21.1.11

A função do geógrafo



E sabes, no que mais tenho pensado é nisso,
no significado das rotas,
no que elas têm a ver com tudo isto que te conto,
com o que nos conduz na vida e não sabemos.
Há um mistério nisso. Tu também sabes.
É o maior mistério e não podemos persegui-lo.
Como se nos afastássemos e só pudéssemos esperar
e fosse mesmo isso o que está certo.


Rui Cóias

Meditando...




do que eu gosto mesmo é de correr na areia
sentindo-a roçar sob os meus pés
em tardes quentes loucas escaldantes
depois entrar pelo mar dentro qual sereia
que sabe dos segredos dos mortais
entrar...mas já não sair mais...

do que eu gosto mesmo é de sentir na pele
os salpicos provocantes das marés
e ter a sensação que o horizonte
é um todo homogéneo e uniforme
aonde o meu ser se delicia em tempestuosas
carícias de paixões incestuosas

do que eu gosto mesmo é de sentir no rosto
o vento quente do Sarah distante
que faz gemer as doces palmeiras
na rota insegura do meu peito ardente
e ficar assim feliz estendida
nas longínquas praias à espera da vida

do que eu gosto mesmo é de estar aqui
com chuva e calor com cheiro a cacau
escutando sempre o apito no cais
das vozes que amam o mar e a terra
breves mensagens de sonhos remotos
de barcos distantes perdidos ignotos

do que eu gosto mesmo é de saber que um dia
regressarei ao meu mar ausente
e irei saltar correr aqui e além
nas rochas quentes puras semi-nuas
saboreando o teu corpo amigo
de África-Mãe meu porto de abrigo


Maria Olinda Beja
São Tomé e Príncipe

20.1.11

O medo e a esperança


Tranquilo e devagar entro na aldeia
de mão ao alto aberta em sinal de paz
Desertas e contudo palpitantes
se encontram ainda as palhotas

No único rosto presente é visível
o medo está atento procurando antecipar-se
nos meandros da incómoda adivinha

Falo e sorrio e entreteço pontes de caniço
e não sei estendê-las até à outra margem:
fechado e atento o rosto em frente do meu
entremeia um rio sem vau e sem barcos
de águas opacas e demasiado largo

Procuro na memória de distantes avós
autênticos e críveis sinais de paz
e ao fazê-lo acordo aves de lembranças
de ventres pejados de sangue e ódios
e apenas avivo o rosto em frente as cores do medo

Olho o meu braço estendido e nu
inofensivo e pronto à espera do acolhimento
e no rosto em frente projecta-se uma sombra
a dolorosa sombra-lembrança de um chicote
E o medo ganha relevo no rosto escuro
atento e vigilante à porta da palhota:

pergunto aos teus olhos e às tuas costas
à tua carne e ao abismo dos teus olhos
onde e quando brotou a fonte desse medo
— como se eu fosse o deus vivo do raio
e fizesse empalidecer o teu rosto cor de noite
a ti que nunca me viste e contudo és valente
e já viste de perto a fome de feras em liberdade

Quero perguntar de frente aos teus olhos
e a tua cabeça pende como um ramo
ameaçado de morte com o peso dos frutos
prestes a perderem-se inúteis em chão batido
Quero perguntar-te e não sei os gestos
nem as palavras mágicas ou compreensíveis
para conjurar a mancha de medo
que ensombra o teu rosto esculpido em negro

Não sei os gestos e as palavras mágicas
e todavia não desisto e procuro
certo de haver uma ponte praticável
entre os meus e os teus olhos erguidos.

Fernando Couto
Moçambique


Tão fundo o silêncio



É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
nem o canto das aves milagrosas.
Mas, lá, entre as estrelas, onde somos
um astro recriado, é que se ouve
o íntimo rubor que abre as rosas.

José Saramago

O nome de gato assegura minha vigília



O nome de gato assegura minha vigília
e morde meu pulso distraído
finjo escrever gato, digo: pupilas, focinhos
e patas emergentes. Mas onde repousa

o nome, ataque e fingimento,
estou ameaçada e repetida
e antecipada pela espreita meio adormecida
do gato que riscaste por te preceder e

perder em traços a visão contígua
de coisa que surge aos saltos
no tempo, ameaçando de morte
a própria forma ameaçada do desenho
e o gato transcrito que antes era
marca do meu rosto, garra no meu seio.


