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5.3.11

Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono



Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono
e história
e só as coisas torpes e destruídas
cobriram os campos e tornaram cinza o verde?

Oiço exércitos do norte do sul e do leste
fantasmas lançado o manto das trevas
os rostos exilando-se de si mesmos.
Oiço os exércitos e todo e qualquer som abafarem.
- Não ouves a chuva lá fora, a voz de uma mulher,
o choro de uma criança?
Oiço os exércitos, oiço
os exércitos.

Quero reconstruir tudo - alguém disse
e ouvimos cair as árvores.
E vimos a terra coberta de acácias
e as acácias eram sangue.

Estamos à beira de um caminho
- que caminho é este?
Inventam de novo o voo dos
pássaros.
Aqui já se ouviu o botão da rosa a desabrochar.

Maria Alexandre Dáskalos
Angola

15.12.10

E agora só me restam



E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz - esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.

Maria Alexandre Dáskalos
Angola

15.11.10

O garoto corria corria


O garoto corria corria
Não podia saber
Da diferença entre as flores.
O garoto corria corria
Fugia.
Ninguém lhe pegou ao colo
Ninguém lhe parou a morte.

Maria Alexandre Dáskalos
Angola

15.10.10

A alma é como a lavra



A alma é como a lavra.
Quando as nossas mãos voltam a desfiar.
O milho amarelo de ouro?
Que outras mãos que as nossas semeiam
O medo e o silêncio da morte?
Por que este frio? Por que tão longa a noite?
Como se faz o mundo? Quando começa o mundo?

Maria Alexandre Dáskalos
Angola

15.9.10

As velhas tias organizam velórios




As velhas tias organizam velórios
e com o pêndulo do ocaso

invertem as rotas dos barcos
saídos do cais ao fim da tarde.

Ecos que já não lutam com ventos perigosos
de aromas marinhos
anseiam chegar à ilha para ver os pássaros
e
preguiçar na promessa de uma ilusão cumprida
Ao fim da tarde...

Maria Alexandre Dáskalos
Angola

15.8.10

Um homem ao crepúsculo


Um homem ao crepúsculo
sabe que os poetas e as mulheres
percorrem as ruas da cidade

na peregrinação dificílima do amor.
Esperam-nos em caves secretas
unguentos e odores tropicais
então, um homem tranqüilo torna fácil a nudez.

Maria Alexandre Dáskalos
Angola

15.7.10

Amendoeiras selvagens



Amendoeiras selvagens
em flor
a rasgar o verde
da mata de inverno.

Plenitude de maturidade
como relógio de areia
a marcar os quarenta anos.

Maria Alexandre Dáskalos
Angola

15.6.10

Nasceu em mim uma fonte



Nasceu em mim uma fonte
nada sabia dessa água
até encontrar as margens
desta escrita
que quis fosse lisa
como pedra mármore

Maria Alexandre Dáskalos
Angola

28.3.10

E Agora Só Me Restam


e agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz - esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.

Maria Alexandre Dáskalos
Angola

26.9.09

Quando ouvires o toque dos sinos


Quando ouvires o toque dos sinos
lembra-te
eles guardam a filigrana
dos despojos dos dias.


Maria Alexandre Dáskalos
Angola

28.6.09

14.5.09

A alma é como a lavra




A alma é como a lavra.
Quando as nossas mãos voltam a desfiar
O milho amarelo de ouro?
Que outras mãos que as nossas semeiam
O medo e o silêncio da morte?
Porquê este frio? Porquê tão longa a noite?
Como se faz o mundo? Quando começa o mundo?


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)



5.6.08




A noite vive lá no norte.
Seis meses sem uma noite,
e não houve um só raio de sol
que tocasse a sua alma.

Vem, deita-te neste país
só ele te aquece.

Sempre, sempre noiva
a aurora.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)


12.5.08


E agora só me restam



E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz - esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)


1.5.08


Primeiro amor. Vivi aí.



Primeiro amor. Vivi aí.
Casa grande de janelas abertas
para o verde, chave do nosso coração.
Meninos do bom Deus com histórias diferentes
e o mesmo temor e segurança.
Tudo tinha muita cor
como as casas pintadas de fresco
e as ruas debaixo da sombra das árvores.
Dos jardins víamos os novos modelos dos carros
dos anos setenta.
Havia concertos para piano sem orquestra.
E, às vezes, mulheres, loiras muito loiras
cantavam músicas de nós desconhecidas.

Posávamos para os fotógrafos
moças virgens esperadas à saída das aulas
e ouvíamos "if you are going to San Francisco".
As fotografias dessa época estão em casa das tias
e os nossos olhos de terra ou de água ou de noite
não são o que eram: por isso, continuam os mesmos.

Ondulam as cortinas levemente
como a última brisa
para lá da sebe junto aos muros baixos
oiço o barulho das árvores
imensas e antigas
e lembra-me um andamento
das Fantasias de Schumann.
Primeiro amor. Vivi aí.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)



Os anjos choram


Uma cidade caiu
e os homens perderam-se nos trilhos
das casas agora desabadas.
As mulheres de joelhos em cima do
nada

já não sabem rezar.

Os anjos choram
e o bálsamo de todas as
feridas
não chega até nós.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)

15.4.08


O garoto corria corria...


O garoto corria corria
não podia saber
da diferença entre as flores.
O garoto corria corria
não podia saber
que na sua terra há
morangos doces e perfumados,
o garoto corria corria
fugia.

Ninguém lhe pegou ao colo
ninguém lhe parou a morte.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)

13.4.08



Tu estavas lá.

Cheirava a cedro na casa,
as hortenses cresciam junto ao muro,
as rosas eram tantas.

E um dia cheguei tarde -
as árvores agora abatidas e o muro despido
Perdão, eu pensava que sempre estarias.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)

25.2.08


Resignação


Da resignação nada sei.
O mar está encapelado
sou um barco.
Guardo os sapatos, fecho as portas
passeio à chuva.
Espero o vento
há que colher os frutos.

Tu descansas serenamente
folha leve, por terra
fim de cacimbo

Os heróis não voltam.
Dormes, não queres estar vivo.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)

18.2.08


Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono


Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono e história
e só as coisas torpes e destruídas
cobriram os campos e tornaram cinza o verde?

Oiço exércitos do norte do sul e do leste
fantasmas lançado o manto das trevas
os rostos exilando-se de si mesmos.
Oiço os exércitos e todo e qualquer som abafarem.
- Não ouves a chuva lá fora, a voz de uma mulher,
o choro de uma criança?
Oiço os exércitos, oiço os exércitos.

Quero reconstruir tudo - alguém disse
e ouvimos cair as árvores.
E vimos a terra coberta de acácias
e as acácias eram sangue.

Estamos à beira de um caminho
- que caminho é este?
Inventam de novo o vôo dos pássaros.
Aqui já se ouviu o botão da rosa a desabrochar.


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)