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13.11.09

Não pode haver nos olhos outra cor que



Não pode haver nos olhos outra cor que
esta camuflada cor dos dias nunca uns
olhos suportam outra água que não
seja de um rio que se esgota outra
boca nascente não pode haver e assim

se prova um nome um sabor melancolia
não pode em caso algum surgir a
dúvida a dúvida acarreta o sofrimento
alonga a noite ataca a vida e tudo
tão escusado tanto excesso ao menos

que dos olhos se retirem as mãos
supostas sábitas muralhas contra a
cor nascida com o dia tão excessiva
a cor a dor esta melancolia que se
agacha no fundo de um olhar não

pode haver nos olhos outra venda ou
seu disfarce ou magro fingimento agora
que sabemos onde pomos este corpo de
outono consentido e destinado ao vento.


Nuno de Figueiredo

13.8.09

Vimos de algures onde cantam as folhas


Vimos de algures onde cantam as folhas
e no chão das flores projectamos o sono
vimos todos vimos de muito longe onde
os pássaros não são um mero adorno
e cantam cantam nós vimos de algures

cujo nome esquecemos não é sítio não
há mapa capaz perdeu-se o dicionário
a geografia e perguntar agora não ajuda
é de algures é certo é mais que certo
mas a boca da resposta é muda e vimos

com as mãos de dedos mais vazios que
uma lágrima pura um cristal perfeito
cuja beleza provém dessa estrutura interna
dessa linha que passa como um eixo entre
o presente e o tempo remoto a primavera

pode ser de onde vimos ninguém sabe
ao certo ninguém nega só sabemos que
lá cantam as folhas e no chão das flores
projectamos o sono e no sonho bebemos.


Nuno de Figueiredo