8.3.11

Hoje


Hoje,
Só canto para as Mulheres:

As que passam na rua,
Aquelas que não saírem
Para a rua, as que se encontram
Na cozinha, no escritório,
Ao balcão, na enfermaria,
Na cadeia, no convento,
Na escola, no gabinete,
Na empresa, no sindicato,
No campo, no parlamento,
No lupanar ou na igreja,

Orientando o tráfego dos homens,
Chorando o filho morto pelos homens
Ou o filho feito à força pelos homens,
Lavando a roupa suja dos seus homens
Ou consertando os nervos rebentados,
Pelo silêncio-garra dos seus homens,

Essas Mães inconsoláveis
das Praças todas de Maio,
As mães de inocentes mortos
às ordens de homens-herodes,

As mães fiéis junto às cruzes
Que homens-pilatos ergueram,
Mulheres, Mães, virgens-loucas
De todos os noivos-machos,
Primas, amigas, vizinhas
De casa, de luta e sonho,
De raiva, de crença e vida,
Companheiras, inimigas,
Minhas irmãs, minha Mãe.

São Mulheres? Hoje basta.
É dia oito de Março:
Dia de eu pagar a renda
à Mulher-Mãe desta casa
Para onde há muitos anos
Mudei ao deixar a sua.
Por isso é que eu hoje canto
Só para as Mulheres: na rua
Ou noutro lado qualquer.

Salve, Mulher e Mãe! Amén!
E seja o que Deus quiser.

Lopes Morgado

Temos ruas, temos praças...



Mudam-se os tempos. Já
não sabemos as matinais canções
nem habitamos vilas morenas.
Toleramos serventes de pedreiro louros,
de preferência não legalizados. Queremos
um grande apartamento em condomínio
fechado, um ferrari, uma piscina, um topo
de gama de uma coisa qualquer.

Temos ruas, temos praças e pontes
com nome de revolução. Como todos
os países temos hino - nação valente
imortal. Tivemos canela e diamantes,
santos, barregãs e dinastias de
tiranos e servos. Andámos muito
no mar, trocando rotas e poderes,
escravos, inquisições e cruzes.

Agora, neste estreito
quadrilátero, de onde saímos
e mal regressámos, sem índias nem
quinto império - salvou-se o manuscrito do
Luís Vaz a nado - restam-nos a sardinha
e a conquilha - ao que consta cercadas
de barcos espanhóis - o bacalhau
que já não vem da Terra Nova, a memória
dos pescadores de baleias, esgotada a captura
nas ilhas.

Também temos o treze
de Maio, o negócio clandestino
das abortadeiras, a broa de Avintes,
os tintos, por enquanto de marca e
o leitão da Bairrada e o Benfica e
o Sporting e o Futebol
Clube do Porto.

Temos ruas, temos praças e
pontes com nome de revolução,
topónimos nebulosos que a distância
apagará. Apenas aquela rua
chamada Cantor Zeca Afonso
poderá surpreender o transeunte
se acrescentarem o aviso:

nunca quis uma rua
só para si.


Inês Lourenço

Antologia



SELÓ!
Mãe
teu filho regressou
SELÓ
Mulher
teu marido chegou
SELÓ!
Filho
teu pai voltou...

O mar
de abismos e terror

fustigou-os, atormentou-os
mas poupou-os desta vez
— não os tragou!


João Rodrigues
(Cabo Verde)

7.3.11

Soneto imperfeito da caminhada perfeita



Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas,
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.


Sidónio Muralha

O Album



Minha Júlia, um conselho de amigo;
Deixa em branco este livro gentil:
Uma só das memórias da vida
Vale a pena guardar, entre mil.

E essa n’alma em silêncio gravada
Pelas mãos do mistério há-de ser;
Que não tem língua humana palavras,
Não tem letra que a possa escrever.

Por mais belo e variado que seja
De uma vida o tecido matiz ,
Um só fio da tela bordada,
Um só fio há-de ser o feliz.

Tudo o mais é ilusão, é mentira,
Brilho falso que um tempo seduz,
Que se apaga, que morre, que é nada
Quando o sol verdadeiro reluz.

De que serve guardar monumentos
Dos enganos que a esp’rança forjou?
Vãos reflexos de um sol que tardava
Ou vãs sombras de um sol que passou!

Crê-me, Júlia: mil vezes na vida
Eu coa minha ventura sonhei;
E uma só, dentre tantas, o juro,
Uma só com verdade a encontrei.

Essa entrou-me pela alma tão firme,
Tão segura por dentro a fechou,
Que o passado fugiu da memória,
Do porvir nem desejo ficou.

Toma pois, Júlia bela, o conselho:
Deixa em branco este livro gentil,
Que as memórias da vida são nada,
E uma só se conserva entre mil.

Almeida Garrett

Procuro-te



Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre – procuro-te.


