16.2.11

Canção



no contrato do café
o negro vai… aiué! aiué…

deixa sua lavra e sua ukãyi…
leva onbirikiti. leva ongueva…
aiué! aiué! aiué!

o chimbinete ueia
e carrega o negro que vai no café…
aiué! aiué! aiué!

“meu epya não chora!
não chora meu ukãyi!
quando negro dikatiuka
chicalé! chicalé!


Amélia Veiga
Angola

Rei




Nasci rei de um reinado sem rei,
Num castelo sem cor e sem ponte,
Meus comandos nos quadros da lei
Mergulharam na cálida fonte.

Meus soldados de escudo no braço,
Nunca espada tiveram na mão,
Os tambores batidos no espaço
Percutiram lembranças em vão.

A princesa do rei tão silente
No castelo vivia sem dor,
Mas o reino do rei diferente

Tinha a cor do castelo sem cor.
Nasci rei de um reinado sem rei,
Sem comando, sem povo e sem lei.


José Gomes Ferreira

Miniatura de Esfinge sobre a Mesa de Trabalho



Alarmado escuto. Eis que te guardas
na mudez firme dum segredo.
Lúdica de ironia e vago medo
vacilante em mim tardas.

De repente, algo como manhã decisivamente nasce:
- contemplo a absurda limpidez da tua face.


Herberto Helder

Poema do alegre desespero



Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?


António Gedeão

15.2.11

A pressa com que se despe


A pressa com que se despe
Nem na alma lhe apetece
qualquer veste

A pressa com que se despe
Até da carne e da pele
se pudesse


David Mourão Ferreira

Porque te negas?


Anda vem..., porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha ... rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
... Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos...
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!


Antonio Botto

Eu cantarei de amor tão docemente



Eu cantarei de amor tão docemente
que, ainda extinta a voz, dela perdure
o veio breve donde transpirou
outrora o canto aceso e seus silêncios.
Serão então do exílio as horas frouxas
derramadas qual ácido no rosto
do amante. Mas nada foi em vão.
Que os lábios tremerão de puro amor
e a pele - como a serpente à melodia
rende sua homenagem, cativada -
contra o dia se indisciplinará,
erguida sobre si, ao arrepio
de leis acumuladas contra nós,
seus ecos contrapondo ao vento frio.

A. M. Pires Cabral


Contraste



A minha alma trema em tuas mãos
debruçada na varanda desta tarde

Silêncio da cor em teus contornos
o adeus do mar dentro de mim

Para além do ilhéu dos pássaros da ilha
o sol morre aos poucos devagar

A minha alma treme em tuas mãos
debruçada na varanda desta tarde

Vejo os barcos ao longe na baía
as lanchas negras dos trabalhadores
a torre da capitania ao lusco-fusco

Lentamente uma a uma na cidade
vão acendendo as luzes da cidade

Na fábrica de bolacha do Matos
na padaria do Jonas depois

Só no cemitério ao lado é tudo escuro...

Branqueiam ainda as campas dos mortos
e os nomes vou ler à hora do sol
mas agora fazem medo à minha infância

Em casa dos meus vizinho perto
nh´ugénia de Sena e nhã Nê Grande
acenderam os candeeiros de petróleo


Yolanda Morazzo
(Cabo Verde)

As flores que eu não tive



Mãe!
Olho para o verde musgo
que
depois da chuva
cresceu e floriu
sobre a terra da tua campa
e um amargo sorriso
aflora aos meus lábios
ao ver-te
toda coberta de bravas flores...

São as flores
que eu não tive
para
depor sobre essa campa
quando
fecharam-te os olhos
cruzaram-te as mãos
e te cobriram de pó
— E eu te cobri de lágrimas!

São as flores
que eu não tive
para
ornar tua fronte
de mártir e santa
Oh minha mãe!


João Rodrigues
Cabo Verde

14.2.11

Eu queria te dar minha emoção mais pura,


Eu queria te dar minha emoção mais pura,
associar-te ao meu sonho e dividir contigo
migalha por migalha, o pouco de ventura
que pudesse colher no caminho onde sigo...

E esse estranho desejo em que se desfigura
a palavra de amor e pureza que eu digo,
- e queria te dar essa minha ternura
que às vezes, por trair-se ao teu olhar, maldigo...

Bem que eu quis te ofertar meu destino, meu sonho,
minha vida, e até mesmo esta efêmera glória
que desperdiço a cantar nos versos que componho...

Nada quiseste...E assim, os sonhos que viviam,
se ontem, puderam ser um começo de história,
hoje, são dois caminhos que se distanciam...


