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1.2.10

Mensagem do terceiro mundo



Não tenhas medo de confessar que me sugaste o sangue
e engravataste chagas no meu corpo
e me tiraste o mar do peixe e o sal do mar
e a água pura e a terra boa
e levantaste a cruz contra os meus deuses
e me calaste nas palavras que eu pensava.
Não tenhas medo de confessar que te inventaste mau
nas torturas em milhões de mim
e que me davas só o chão que recusavas
e o fruto que te amargava
e o trabalho que não querias
e menos da metado do alfabeto.

Não tenhas medo de confessar o esforço
de silenciar os meus batuques
e de apagar as queimadas e as fogueiras
e desvendar os segredos e os mistérios
e desrruir todos os meus jogos
e também os cantares dos meus avós.

Não tenhas medo, amigo, que não te odeio.
Foi essa a minha história e a tua história.
e eu sobrevivi
para construir estradas e cidades a teu lado
e inventar fábricas e Ciência,
que o mundo não pode ser feito só por ti.


Fernando Sylvan
in A Voz Fagueira de Oan Timor

12.12.09

Natal Timor



Meu Natal Timor
Meu primeiro Natal!

Quantos anos tinha?
Nunca o soube ao certo!

Minha mãe-menina
Fez o seu presépio.
Uma encosta arrancada a Ramelau
Com uma gruta ausente
cheia de maromak
E perfume de coco.
Um búfalo e um kuda
E o bafo quente dos seus pulmões.
E o menino sobre a palha de arroz
E folhas de cafeeiro.

Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Inan, quem é?
- É o Maromak filho e teu irmão!

E eu recuei, porque via no berço
Um menino rosado
Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Ele é mais do que todos teu irmão...
- Mas, como pode ser um meu irmão?
-É teu irmão: Firma-lhe bem os olhos,
meu Amor!
E eu obedecendo
Firmei-me todo n’ele
E vejo-o desde então
Também da minha cor.


Fernando Sylvan (poeta timorense)


Maromak = Deus
Kuda = cavalo
Inan = Mãe

14.5.09

Infância



as crianças brincam na praia dos seus pensamentos
e banham-se no mar dos seus longos sonhos

a praia e o mar das crianças não têm fronteiras

e por isso todas as praias são iluminadas
e todos os mares têm manchas verdes

mas muitas vezes as crianças crescem
sem voltar à praia e sem voltar ao mar

Fernando Sylvan (poeta timorense)



9.4.08


Meninas e Meninos



Todos já vimos
Nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
Retratos de meninas e meninos
A defender a liberdade de armas na mão.
Todos já vimos
Nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
Retratos de cadáveres de meninos e meninas
Que morreram a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!
E então?


Fernando Sylvan (poeta timorense)

20.2.08

Menino Jesus da minha cor

Meu Natal Timor,
Meu primeiro Natal.

Quantos anos tinha?
Nunca o soube ao certo.

Minha Mãe-Menina

Fez-me o seu presépio:

Uma encosta arrancada ao Ramelau

Com uma gruta ausente

Cheia de Maromak
E perfume de coco.

Um búfalo e um kuda
E o bafo quente dos seus pulmões.

E um menino sobre a palha de arroz

E folhas de cafeeiro.


Um menino branco

Igual aos que chegavam de longe.


- Ínan, quem é?

- É o Maromak-Filho e teu irmão!


E eu recuei, porque via no berço

Um menino rosado,

Um menino branco

Igual aos que chegavam de longe.

- Ele é, mais do que todos, teu irmão...

- Mas como pode ser um meu irmão?
- É teu irmão: firma-lhe bem os teus olhos, meu amor!

E eu, obedecendo,

Firmei-me todo n’Ele.

E vejo-O desde então
Também da minha cor!

Fernando Sylvan (poeta timorense)