Eugénio de Andrade

6.3.11

Linguagens



Pássaro nulo
a configuração da tua ausência
o corpo a preencher-se
em ressalvas de medo
ao meu lado
doidamente longe
Dir-te-ia do sólido
confronto que imagino
ou do conforto de te poder ter
em figura de estilo

Ana Luísa Amaral

A inquietude que faz sentirmo-nos vivos



Eu morrerei.
E nos outros serei a recordação
dum grande pássaro selvagem
que bateu as asas
longamente...
longamente...
Enquanto se ouvir
o eco das minhas asas,
terei a vida das aves.


Isabel Meyrelles

Ridículo



O here we go, round and round again
The Virgin Prunes



E assim a minha alma
começou a perder aulas,
a fechar-se em canivetes,
a deixar crescer a sombra.
Já sabia que, na vida,
só depois do exame
é que chega a lição.

Fui servido ao caprichoso
ziguezague do acaso;
que me trouxe quase inteiro a
este pálido caderno,
onde toda a matemática
se ri do meu intento
de somar a não o nada.


José Miguel Silva

No castelo de Ansiães


Demais sei eu que o que passou passou,
a história não é uma serpente
que se refaz em cada primavera,
mas quando muito morde a própria cauda;

que os que aqui moraram já nem ossos são,
soprou sobre eles o tempo
e extinguiu o pouco fogo que eram;

que cessou todo o ruído, de festa ou de querela,
dissolvido no ácido dos dias;

que os lugares onde acaso podia ter ficado
impressa alguma pegada acidental,
algum risco na pedra com vocação de história,
estão ocultos por silvas e aveia brava.

Demais eu sei que os horizontes
que vamos recolhendo do alto das muralhas
com as afectuosas pinças da alma
– contrariamente aos que moraram e morreram –
permanecem os mesmos:
perpétuo desafio ao vento e ao olhar.

Então, se tudo isso sei:
carne friável, minerais perenes;

e se com tudo isso me conformo, como homem
sobre quem também soprará
o tempo e está disposto a perdoar;

porquê esta água insubmissa
que devagar me molha o reverso dos olhos?


A. M. Pires Cabral

5.3.11

Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono



Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono
e história
e só as coisas torpes e destruídas
cobriram os campos e tornaram cinza o verde?

Oiço exércitos do norte do sul e do leste
fantasmas lançado o manto das trevas
os rostos exilando-se de si mesmos.
Oiço os exércitos e todo e qualquer som abafarem.
- Não ouves a chuva lá fora, a voz de uma mulher,
o choro de uma criança?
Oiço os exércitos, oiço
os exércitos.

Quero reconstruir tudo - alguém disse
e ouvimos cair as árvores.
E vimos a terra coberta de acácias
e as acácias eram sangue.

Estamos à beira de um caminho
- que caminho é este?
Inventam de novo o voo dos
pássaros.
Aqui já se ouviu o botão da rosa a desabrochar.

Maria Alexandre Dáskalos
Angola

Um pedaço de céu




Tu, a que eu amo nesta manhã
que trouxe a tua imagem com os ruídos
da rua, vai até à janela,
levanta as persianas do quarto, e olha
o céu como se ele fosse
um espelho. Diz-me, então,
o que vês? As nuvens que passam
pelos teus olhos? Um azul cuja
sombra te desenha o contorno
das pálpebras? A mancha rosa do nascente
que o horizonte roubou ao
teu rosto? Mas não te demores. Um espelho
não se pode olhar muito tempo e
o céu da manhã é dos que mudam com
as variações da alma. Pode ser que o céu
roube um sorriso aos teus lábios e
mo traga, para que eu o ponha neste poema,
onde te vejo, um instante, enquanto
a manhã não acaba.


Nuno Júdice

4.3.11

Amei quando quis amar, quando não quis desamei



Amei quando quis amar
quando não quis desamei
num barco me fiz ao mar
ele ficou, eu voltei

Chegado que fui ao porto
e ao ponto de atracar
não sei se vivo se morto
deixei o barco no mar

A praia nua só tinha
o céu e a lisa areia
o barco volta, não volta
na branca onda volteia

Ele ficou eu voltei
sem barco me fiz ao mar
quando não quis desamei
amei quando quis amar


Nuno Higino

Quimera



Eu quis um violino no telhado
e uma arara exótica no banho.
Eu quis uma toalha de brocado
e um pavão real do meu tamanho.
Eu quis todos os cheiros do pecado
e toda a santidade que não tenho.
Eu quis uma pintura aos pés da cama
infinita de azul e perspectiva.
Eu quis ouvir ouvir a história de Mira Burana
na hora da orgia prometida.
Eu quis uma opulência de sultana
e a miséria amarga da mendiga.
Eu quis um vinho feito de medronho
de veneno, de beijos, de suspiros.
Eu quis a morte de viver dum sonho
eu quis a sorte de morrer dum tiro.
Eu quis chorar por ti durante o sono
eu quis ao acordar fugir contigo.
Mas tudo o que é excessivo é muito pouco.
Por isso fiquei só, com o meu corpo.