JG de Araújo Jorge
Brasil

Trovas de ciúmes



"Dosado", o ciúme é tempero
que à afeição da mais sabor...
Mas, levado ao exagero,
é o pior veneno do amor...

Cão de guarda, ameaçador,
a rosnar, furioso e cego
eis afinal, meu amor,
este ciúme que carrego...

Do amor e da desconfiança
infeliz casal sem lar,
nasceu o ciúme, - essa criança
tão difícil de educar...

Perigoso, onipotente,
verdadeiro ditador...
o ciúme é um cego, doente,
ou um doente, cego de amor?

Eis como o ciúme defino:
mal que faz mal sem alarde
corte de alma, muito fino,
que não se vê... mas como arde!

O ciúme, desajustado,
por louco amor concebido,
era uma amante, (coitado)
a padecer... de marido!"


JG de Araújo Jorge
Brasil

O que sabem recordar as minhas mãos



O que sabem recordar as minhas mãos
senão algumas facetas do teu corpo,
neste artifício vivido?

Eu já não sei se te amo quando te escrevo
ou se te escrevo quando te amo.
Mas o melhor seria esculpir-te!

Eu gostaria de esculpir-te
agora nesta página tão aberta ao relento,
mais vil metal fazer-te
ao coração o amor tão puramente gravado
para que permaneças sempre viva
e acesa às gerações,
essa vaidade sintam os outros
e gozes do privilégio de quem soube amar a felicidade.


Adelino Timóteo
Moçambique

A cidade é um chão de palavras pisadas


A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.


José Carlos Ary dos Santos

Quando cheguei a casa


Quando cheguei a casa o meu porco Rosalina
estava a escrever à máquina. Fiquei num grande
estado de perplexidade e por isso perguntei o que
estás aí a fazer. Sem erguer a cabeça Rosalina
apontou com o chispe para o papel convidando-me a
ler. A folha estava em branco porque Rosalina tinha
retirado a fita da máquina para a enrolar na sua
encaracolada cauda que nesse momento agitava com
prazer. Rosalina foi sempre o que me impeliu ao
mergulho na metafísica. Por isso sem dizer nada
dirigi-me para a cozinha. Abri a gaveta dos talhe-
res. Tirei a grande faca do estojo do trinchante.
Acendi o lume e pus a grelha a aquecer. Dirigi-me
de novo para o escritório onde Rosalina escrevia à
máquina. Cortei-lhe algumas febras do lombo. O
suficiente para uma bela refeição. Cortei também
um pedaço de fita para enfeitar a travessa.


Ana Hatherly

Uma canção na noite



anda subtilmente no ar
uma canção qualquer…
vem do escuro, do vago, da noite..
porque lá fora é noite
e a história da noite,
da vida, do mundo,
freme na voz dessa canção.

e eu quero ser voz e ser acção!
na minha frente o papel branco
espera, espera, espera…
por tudo quanto eu tenho p’ra dizer-lhe,
e que o pode tornar numa canção de gesta
do mundo que há-de vir,
num ai de amor,
numa blandícia, num suspiro,
numa bandeira ao vento
a rasgar o vento
com o traço de uma ideia…

mas lá do escuro da noite
vem uma canção…
em que parte da alma é que dói,
quando se é novo e triste e se está só,
e há uma voz que resvala
por remotos caminhos, p’ra nos dizer
aquilo que a nossa boca sem fala
calou?

e a inspiração morreu…
papel, caneta e tinta
fogem-me na sombra.
a canção é a vida,
a canção é o mundo,
a canção é o amor.

Anda subtilmente no ar
Uma canção qualquer…
A canção sou eu!


Lília da Fonseca
Angola

Círculo



todo o caminho é belo se cumprido.
ficar no meio é que é perder o sonho.
é deixá-lo apodrecer, no resumido
círculo, da angústia e do abandono.

é ir de mãos abertas, mas vazias,
de coração completo, mas chagado.
é ter o sol a arder dentro de nós,
cercado,
por grades infindas…

culpa de quem, se fiz o que podia,
na hora dos descantes
e das lidas?

ah! ninguém diga que foi minha!
Ah! ninguém diga…

minha a culpa,
de ter dentro do peito,
tantas vidas!...

Alda Lara
Angola

abre o teu manto de burel



abre o teu manto de burel
amado
e arrasta-me sobre as madressilvas
que do corpo já não sinto o meu
deixa
cair o pano que teceste
e recorta-o
segundo o teu molde
saber-lhe-ás dar destino
ler-lhe o poema original,
a utilidade que lhe justifica a vida
vesti-lo-ás
no dia da tua própria morte
e as marcas
que a tua irmã mais ingénua julga de framboesa
revelar-se-ão do teu próprio sangue
como o teu filho
que morreu sobre as garras do jardim
aquele que soubeste construir
para te subtrair ao medo


Ana Paula Inácio

Acerca do amor



Do amor só digo isto:

o sol adormece ao crepúsculo
no oferecido colo do poente
e nada é tão belo e íntimo,

0 resto é business dos amantes.
Dizê-lo seria fragmentar a lua inteira.


