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6.3.11

Ridículo



O here we go, round and round again
The Virgin Prunes



E assim a minha alma
começou a perder aulas,
a fechar-se em canivetes,
a deixar crescer a sombra.
Já sabia que, na vida,
só depois do exame
é que chega a lição.

Fui servido ao caprichoso
ziguezague do acaso;
que me trouxe quase inteiro a
este pálido caderno,
onde toda a matemática
se ri do meu intento
de somar a não o nada.


José Miguel Silva

7.2.11

Volta ao mundo



1.

Voltemos a isto, à contagem dos erros
na soma do mundo, à impotência do riso
contra tudo o que não sabemos mudar:
a morte, o egoísmo, o levadiço coração
humano. Porque não há mais nada (ok
há o amor - vai-te foder) e no mercado
do juízo a catequese está em alta.
Regressemos à toada desta fábrica de luz
defeituosa, intermitente como a vida.
Se não há melhor emprego para a culpa
e os domingos custam dias a passar.


José Miguel Silva

7.1.11

Três



Era um gato com oito semanas e medo
dos meus oito anos. Ao cravar em mim
as unhas, ainda vejo o sangue
no seu focinho banzo. Às vezes o amor
degenera em violência. Ao terror do outro
respondemos com pedradas cegas.
Aflitos por não compreender.


José Miguel Silva

7.9.10

Capella Strozzi



Analfabetos, entendiam
sem esforço os bonequinhos
na parede, os episódios
aludidos nas vinhetas,
seus ditados e sinais.
Tudo claro, para eles,
tudo íntimo e solene,
nutritivo como pão.

Nós, letrados, percebemos
só depois de compulsar
o Amador Hagiográfico
ou catálogos de símbolos.
Para nós é tudo vago,
duvidoso. Só as formas
nos consolam, e as cores,
a impostura da beleza.


José Miguel Silva

6.5.10

Ítaca



A salsa, o lúcio não têm pressa
e o fio de azeite aprende a esperar.
Cada dia que passa, não sei como é -
jantamos mais tarde. Precisa uma casa
de ter quem a viva, quem reze por ela,
por isso te espero de roupa no chão,
sem nada vestido debaixo da pele.

Abrimos a água, enxugo-te o rosto
podemos agora deixar de mentir.
Só com o corpo, relógio parado,
deixámos o mundo a rugir no escuro.
Urtiga nenhuma nos vai separar.
Ouvimos o sulco da garra na porta
e rimo-nos baixo. Não sei como é -
cada dia que passa jantamos mais tarde.


José Miguel Silva