Rosa Lobato de Faria

Uatoála



e tu, que não calculas o tormento
que sofre quem assim te vê fugir,
começas lá de longe então a rir
em quanto preza sou do desalento…

e eu, que dava a vida n’um momento
por só um beijo teu poder fruir,
quizera a tua imagem ver sumir
p’ra sempre no voraz esquecimento…

mas quando tu me vez desanimado,
o meu olhar sem luz embaciado,
com o peito arquejante e preza a falla;

vens assentar-te logo ao pé de mim,
e um beijo, um beijo teu me dás por fim
dizendo com meiguice: - Uatoála…

Eduardo Neves
Angola

Três meditações junto ao mar




Para lá das vidraças as dunas,
e logo a noite fria e o mar sem horizonte,
a praia sem amantes.
Há quanto não se vêem deuses por aqui,
há quanto não os vejo eu?
Bastavam umas asas frementes
ou as marcas na areia do amor,
um rasto de cicios;
não me empolgam as vagas
nem o que imaginado
me trazem outras vozes;
empolga-me a lembrança dos deuses
que de noite habitam os areais
e unem o seu arfar ao arfar das ondas
sem outro nexo que esse,
apenas as estrelas rutilantes, as águas
e as janelas em terra
que fitam em silêncio o mar nocturno.

*

Deserta a praia, as dunas, os cardos,
o mar sem metafísica,
um barco que não leva ninguém,
talvez homens que suam e praguejam;
a manhã cinzenta é de hoje,
não da sonhada génese,
e a voz das ondas é a voz das ondas
e cresce com o som do vento.
No areal não se encontram marcas
ou ecos de palavras desconexas.
Do amor esvaneceu-se o rasto.
Só um deus e uma deusa dormem
na lembrança dos dias breves
sem que ninguém os possa despertar.

*

Talvez a eternidade seja ficar nas dunas
largando as lembranças a pouco e pouco,
e os nomes da infância e do amor
irem acabando até que convocá-los
se torne no céu branco que absortos olhos fitam.


Nuno Dempster

3.3.11

Noite


Noite
a angústia dos teus lábios
esvoaça
pelo meu corpo
como fria aragem…

e toda a música
que os meus ouvidos ouvem
não é mais
que a dos loucos búzios enganadores

cerro as mãos
para guardar
esse murmúrio
quasi nada…

e com elas cerradas
permaneço até
que a madrugada
rompa…

Alda Lara
Angola

Águia




Voar, pensava então,
como se num bater de asas se elevasse o
mundo,
como se a primavera rasgasse para sempre
a nuvem escura,
e sobre os meses não caíssem as penas,
como se as minhas garras sustentassem o
cordeiro ou a estrela
e mais para cima o meu bico cansado
levasse o teu coração.


José Agostinho Baptista

2.3.11

Não posso adiar por mais tempo o meu grito.



Não posso adiar por mais tempo o meu grito.

Deixem-me gritar.
Deixem-me estas amarras romper.
Não me roubem o meu grito
nem a possibilidade de gritar
e dizer.

Não posso adiar por mais tempo este grito.
Adiá-lo para outro século que não este
era roubar a mim mesmo
a possibilidade de viver.

Não adio mais o meu grito.
Como não adio também o amor.
Como não adiei também
- quando a perdi -
a vontade de chorar por minha mãe.

Deixem-me chorar.
Porque muitas vezes o meu choro
é a minha forma mais pura e mais nobre
de gritar.

Já não adio mais a vontade reprimida e solitária.
Por mares e desertos longínquos
e distantes
farei o meu grito de revolta
ecoar.

Acabem-se as mordaças da vontade
a neblina nos horizontes
as fronteiras, a injustiça.
Vertam a verdade duma vez por todas
as fontes da justiça.

Não posso adiar por mais tempo o meu grito.
Não posso!
Não me amordacem
que eu não me deixo por ninguém amordaçar.
Deixem-me só mas com a minha liberdade…
Não me impeçam de gritar.

