à
máquina. Cortei-lhe algumas febras do lombo. O
suficiente para uma bela refeição. Cortei também
um pedaço de fita para enfeitar a travessa.


Ana Hatherly

1.12.10

Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho



Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado

Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde

Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado

Ana Hatherly

23.8.10

Auto-retrato


Este que vês, de cores desprovido,
o meu retrato sem primores é
e dos falsos temores já despido
em sua luz oculta põe a fé.

Do oculto sentido dolorido,
este que vês, lúcido espelho é
e do passado o grito reduzido,
o estrago oculto pela mão da fé.

Oculto nele e nele convertido
do tempo ido escusa o cruel trato,
que o tempo em tudo apaga o sentido;

E do meu sonho transformado em acto,
do engano do mundo já despido,
este que vês, é o meu retrato.

Ana Hatherly

1.2.10

Pensar




Pensar
é como tactear uma sombra
entrar de rastos
numa profusão de escuros

Ana Hatherly

28.11.08


Um rio de luzes

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Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca

No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta

Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido

Ana Hatherly

14.9.08

Voar...

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Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo,
os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência

E isso é voar?
Não.
Voar é humano
é transitório,
momentâneo...
Aquele que voa tem de pousar em algum lugar:
isso é partir
e
não voltar.

Ana Hatherly


28.8.08

O círculo...

Hebergeur d'images

O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.

Ana Hatherly

8.5.08


A memória é
onde os sonhos adormecem
Despertando

abrem janelas no tempo
Ana Hatherly


4.5.08


As palavras-objectos


Estou aqui
no mundo das palavras-objectos
que mudamente me falam
com quem mudamente falo
ao usá-las:
mas que uso fazem elas de mim?

Se bato nelas, elas batem em mim
se estou irritada, ameaçam-me
ameaçam ferir-me
fazer-me tropeçar, cair, soçobrar

Mas se estou calma e confio nelas
então elas confiam em mim:
entregam-se
enchem os meus dias
amparam as minhas noites
ternamente
aconchegam-me em suas estruturas

Mas porquê?
porquê?
para quê?


Ana Hatherly


2.5.08


Diante do Lago Ohrid em Struga

I

De Manhã

Diante deste lago
tão vasto que parece um mar
oiço o leve ruído das suas pequeninas ondas
estirando-se na areia.

Um lago é uma água prisioneira:
só o mar atira para fora
para longe

Mas também o mar está preso à terra.


II

Estou à beira do lago:
é o fim do Verão.
Sentada debaixo de uma grande árvore
algumas folhas já amarelas
caem de vez em quando sobre mim.
São poucas
discretas
mas nelas sinto já
o princípio do regresso à terra funda.


III

Neste ponto do lago
há um canal:
a corrente estreita-se
forma um pequeno rio
que mais adiante ganha velocidade
e depois desaparece
numa súbita curva do percurso.

Olhando eu penso:
este lago é um corpo
tem uma corrente sanguínea
esta é uma das suas verdes veias.


Ana Hatherly

20.4.08

Se uma pausa não é fim



Se uma pausa não é fim
e silêncio não é ausência,
se um ramo partido não mata uma árvore,
um amor que é perdido, será acabado?

um ouvido que escuta
uma alma que espera...
-uma onda desfeita
É ou já não era?

Nuvem solitária,
silenciosa e breve,
nuvem transparente,
desenho etéreo de anjo distraído...

nuvem,
esquecida em céu de esperança,
forma irreal de sonho interrompido..

nuvem,
luz e sombra,
forma e movimento,
fantasia breve de ânsia de infinito...

nuvem que foste
e já não és:
desejo formulado e incompreendido.


Ana Hatherly

15.4.08


Canto-te para que tu definitivamente existas
Canto o teu nome porque só as coisas cantadas
realmente são e só o nome pronunciado inicia
a mágica corrente
Canto o teu nome como o homem fazia eclodir
o fogo do atrito das pedras
Canto o teu nome como o feiticeiro invoca
a magia do remédio
Canto o teu nome como um animal uiva
Como os animais pequenos bebem nos regatos depois
das grandes feras
Canto-te
e tu definitivamente existes nos meus olhos
Sempre abertos porque é sempre os meus olhos
são os olhos da criança que nós somos sempre
diante da imensidão do teu espaço

Canto-te
e os meus olhos sempre abertos são a pergunta
instante pendente de eu te interrogar
e interrogo as coisas em seu ser nocturno
em seu estar sombriamente presentes na tua claridade
obscura
E como é sempre
meus olhos abertos perscrutam-te
símbolo de tudo o que me foge
como apertar o ar dentro das mãos
e querer agarrar-te
oh substância
Canto-te
Para que tu existas
E eu não veja mais nada além de ti


Ana Hatherly


9.4.08


No seu jardim feito de tinta...
com insólita serenidade
o poeta percorre as áleas da memória
e caminhando por entre signos
contempla a distracção nula do tempo
o paradoxo incrível do ser
a ferida íntima da alma


Ana Hatherly

9.1.08


A palavra-escrita


A palavra-escrita
é um labor arcaico:
sulca enigmas
venda e desvenda
o sentido do gesto

É uma imagem detida
recolhida do mais fundo cinema íntimo
onde o verdadeiro
é um ser invisível

O cinema do mundo está aí
onde houver ilusão
onde houver vontade de ver
mesmo que seja só o nada


Ana Hatherly


6.1.08


Ela - Agora


Não menos que Helena bela
Ela senta-se à janela
Porém não à janela mas às janelas
Do computador
Que abrem portas que são redes
Páginas que são sítios
Avenidas que são ermos
Que agora percorremos
Já sem voz
Cada vez mais sós

Tanta profusão
Atira-nos
Para um lixo que nos deita fora


Ana Hatherly


26.11.07

Auto-retrato

Hebergeur d'images

Este que vês, de cores desprovido,
o meu retrato sem primores é
e dos falsos temores já despido
em sua luz oculta põe a fé.

Do oculto sentido dolorido,
este que vês, lúcido espelho é
e do passado o grito reduzido,
o estrago oculto pela mão da fé.

Oculto nele e nele convertido
do tempo ido excusa o cruel trato,
que o tempo em tudo apaga o sentido;

E do meu sonho transformado em acto,
do engano do mundo já despido,
este que vês, é o meu retrato.

Ana Hatherly

18.9.07

Hebergeur d'images

Quando tu vens ao meu encontro
sorrindo

Rosa precipitada
antigo Mar Vermelho
meu coração
abre-se

Ana Hatherly

15.2.07


A silenciosa força das flores



A silenciosa força das flores
Emana de suas cores
Que são a sua voz
Os seus anúncios
O seu mosaico de intenções
E digressões
Vitais em seus prenúncios

Sua beleza
Sua inestimável fineza
Está
Em seu corpo a corpo com o desejo
Sua façanha é
Inspirar o beijo
Do errante visitante que as fecunda

Silentes
Apelam
Dando gritos de perfume

Ana Hatherly