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6.7.11

Samarcanda


Navega-nos por dentro como o mar
o fortuito desejo de a possuir
Incidentes solares onde o lume
de dentes e espadas seja baço
para que o sol não desalinhe
as planícies dela derramada
no tumulto do poente
Pálpebras pesando
sob o peso da consciência
Orientes rumorejando o silêncio
nas gargantas
irrigado pela velha poeira do sangue
Aqui os Homens são feitos
de chão sem vento
e os rostos gritam ideiais
mesmo antes de desabarem


Andreia C. Faria

5.1.11

Um dos gatos era qual o velho da rua pardo


Um dos gatos era qual o velho da rua pardo
velho sacudindo
a barba à chuva e amolando
tesouras no dealbar das mãos na espera
de haver relento
sorria no ápice de quem
tropeça
num corpo mais feliz
Era como o gato o velho um dia
inteiro presente
era possível iniciá-lo
atravessar-lhe a funda carícia das horas sem ideia
de o deixar dormir


Andreia C. Faria

16.5.10

Branca de Neve



A corcunda não me pesa, ossos quebrados foram
asas qual nuvem sem voo. Sou velha, mas as letras cirandam-me
como anões em desígnios florais. Era bela
quando a noite tingia os rostos e a morte não me via.
Se a morte não estava dizia o rito, íntima
da manhã e do pão quente ponderava
o que havia de promessas sobre os móveis
Era bela agora apenas deixo o corpo
abreviar-se e resisto aos livores do sono
A solicitude das raparigas solteiras
e peras cozidas para ajudar à digestão
sobrevivem-me


Andreia C. Faria

6.2.10

Quero partir



Quero partir
saudosa do futuro. Sei que assim crescem
as árvores que deixei sem dizer adeus
Viajar marca na pele
o tempo sem tempo que fica para trás


Andreia C. Faria

6.11.09

De haver relento



Derramavam-se sobre os móveis prometendo
calor no Inverno, as excessivas subtilezas
de Março ou
um crescer maligno de glaciares em
Agosto
Quando a voz morria as mulheres saíam
para ver
a luminescência do céu tombando pouco
importava que lhes caísse basta
um templo para caiar de branco uma cidade


Andreia C. Faria

6.9.09

A mim que o teu corpo transcende



A mim que o teu corpo transcende
com a infinita lonjura de asas
reserva-se o direito de aguardar nas encostas
nas escarpas
na sombra dos pinheiros
na essência ardida dos cabelos como pinheiros
o teu regresso das montanhas


Andreia C. Faria