Álvaro Giesta (pseud)

Poluição



A cidade não é o nosso orgulho os aviões não são pombas brancas
estou doente
na minha frente os automóveis brilham uma mulher volta para mim o rosto
tem os óculos no alto da cabeça como Gago Coutinho após a Travessia
e eu olho para o chão e depois para o céu:
entre o vómito matinal de um bêbedo e Deus
já quase nada existe

Deus está debaixo dos tectos enrolado em mansos cobertores
não há saída nenhuma para ele pois
que se deixe estar: este caminho esta cidade são
de facto trabalho para o Homem

Deus limitou-se a apostar no Homem

Dois generais nunca discutem por causa de uma rosa
ensinou-me meu pai há muito tempo
quando podava a vinha e eu ia enchendo
os bolsos com tangerinas para dar ao Careca
que escolhia sempre a linha quando íamos descalços
jogar o futebol

A cidade a esta hora está a ruir por dentro
mas está tudo bem é óptimo isto tudo
eu sigo embatucado pela margem do Tejo
sou eu agora quem aposta nas gaivotas contra a nafta
vejo passar um petroleiro grego − o Parthénon − será?
por ali fico duas ou três horas a olhar as águas
o Tejo é hoje uma maldita avenida e há cada vez menos árvores
o Tejo é um esgoto
o Tejo é um esgoto
oh por favor salvemos
ao menos
as gaivotas

Nas livrarias vendem-se pastéis de nata e Roland Barthes
é moda não se admirem: duzentos mil exemplares
de pastéis de nata
contra quinhentos livros do António Ramos Rosa
e as pessoas entram e escolhem
invariavelmente
os pastéis de nata e
lambem-se gulosas satisfazem
a sua opção crítica cumprimentam e engordam o livreiro
generosamente


Hoje ainda há Obélix e Kafka

Hoje ainda há Hamburgers e Travolta

Hoje* ainda* há* Chiclets

Hoje ainda há
Hoje

Volto de novo ao Tejo às suas margens descalço como Leanor
os meus sapatos ainda lá estão só a verdura não existe
e agora mais confortável do que nunca com estes sapatos sujos
cheios da nossa civilização até aos atilhos
caminho devagar para o ventre da cidade fumando um cigarro sem filtro
e pontapeio com um misto de impotência e de desprezo
os caixotes de lixo
os pneus dos automóveis estacionados
sabendo que vou morrer
inevitavelmente

Ó mar da minha angústia diz-me: a felicidade é uma árvore?


Joaquim Pessoa

Faço de volta



Faço de volta
os caminhos da paixão
certo de que o recomeço
é o remédio que cura
minhas dores.

Percorro a estrada do desejo
em busca dos sonhos
que deixei para trás.

Travessia de mim
para aquietar o corpo doído
de tantas paixões insensatas...


Ademir Antonio Bacca
Brasil

1.3.11

Flor da boca



És tentação permanente
à minha beira

Beijos rasos
à flor das bocas

Húmidas as duas
e as duas loucas
A do corpo mais que a da face
inteira

Inteiramente tuas
de maneira
que quando a tua língua
se incendeia

pega fogo ao desejo
e logo a chama
galgando em si própria
já se ateia

Trepando devastando
e só no topo
é grito e orgasmo
e é madeira

Maria Teresa Horta

Memória de Adriano



Nas tuas mãos tomaste uma guitarra
Copo de vinho de alegria sã
Sangria de suor e de cigarra
que à noite canta a festa da manhã.

Foste sempre o cantor que não se agarra
O que à Terra chamou amante e irmã
Mas também português que investe a marra
Voz de alaúde e rosto de maçã.

O teu coração de ouro veio do Douro
num barco de vindimas de cantigas
tão generoso como a liberdade.

Resta de ti a ilha de um Tesouro
A jóia com as pedras mais antigas.
Não é saudade, não! É amizade.

Ary dos Santos

28.2.11

O imperfeito do conjuntivos como se os impérios se dobrassem





há talvez uma por quase janela
atravessada ênclise no entanto perdida parede
o cão acorrentado na transcrição seguinte
ou melhor a miséria em cada bassorá sobre o papel
corre denso quase até a grossura
certamente a vassalagem margens mais baixas
no paladar crude olho as monarquias
o que mais me perturba
porque não são quaisquer decibéis
só espiga no rosto dessa gente
dada sombra a luz suspende-se em terra firme
quisesse reduzida fronteira
sobre a mesa bagdade ao jantar
mar exuberante rosa
perdura o imperfeito do conjuntivo ainda
como se os impérios se dobrassem
satisfeita a sede já trazem vísceras a mais nesta janela

Abreu Paxe
Angola

Carnaval triste


A noite despida entoa
negros cantos pelos cantos
do Muceque negro à toa
florido de desencantos...

Morrem de amor minhas mãos.

Tarde, que tarde estamos!
Nem vale a pena sonhar
que a gente já sonhou o tudo...
Resta apenas a brilhar
um eco triste de entrudo.

Mascarados — meus irmãos.

Olhai a lua que assoma
por cima dos cajueiros...
Vem fazendo negras tranças
dos meus longos desenganos...

E os meus vinte paus de prata
naquela mão de mendigo
são como o brilho da Lua
nas palavras que não digo.


A. Neves e Sousa
Angola