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24.8.11

Molembú



Molembu minha rocinha
meu perfume de untué
minha riqueza perdida
num grãozinho de café

meu cacaueiro d'esperança
minha jaca abençoada
minha mangueira, meu jamble
minha cola desejada

minha amiga mandioca
entre o sisal escondida
minha banana meu pão
sustento da nossa vida

minha palmeira materna
meu coqueiro secular
minha fruteira d'encanto
descanso do meu olhar

Molembu minha rocinha
meu capim, minha floresta
meus passarinhos cantando
numa grinalda de festa

meu unkuêtê, minha rosa
de madeira e porcelana
meu antúrio, minha avenca
minha doçura de cana

tudo tem minha rocinha
abundância e qualidade
no distrito de Mé Zochi
para os lados da Trindade.


Maria Olinda Beja
São Tomé e Príncipe

21.3.11

Doçura



Os beijos em África são doces
doces como o untué que as crianças
devoram p'la manhã

As carícias em África são doces
doces como a banana-ouro
que teima em desaparecer da nossa ilha

O amor em África é doce
doce como o belo abacaxi
que se cria no mato e no quintal

Os homens em África são doces
porque os seus olhos são o untué das crianças
o seu corpo o belo abacaxi
e o seu sexo a tal banana-ouro
que não vai desaparecer da nossa ilha.


Maria Olinda Beja
São Tomé e Príncipe

21.2.11

Sonho



Pudesse eu um dia voltar à minha terra
ver os coqueiros e os cafezais em flor
ver as sanzalas transformadas em casas dignas
de homens que trabalham noite e dia

pudesse eu tornar a ver-te mãe
e abraçar-te e beijar-te até não mais
e ver finalmente os meus irmãos de cor
respeitados como eu sempre sonhei

pudesse eu ver as palmeiras da avenida
gingando ao vento e ao grande calor
e pisar essa terra agora nossa

pudesse eu daqui dizer-vos tudo
que sinto e que quero transmitir
pois mesmo longe estarei sempre ao vosso lado


Maria Olinda Beja
São Tomé e Príncipe

21.1.11

Meditando...




do que eu gosto mesmo é de correr na areia
sentindo-a roçar sob os meus pés
em tardes quentes loucas escaldantes
depois entrar pelo mar dentro qual sereia
que sabe dos segredos dos mortais
entrar...mas já não sair mais...

do que eu gosto mesmo é de sentir na pele
os salpicos provocantes das marés
e ter a sensação que o horizonte
é um todo homogéneo e uniforme
aonde o meu ser se delicia em tempestuosas
carícias de paixões incestuosas

do que eu gosto mesmo é de sentir no rosto
o vento quente do Sarah distante
que faz gemer as doces palmeiras
na rota insegura do meu peito ardente
e ficar assim feliz estendida
nas longínquas praias à espera da vida

do que eu gosto mesmo é de estar aqui
com chuva e calor com cheiro a cacau
escutando sempre o apito no cais
das vozes que amam o mar e a terra
breves mensagens de sonhos remotos
de barcos distantes perdidos ignotos

do que eu gosto mesmo é de saber que um dia
regressarei ao meu mar ausente
e irei saltar correr aqui e além
nas rochas quentes puras semi-nuas
saboreando o teu corpo amigo
de África-Mãe meu porto de abrigo


Maria Olinda Beja
São Tomé e Príncipe

20.1.11

Mulata


corpo de mulata
corpo de batuques e luar
corpo de serpente
a enroscar-se na árvore
corpo de mel e malícia
onde mãos buscam frementes
poemas de luz e cor
onde beijos estremece
entre seios ponteagudos
onde o sexo é uma flor
a oferecer as sementes
aos quatro cantos do mundo
corpo esguio e feiticeiro
por onde passa o amor
e fica ainda mais belo.


Maria Olinda Beja
São Tomé e Príncipe

1.2.09

Imprecisão




À MimiTchum Mi-Liem


“Teu olhar é corsário destemido de aventura
Nómada de oceanos
Ternura em traço leve
Leve traço de ternura

Teu rosto é concha de caranguejo
Abrigo de procelas
Beijo em terra longe
Terra longe num beijo

Tuas mãos são gomil de mestiçagem
Telas de delírio
Paisagens de horizonte
Horizontes de paisagem"


Maria Olinda Beja
(poetisa sãotomense)