Ana Cristina César
Brasil

Depois...



Para onde irão depois as coisas que aprendi?
Por exemplo: aquele cálculo de pi.
Que será feito daqueles restos de saudade,
destes medos antigos sempre novos?
Em que voltas desaparecerão os sonhos
que enfeitaram de flores o quintal antigo?
Por que caminhos irão andar aqueles ágeis pés?
Sobretudo, como se esvaziará de som a velha voz
e onde afundará o último verde daquela flama esguia?


Abgar Renault
Brasil

Aqui na praia do Lizandro




O poeta, por vezes,
apenas descreve sentimentos,
nas paisagens íntimas que observa,
observando-se.
Especialmente quando a vida é tão intensa
que apenas apetece vivê-la.
Outras vezes, é o próprio poema
explodindo por dentro de si mesmo.
Quando surgem rimas automáticas,
num ritmo quase febril,
palavras em convulsão
que a caneta não consegue reter.
Mas a poesia também acontece
quando glosamos palavras
que, já antes, foram escritas.
Quando versos, feitos reversos,
aperfeiçoam poemas imperfeitos
que, outrora, nos vieram.
Hoje, não.
Aqui na praia do Lizandro, diante do mar,
sentado na areia molhada da manhã,
meus versos fluem saudosos,
como se estivessem inspirados
na solidão de estar aqui.
No silêncio da praia deserta,
sentindo o sol doirar meu corpo
e molhando os pés,
depois de uma longa caminhada,
neste prazer de estar aqui,
vou pensando nos sonhos
que, de noite, me atomentaram
e que lembrei ao acordar.
Retomando quem sou,
dói o prazer de estar aqui,
escrevendo em mim
estas palavras de solidão.


José Adelino Maltez

Mulata


corpo de mulata
corpo de batuques e luar
corpo de serpente
a enroscar-se na árvore
corpo de mel e malícia
onde mãos buscam frementes
poemas de luz e cor
onde beijos estremece
entre seios ponteagudos
onde o sexo é uma flor
a oferecer as sementes
aos quatro cantos do mundo
corpo esguio e feiticeiro
por onde passa o amor
e fica ainda mais belo.


Maria Olinda Beja
São Tomé e Príncipe

19.1.11

Último poema



sair do temporal

é ganhar tempo pra coser as velas,
é ganhar tempo pra fazer aguada
e aparelhar.
o meu destino certo e tão inquieto
é o destino trémulo e concreto
duma agulha de marear.

ah, não esperem que eu não espere,
nem acreditem que eu tema
ou que eu possa naufragar…
numa vela renovada
há insistência pra conter o vento,
há arrogância pra conter o mundo,
há energia pra domar o tempo
e força pra singrar.

sair do temporal
é ter a nostalgia do combate
que vai recomeçar.

tomei o gosto às horas de calema
e sou irmão do mar.


Cochat Osório
Angola

Definições



O silêncio é
Uma árvore branca

Uma árvore é
Uma cabeleira matinal

Uma cabeleira é
Uma fonte suspensa

Uma fonte é
Um vento visível

O vento é
Uma canção de vidro

Uma canção é
Um rio que trespassa

Um rio é
O silêncio que se move

O silêncio é
Árvore branca


João Pedro Mésseder

O mundo recriado a partir dos olhos dum mulher




Sou a palavra que você não disse
o nome que você não chamou.
Contigo viverei palavras desiguais
palavras ardidas na língua que as prolonga;
palavras perdidas e procuradas
onde tentas o sonho
(não há mais nada para sonhar?)
Sou a palavra que você não disse
uma canção ao maravilhoso.
As páginas perseguem-me e
da retórica colhes os números;
mas os números não dizem nada
- são preocupações do pouco,
sem as contar sem as procurar.
Eu sei, nos teus olhos, mulher
se eleva o pensamento;
dos teus olhos, mulher
Deus recriará o mundo.
Assim fora o começo d'olhos pensados
nas mãos de Deus.

João Tala
Angola

Naufrágio


Erraste muito tempo sem saber
quantos anos durou dentro de ti
a primavera Nada
nessa água te lava já o rosto
ou que deles resta submerso
nas correntes marítimas da morte
como líquido espectro ou colorida
anémona A memória
mascara pouco a pouco essas imagens

Erraste sem saber qual a matéria
da tua vida O fogo
acendeu hoje a casa do teu corpo
tão cedo arruinado e tu naufragas
nessa doce catástrofe
na espuma desse mar Qual o instante
em que o verão se transforma no outono
se o arrepio da noite quando chega
parece ainda um luminoso dia?


