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28.8.10

Se...



Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,

todas as copas das árvores
hão-de ladrar aos meus pés.

Até a lua por certo
com veneno cor do leite

à socapa vem morder-me
na ponta do calcanhar.

Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,

as ervas hão-de ceifar-me
antes mesmo de morrer.


José António Almeida

18.7.09

Cantilena



Uma ilha, uma hora
do coração dos meus dias
para sempre vibra fora
do tempo na minha vida.

Flutua perdida hora,
ilha morta dos meus dias,
pelo azul coração fora
no tempo da minha vida.


José António Almeida

21.5.09

A sós com Ganimedes




O sábio Freud não quis saber de ti
para nada. Todavia, tu serias

– muito mais do que Édipo, tão falado –
quem teria podido dar-lhe a chave

da porta que ele em vão tentou abrir.
A um canto, na sombra, como mito

rejeitado e por psicanalisar
para sempre, enigmático, ficaste.

Talvez um outro – menos distraído –
contigo venha a conversar por fim.


José António Almeida