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4.3.11

Uatoála



e tu, que não calculas o tormento
que sofre quem assim te vê fugir,
começas lá de longe então a rir
em quanto preza sou do desalento…

e eu, que dava a vida n’um momento
por só um beijo teu poder fruir,
quizera a tua imagem ver sumir
p’ra sempre no voraz esquecimento…

mas quando tu me vez desanimado,
o meu olhar sem luz embaciado,
com o peito arquejante e preza a falla;

vens assentar-te logo ao pé de mim,
e um beijo, um beijo teu me dás por fim
dizendo com meiguice: - Uatoála…

Eduardo Neves
Angola

4.1.11

Cana'ngana



à sombra da palmeira sussurante
eu gozo as delícias de capua,
ouvindo com prazer cantar a ndua
na múrmura floresta verdejante

a brisa perpassando, de inconstante,
oscula com meiguice a face tua;
desprende-te essa trança e continua
beijando-te esse colo provocante...

quem dera, minha amada, que esta vida
me fosse dado ver sempre envolvida
na luz do teu olhar, bela africana

mas quando tento louco dar-te um beijo,
sem nunca saciares meu desejo
tu foges, suspirando: - cana'ngana

Eduardo Neves
Angola

4.12.10

A uma africana


nos teus olhos pestanudos
eu vejo um mar de desejos,
nos lábios, talvez carnudos,
um labyrinto de beijos.

a tua boca mimosa
é um cofre de coral
onde tu guardas vaidosa,
dentes brancos sem rival.

as ternas modulações
do teu olhar pausado,
dão-me às vezes tentações
de me matar a teu lado.

se fallas não sei que mago
som me attrahe e fascina;
parece, ao longe, n’um lago,
ouvir-se uma cavatina.

eu tenho um certo receio
de bem encarar de frente
o teu olhar, todo cheio
d’um fogo surprehendente.

as tuas faces para mim, -
- d’um moreno provocante,
são as rosas d’um jardim
de perfume estonteante.

na curva pronunciada
do teu collo admirável
poisa às vezes, confiada,
minha vista insaciável!

não sei que graça infinita,
que mystérios nelle vejo;
quem me dera ter a dita
d’hai matar um desejo.

n’um revolto desalinho
teus cabellos ondeados
parecem o fofo ninho
de dois pombinhos amados.

se teu conjuncto contemplo
sinto uma doce vertigem
julgo-me dentro d’um templo
adorando a santa virgem!

será feliz quem tu queiras
o que teu amor inflame;
gentil filha das palmeiras,
ngu xála, ngâna, ngui’âme (1)

(1)”Deixo-vos, Senhora, retiro-me”


Eduardo Neves
Angola

4.1.09

N'um Batuque



N'um batuque hontem andei,
onde vi certa morena,
tão gentil era a pequena
que nem eu dizel-o sei
- Como está? lhe perguntei
logo que de perto a vi,
- Quer dansar? lhe repeti,
não se acanhe minha bella, -
- tunda bobo, me disse ella,
Ou antes: - Saia d'aqui
- Seja meu par, oh menina
não se zangue por tão pouco;
- Uá salúcia, é você um louco,
Gámessenâ'me qu'quina
- D'esse olhar a luz divina
fascinado me deixou!
se um beijinho, só, lhe dou
gozarei prazer infindo,
- Quicolá, me disse, rindo,
logo de mim, se affastou.
- Por que foge? venha cá,
porque só me deixa aqui?
- Uá móno... mundele inhi...
Guamiâne... ndé cuná
- Por favor, não se vá já,
é ainda, muito cedo,
- Quiússuca, disse a medo
a moreninha tão linda
Caté mungo, disse ainda,
e retirou-se em segredo...

Eduardo Neves
(poeta angolano)