Mostrar mensagens com a etiqueta Heliodoro Baptista (Moçambique). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Heliodoro Baptista (Moçambique). Mostrar todas as mensagens

11.1.09

Em redor das fogueiras


para o José Craveirinha

em redor das fogueiras
os planos se engendram nos ciscos
irónicos das faúlhas cada ponto luminoso
é uma hipótese indefinida
de um mistério a tentar-nos

firmados no apoio do terreiro
as cubatas fecundam o clamor da noite
reinventada
e o cacimbo é apenas uma antipática sensação
a remoer-nos os corpos transidos

mas a manhã é sempre o hálito da vitória das decisões e dos sobressaltos
o reflexo caudaloso
de uma eternidade rectificada


Heliodoro Baptista
Moçambique

13.7.08

Alegoria


Em Inhaminga, meu amor,
estão as armas apontadas para o céu
mas só há pássaros.

E como as armas pensam no canudo do seu cérebro
que as aves são inofensivos passarinhos
estes aproveitam a confusão
dos pára-quedistas já cansados.

Por isso cada pássaro que voa pelo céu
(luminoso como uma palavra boa)
deixa cair melancolicamente
o seu depósito de agradecimento
sobre as armas
e a estupidez dos generais.

Vorazmente, meu amor,
o destino da terra passa
e cria-se entre o ventre das armas
e o círculo da esquadrilha voadora
o futuro desta terra
que alarga e fermenta.

Tudo isto em Inhaminga,
com o tamanho deste país,
meu amor.


Heliodoro Baptista
Moçambique

9.7.08

À volta das origens

Ao Rui Knopfli e ao Eugénio de Andrade


Sim, de facto, «uma só e várias línguas
eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria».

Outros vieram e estão
na curva ambulatória do terreno,
entrecortando a escrita ao sol
com a que, na bruma, lascivo lugar
dos malditos de esgares cínicos
mas persuasivos,
estrangula, subverte também
a repulsa.

Alguns reencarnam, voltam a nascer
de uma emoção que, anos atrás,
os condicionou, e isso tem sido notícia,
curiosidade incorporada
na astúcia discreta dos que triunfam
pelos propósitos trazidos
há um quarto de século.

Palmeiras, casuarinas, eucaliptos,
micaias, planuras, mangueiras, enfim,
a ainda inacabada totalidade do país amado,
tudo existe, não é mitológica passagem
de forças cujo núcleo, por estranho, também,
que pareça, é uma ordem desordenada,
uma certeza de mil incertezas,
mas isenta já de prodígios,
confusa e humana.

Nós outros, como vós, os que virão,
baixos-relevos das mais remotas
e tranquilas paisagens onde o tempo urge
propostas originais,
desencadearemos talvez a infidelidade
a outros mitos que a escrita, impressiva,
esconjura nos significantes.
Suportemos, como compensação, os impulsos dos néscios.


Heliodoro Baptista
Moçambique

28.3.08

Paisagem com poema em segundo plano


I

«Tantos nomes que não há
para dizer o silêncio».
Através das palavras, as que sobraram
dos outros e se encurvam à luz
edificámos a casa, flores alucinantes
e a canganhiça do fogo eterno
que há no amor.
Com esta não invoco um nome
e o meu país, acocorado, volta-se de perfil
com suas mulheres magras e sombrias e trágicas
pegando fogo aos sexos extenuados
As quizumbas deixam de ladrar
quando o medo cessa e da paisagem em movimento
(os rios inúteis? o crepúsculo das vontades?
os cascos do remorso? as crianças sublevadas?)
nomeia-se, se embebe tipograficamente
a humildade dos vultos em fila
ante o impossível milagre dos pães.
Como no circo
há quem não bata palmas.
«Tantos nomes que não há
para dizer o silêncio»
mas lembro, soletro devagar:
nocturno e geralmente inacessível
um homem percorre todos os lugares
e volta-se escuramente
para dentro de si
- que é a única prisão disponível
para o tamanho da sua luz.
As estrelas baixam ao nível do chão
e guardam-no para a eternidade
que há em cada sono.



II

Tudo veio de muito longe
(murmuram-no as mulheres expostas
acariciando o púbis chamuscado)
para todo este território
onde as formas rápidas e convulsas
explicam as cabeças submergidas
na vertigem fabulosa
das parábolas.
Da infância à adolescência
os meninos souberam-no pelo Índico
na concha cheia de suas mãos puras e arrebatadas:
a dimensão do real é sempre discutível
como o adivinharam há muito
as aves canoras inundando
a inteligência da terra.
Fluo e refluo no tempo e na sua sombra
e dissimulo-me no capim, nos corais, no jardim urbano,
nas orelhas apreensivas, na crispação de alguns cristais
e sobretudo nos músculos das palavras ausentes
a crescer no formidável espaço do poema
- o amor inundará tudo
até ao sabugo das unhas.
Das letras, em algumas noites,
são esses os sinais que recebemos.



