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11.8.11

Poema


Chegas com gaivotas
veleiro contra o vento
e tudo o mais sobra.

Cerro os olhos:
dentro das pálpebras
o desenho do teu rosto.

Teu corpo,
um aceno às aves
que alto voam.

Sumptuosa coberta de seda
contra a minha pele, a tua.

Com a sombra das árvores
confunde-se a seiva
e a sede que nos uniu.

Ficaram por colher
em tuas mãos as cores
exultantes do Verão.

Lá fora a minha solidão
vagueia com a tua ausência.

Levo a mão ao rosto
para enxugar uma lágrima tua.

No teu rosto
leio com ternura a ruína
que ameaçou o meu


Flor Campino

15.6.11

Abri a casa


Abri a casa
às nuvens
mas quem se alojou nela
foi o vento.


Flor Campino

11.6.11

Sem título


Imobilidade estival. Sobre a mesa
um livro, compota de cereja
fumegante ainda e, à volta, zumbidos
rasando o silêncio dos corpos e do jarro
ali deixados como coisas de sempre.

À tardinha, o incêndio familiar
no perfil do horizonte. Depois
o ladrar dos cães guardando-nos
o sono. E o desejo informulado
de que nada nada mais acontece no Verão.


Flor Campino

12.3.11

Tropecei na minha sombra.


Tropecei na minha sombra.
Oiço desde então
ecos do mundo.
Rios, que mar demandais?


Flor Campino

11.2.11

Dai-me, Senhor


Dai-me, Senhor,
casa dia a palavra,
a semente de fogo necessária
à lavoura. Dai-me ainda
a graça de uma vida devastada
de amor.
Mas livrai-me do medo
de ver a prece atendida.


Flor Campino

13.6.10

Entre ruínas permanece o segredo


Entre ruínas permanece o segredo.
Um tempo ronda ali
sem qualquer água para a sede.


Flor Campino

11.6.10

Agora sou



Agora sou
porto de silêncio que conhece
a rota da madeira,
porta do sotão
e turbilhão de folhas
que, pela cozinha, arrasta o vento.

Agora sou
a casa que conhece
múrmuras colmeias,
unhas do gato prateado,
o desatino matinal dos pássaros
e o amor das janelas pelas nuvens.

Ao perfume da erva
após a chuva
une-se o do café.

Do tempo passado
a decifrarmos juntos paredes
de granito e cal
vem-nos doce a fadiga.
Repousemos.


Flor Campino

11.5.10

Ausente quase


Ausente quase,
passeio
ao ritmo das ruas.

Árvores e estações
os pés me dançam.


Flor Campino

19.11.09

Pelas paredes


Pelas paredes
ficaram os retratos
mas as molduras não guardam
o que delas para sempre
se ausenta


Flor Campino

21.9.09

Vêm as últimas aves



Vêm as últimas aves
beber raízes
e Outono.
Tudo cresce para dentro.
Tudo aponta a sombra de ouro
que estremece.


Flor Campino

11.4.09

Rumorejam águas idas



Rumorejam
águas idas
E a sede de estar
a ouvi-las
na outra face do espelho


Flor Campino