Filinto Elísio
Cabo Verde

Nossa cama



Olho nossa cama. Palco vazio
sem o drama, sem a comédia,
do nosso amor.
A nossa cama branca,
branca página, em silêncio,
de onde tudo se apagou...

(Meu Deus! quem poderia ler aquelas ânsias, aquêles gemidos,
aquêles carinhos
que a mão do tempo raspou, como nos velhos
pergaminhos?...)

A nossa cama
imensa, como a tua ausência,
tão ampla, tão lisa, tão branca, tão simplesmente cama,
e era, entretanto, um mundo,
de anseios, de viagens, de prazer,
- oceano, que teve ondas e gritos encapelados,
nêle nos debatemos tanta vez como náufragos
a nadar... e a morrer...

Olho a nossa cama, palca vazio,
em nosso quarto, - teatro fechado –
que não se reabrirá nunca mais...

Nossa cama, apenas cama, nada mais que cama
alva cama, em sua solidão
em seu alvor...

Nossa cama
- campa (sem inscrição)
do nosso amor.


JG de Araujo Jorge
Brasil

13.2.11

Diz-me...


Desenha com a ponta dos teus dedos
as fronteiras exactas do meu rosto
as rugas os sinais a cicatriz que ficou da infância
o lento sulco das lâminas onde no peito
se enterra o mistério do amor

e diz-me

o que de mim amaste noutros corpos
noutras camas noutra pele

prometo que não choro mas repete
as palavras um dia minhas que sem querer
misturaste nas tuas e levaste
com as chaves de casa e os documentos do carro
- e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio
na primeira madrugada em que me esqueceste.


Alice Vieira

Os significados



Não sei como tudo começou: suponho
que havia uma figura que depois
se estilhaçou para formar um puzzle.
Mas se juntarem todas as peças
talvez não haja nenhuma figura, e então
de que origem intacta partiu tudo
o que depois se quebrou? É impossível
fazer estilhaços de estilhaços sem uma
coerência primeira, agora ausente.
Quando todas as peças se juntam
estaremos reduzidos ainda a uma peça
de uma figura maior, ou essa figura
é uma utopia pragmática, instrumental,
que permite algum sentido?
Ó significados, para vós, na infância,
tinha um caderno.


Pedro Mexia

Fiapos de Sonho



roçando
pelo teu rosto
tombou ao chão
a estrela cadente

guarda-a
é o ouro dos sonhos


Arlindo Barbeitos
Angola

12.2.11

A Coimbra




minha cidade eterna e resumida,
como um sonho embrulhado
em névoa branca… e adormecida.
por outro sonho que a saudade quis
é que eu não sei agora
o que este engano diz.

a mão do “Só” me trouxe rio acima,
para beijar teu corpo imerso em sono…
e pura, debruçada sobre ti,
o mais que eu vi,
foi sempre este abandono…

e ainda é a mesma torre, sim…
e o casario.
e o jardim.
e a ternura infinda
da mesma capa ainda
ao vento solta!...

és tu, eterna em ti.
antero é que não volta.

agora,
na pedra nua deste longo dia
já ninguém chora…
e a dor que endoideceu,
é só quem anda pela noite fria,
à procura do sonho que morreu…


Alda Lara
Angola

11.2.11

Quando ao adormecer...


Quando ao adormecer
partimos à procura
da face dos antigos
amores que sufocados
renascem provisórios,
como se vai à pesca
levando numa caixa a isca torturada
ou na boca a faca se transporta
antes de mergulhar à procura das ostras,
entre as pálpebras sustemos,
sem sombra de recuo
a fé de destrinçar por entre moribundos
os limos dos desejos, a folga da tensão,
as faces dos amados.
É sempre em quartos baixos
de vidros sobre as portas
ao fundo de corredores
que se inclina a face por entre os nossos braços
e quando os nomes saltam da boca em alvoroço,
os ternos nomes libertos dos esquifes
os lázaros no fim sempre ressuscitados
a cabeça ao fazer o gesto do encontro
acorda o corpo vivo que se sente enganado
e vai para a cozinha remoendo ameaças
deitar da cafeteira o jorro reluzente.


Fátima Maldonado

Bebido o luar


Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.


Sophia de Mello Breyner Andresen