Fernando Pinto do Amaral

Dor



Seu nome esqueci sim
Só dói quando chamo
Por mim


Alice Ruiz
Brasil

Para Elisa


Embora
os passos partidos
no fundo
acaricio-te ainda
como se

inchados de beijar
o teu nome
os lábios em verso
pudessem
ainda acariciar-te


David Mestre
Angola

Os Amantes Obscuros



Nossos sentidos juntos fazem chama:
e as fantasias nossas vão soltar
os desejos desertos de quem ama
e em verso ou coração se quis tornar.

Nossos sentidos são matéria prima
de um canto que é mais leve do que o ar;
o mundo todo não nos adivinha:
somos sombra sem luz, sequer luar.

Que o corpo quebre a noite desolada,
que o corvo ceda a voz à escuridão:
mil luzes são o nome da amada;
quem se perdeu no verso é sem perdão.


Luis Filipe Castro Mendes

18.1.11

Luzem teus olhos



luzem teus olhos
atingidos já
pela ascendente
e vertical frieza
que te humedece a pele.

teu corpo
pouco a pouco
mergulha no vapor
que te dilata os poros
e enrijece a carne a desdobrar-se
em gotas de suor
amargo e frio.

arredonda-se mais
a curva do teu peito,
e a condição de fêmea
que te vive por dentro
desdobra-se em mucosa do avesso
p’ra te envolver
de glandular oferta.

mantens-te vertical
mas mal suportas já
a macieza nua
de finíssima pele
que te transforma agora
a carne em flor.

progressivamente o teu vestido
denuncia
o alterar de ondas de seda
à superfície:
dois botões de rosa
fechados
no teu peito,
uma orquídea madura,
recente e aberta,
no teu ventre.

pertences, consciente, à fina raça
que traz a carne alerta e não despreza
a voz subtil de indícios de arrepio.
a tua carne é uma maçã que herdaste
corajosa
porque não temes abrigar um fogo
destinado
a temperar de estrelas.

ateias de olhar firme a labareda que te adormece as coxas,
dilatas decidida a catedral do peito,
afastas-te de mim ganhando altura,
orbitas-te num gesto de mulher madura.

Ruy Duarte de Carvalho
Angola

Longa hora os olhos pai ou mãe



a morte explícito sujeito sentado no eixo
aberta zona meridional
abraço funda cegueira ao cantar o angulo solar
deposito as guelras do tempo frutos os soldados da rotação
talvez versos as ruas
abrindo o metal uma cidade o passado
de cada respirar geometrias ou idiomas (...) um telefonema
opera o golpe
vogais na redução sublimada esteira o tema seus dedos
hoje os lugares pronunciadas formas pronominais
os próprios olhares
abrem a passagem dos traços labiais longas horas
floresce na zona centretional
com imediatos acentos no sul da vida

Abreu Paxe
Angola

Convite



Agora que o campo é de areia
pisemos de modo que os rastos
não nos mostrem como voltarmos.
E vamos ao mar, que derrama
sobre nós seu licor de pérola
e em mim todo um fervor de espumas.
Sei de ilhas contidas em conchas.
A elas pediremos repouso
quando a noite trouxer lembranças.
Segue-me ... e para trás deixemos
pais e irmãos, esposos e filhos,
e os cinzas gradis que nos guardam.
Depois de ao mar nos atirarmos,
qual seja o rumo a que nos leve
há de ter fim no que buscamos.


Afonso Félix de Sousa
Brasil

Tua voz



Oiço a tua voz
como se o murmúrio
fosse o ciciar
do hálito morno
de uma criança dormindo.
A embriaguez do sono
cobrindo de seda
a insónia em suspensão
é a doçura da tua voz
nos nublados espaços
em que me deixo perder...


Jorge Arrimar
Angola

17.1.11

Dia santo

(Versos dum isolado)


Estou hoje sombrio, doente, aborrecido,
Invadiu-me não sei que pessimismo azedo;
O dia está tão triste! e eu sinto-me oprimido
Sob o nevoento céu, grosso como um rochedo.

