
Passa um inglesa,
E logo acode,
Toda supresa:
What black my God!
Se é espanhola,
A que me viu,
Diz como rola:
Que alto, Dios mio!
E, se é francesa:
Ó quel beau negre!
Rindo para mim.
Se é portuguesa,
Ó Costa Alegre!
Tens um atchim!
"A poesia é o eco da melodia do universo no coração dos humanos." Rabindranath Tagore


Por pátria tenho o mar, como o corsário,
O meu primeiro pranto de inocência
Abafou-mo das águas a cadência,
Em concerto febril, extraordinário.
Poucos anos me tecem a existência,
Ou antes o tristíssimo sudário,
E já comparo a morte à Providência,
E a vida è erma noite do calvário.
Ainda em pleno Abril, não tenho sonhos
De amor, ou se os possuo, são medonhos
Pesadelos no sono e na vigília.
Ah! Que diga o exilado, o forasteiro,
Se pode ser o riso companheiro
De quem vive tão longe da família!...
Caetano da Costa Alegre (poeta sãotomense)
Não quero! Tenho horror que a sepultura
mude em vermes meu corpo enregelado.
Se no fogo viveu minha alma pura,
quero, morto, meu corpo calcinado.
Depois de ser em cinzas transformado,
lancem-me ao vento, ao seio da natura...
Quero viver no espaço ilimitado,
no mar, na terra, na celeste altura.
E talvez no teu seio, ó virgem linda,
tão branco como o seio da virtude,
eu, feito em cinzas, me introduza ainda.
E no teu coração, pequeno e forte,
(ó gozo triste!) viva eu na morte,
já que na vida lá viver não pude!
Caetano Costa Alegre (poeta sãotomense)

Vi-te passar, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante;
Ias de luto, doce, tutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;
Depois, cativa de invisível laço,
(o teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.
A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas
de abandono e medo.
No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.
Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba negra
e mortal das cobras.
Caetano da Costa Alegre (poeta sãotomense)