III

É isso: morre-se ou vive-se na ambiguidade
mas o amor empolga como nunca
antes em qualquer nervo desta galáxia.
Então pensamos:
por cima de toda a folha
há a luz, este surpreendimento
a suor de animais insaciados que se veste de nós
e de nós se assombra (ou inquieta, subverte?)
a urbana convivência
tecida em silogismos
e recamada de ódios.
As coisas, ah as outras coisas
surgem pela própria ausência.
E assim
há gente que ama a fome
pois sempre aprendeu dos novos fabulários:
a burla nasce quando a dúvida
acontece o simples e delicado povoado
onde o coração emite
as seculares ondas de repulsas.
As palavras amadurecem, transcendem-nos.
Como os dias. Este trajecto imemorial.
Os vãos escuros das escadas. Os estádios ao sol.
As vazias mesas. Uma criança estremunhada na noite.
O império dos sentidos. Uma braçada de folhas de mandioca.
Das mulheres feridas, a teimosia. Na pele, os mil olhos.
E insuspeita, delicadamente
a sombra reflexiva
(há séculos? desde ontem?)
de um escriba na audição
do poema que não fará.
Porque, hoje como nunca,
«tantos nomes que não há
para dizer o silêncio».


Heliodoro Baptista
Moçambique

14.3.08

Gravidez


Traço a traço
desvendo-lhe as feições
por onde a vida rufla
as grandes asas.

Como um vagabundo
se encosta dulcíssimo
na árvore da noite mais profunda
assim aguardo-a sob a pele.

O tumulto que a anuncia
é um som de remos
deslumbrando de ternura
a boca do rio.


Heliodoro Baptista
Moçambique

20.2.08

Inhaminga-87



I


Hoje, em Inhaminga,
afundo-me de imenso,
meu amor.


Hoje, sob a floresta
o fragar, exaurível,
das aranhas bordando as teias
da desesperança.
E enclausuramos os olhos
de pedra.


II


Como dizer-te, meu amor,
do acre, da folha tombada
por sobre o cabelo da criança
suspensa no inexprimível
nada de nada?


Como se modula o silêncio?
Que medida para o sangue
tumultuando nos rubores
de cada manhã?

III


Em Inhaminga, meu amor,
uma árvore despede-se
sobre alguém que nunca passa,
sobre as coisas que são
porque já ausentes.


Ali, para sempre,
A transparência do horror.
E por lampejos, os very-lights,
provocam o segredo inviolável
dos antepassados!


Heliodoro Baptista
Moçambique

10.2.08

Presságio, Minha Ave

(Ao Gringas e à Maria, Poetas de outro blue-jazz)

Estou doente como um cão
num barco içado pela babugem
no ritmo Índico puro da monção;

O homem que eu disse ser,
inescrupuloso, de rara penugem,
é o capitão deste barco a arder
no seu cachimbo em forma de coração;

Longe, a ilha de seu destino, é vaga ideia
em qualquer privado jardim da consolação:
céu, mar, gaivotas de fogo, o pé-de-meia
de quando eu ainda pensava ter razão.

Este homem recorta-se no vosso céu de aço;
Ventos temporais, estrelas caídas de fronte,
O cachimbo sem tabaco, o declinado horizonte
E o coqueiro híbrido na mão insurrecta, largo o espaço.

Já não estou, afinal, doente; para sempre fui e morri.
Mas pela noite África, oceânica, regresso. Renasci.


Heliodoro Baptista
Moçambique

15.1.08

Como um cão curvo-me


Como um cão curvo-me
e procuro ler nas marcas

que a noite não pôde
recolher o tempo.

Anima-me a superfície fabulária
onde o olhar do dia revolve
o que foi alvoroço vida
ou sinal ténue.

Detenho-me na pegada junto à cama
e a mão precavida incha a memória
nenhuma sensação acende
o que já está perdido.

(Perdidos os meus passos? A minha voz?
é assim tão terrível o amor ao homem?
a justiça foi calcinada em que ritual?)

Pouso então devagarinho
o ouvido na parede húmida
e eis que uma sombra volta-se
num largo aceno de simpatia.

Na paz indizível sopra
a fina aragem desanoitecida
a leve impressão
de um cochichar
uma porta entreaberta
onde pulsa uma esperança.

(Ontem já foi passado
e o minuto que vem
já é futuro).

Heliodoro Baptista
Moçambique