Fechou a oficina aqui defronte, o dono
Foi passear. Odeio este ócio domingueiro,
E um piano que tem levado o dia inteiro
A gemer uma valsa horrível, que faz sono.

No Imóvel infiltro a minha hipocondria.
Vejo-o a bocejar, tristonho, endomingado..
Frenético, fito a alva casaria,
O macadame poeirento e quase intransitado.

O mar adormeceu desoladoramente,
Parece-me um deserto. Eu lembro desgostoso
Terras que não alcança o meu olhar saudoso,
As grandes capitais, o decantado Oriente.

Vasta separação! Aumenta a minha mágoa,
Porque fico a evocar lindíssimos países.
É cada vez mais triste este deserto de água,
Que atravessam no entanto os ricos, os felizes!

O vago marulhar inspira-me saudades,
Como se nele viesse o eco enfraquecido,
Nostálgico, da voz remota das cidades
Perdidas na amplidão desse ermo indefinido.

E vou talvez viver, morrer nesta prisão!...
Anoitece, chuvisca. Eu fumo, desolado.
No entanto passa a rir um grupo endomingado,
Contente no seu meio e isento de ambição…


Roberto de Mesquita

Saudades de um ex-amor


construo sólidos castelos d’areia
que se destroem
no contacto
com a ímpia suavidade da onda.

… aspiração frustrada.

amor na concha de vento
no êxtase poético
na ondulante curva
da nossa união. na areia.

… amor na interrogação da onda.

minha lágrima:
néctar salgado
pérola de esperança
no mar adocicado.

… para quando o reencontro?

Conceição Cristóvão
Angola

Concerto



som das marimbas
plácido devaneio.
a realidade nua
dividida ao meio.

dividida ao meio
é assim a vida?
os pólos unidos:
não obtido anseio.

som das marimbas
cascalhar de notas.
alguma vez as tivemos,
ou perdemos as rotas?

perdidas as rotas,
que amanhã nos vem?
cascalhar de notas
ou requiem por alguém?

som das marimbas
síncopes e trilos.
caminhos vedados
não soubemos cumpri-los.

som das marimbas
acorde perfeito.
quem ousará sonhar
um futuro inteiro.


Antero Abreu
Angola

O combate



o combate está nas ruas
desde a primeira manhã.

nossas mãos empunham armas
nossos olhos luzem punhais.

no troar da fuzilaria
o combate está nas ruas
na pergunta dos órfãos
o combate está nas ruas
no luto das viúvas
o combate está nas ruas
em cada face
em cada lar
no escaldante do ar
o combate está nas ruas
desde a primeira manhã.

acessível aos cobardes,
o combate está nas ruas!


Joffre Rocha
Angola

16.1.11

Mergulho


Escreve um poema
Mergulha no branco
Entra no improvável
Sê humilde
Não penses no que sabes
Esquece o que sentes
Sente
Se não sentes tira a roupa
Bebe água
Pinta um quadro
Esquece as cores que conheces
Imagina cores
Troca-lhes a lógica
Segue
Persegue
Respira debaixo da água do quadro
Transpira
Bebe água
Bebe mais água
Grita
Chora
Chora pela tua mãe
No teu sonho
Ela vem buscar-te
Inspira
Expira
Continua a pintar
Pinta até que o dia nasça no quadro
É difícil
Então mergulha mais fundo
Até veres os peixes
Ouve os seus lamentos
Eles também nadam neles
Não há só água no seu oceano..
No teu também não há só sorte ou amor ou lógica
Há contradições
Por isso não nades só..
Também mergulha
Mergulhar é fugir
Sem que a fuga seja cobarde.


Tiago Nené

Sou barco


Sou barco abandonado
Na praia ao pé do mar
E os pensamentos são
Meninos a brincar.

Ei-lo que salta bravo
E a onda verde-escura
Desfaz-se em trigo
De raiva e amargura.

Ouço o fragor da vaga
Sempre a bater no fundo,
Escrevo, leio, penso,
Passeio neste mundo
De seis passos
E o mar a bater ao fundo.

Agora é todo azul,
Com barras de cinzento,
E logo é verde, verde,
Seu brando chamamento.

Ó mar, venha a onde forte
Por cima do areal
E os barcos abandonados
Voltarão a Portugal.


António Borges Coelho