7.1.09

Não És Tu


Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume ,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu... ai!, não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.

Almeida Garrett

O Herói



O herói da guerra
possui 365 medalhas,
uma para cada dia do ano
(só nos anos bissextos
tem um dia de folga).

O herói da guerra
tem um desencontro
marcado com ele mesmo
(sua vocação era ser homem
e fizeram dele um herói).

O herói da guerra
precisa esquecer
(num gesto heróico
fuma heroína).


Sidónio Muralha

Paisagem africana




Em chamas de amarelo e rubro íntimos
inquietas deliram as flores de acácia

fofas e tépidas as dunas impudentes
imitam feminis curvas em consentimento

da terra solta-se o hálito escladantes
de sequisoas bocas em beijo interrompido

Verdes-escuras as folhas dos arvoredos
turvas pesam como um desejo insatisfeito

denas as florestas odorantes a húmus
respiram o ácido cheiro do suor de cópula

crestado o capim estremece compacto
como a epiderme ocorrida por um frémito

brutais os rios rasgam a carne das planícies
como soldados invasores às filhas dos vencidos

e à brutal excitação de um sol desumano
a terra de África abre a flor de duas pétalas rosáceas

Fernando Couto
Moçambique

Obrigações Poéticas




As pedras agonizam
Nas minhas mãos

Já nada resiste
às poéticas implicaçõe
Que me obrigam a dar vida
Aos objectos mais imprevistos
Que subitamente impressionados
Me cinturam
E me subjugam
E me libertam
As pedras agonizam
Nas minhas mãoes
As pedras agonizam
Nas minhas mãos
As pedras agonizam
Nas minhas mãos
Porque nelas impunemente
Nelas apenas pontificava
Este silêncio inaudível
Mas palpável e dissolvente
Este silêncio amladiçoado
Gerações e geraçõe
De poetas e guerrilheiros
Que me partiram dolorosamente
Na lucidez plena
Deste império de solicitações

Oh as pedras agonizam
Nas minhas mãos
Para ressurgirem
Uma a uma reanimadas
No fluxo dialéctico
Da minha propria inspiração
E assim as domino e comprometo
Assim as devolvo comungadas
À mais poética intimidade

E as pedras oh camaradas

As pedras então se reacendem
Nas mãos de qualquer um


Rui Nogar
Moçambique


Balada do Poema que não Há


Love Poem Art Print by Anna Flores

Quero escrever um poema
Um poema não sei de quê
Que venha todo vermelho
Que venha todo de negro
Às de copas às de espadas
Quero escrever um poema
Como de sortes cruzadas

Quero escrever um poema
Como quem escreve o momento
Cheiro de terra molhada
Abril com chuva por dentro
E este ramo de alfazema
Por sobre a tua almofada
Quero escrever um poema
Que seja de tudo ou nada

Um poema não sei de quê
Que traga a notícia louca
Da história que ninguém crê
Ou esta afta na boca
Esta noite sem sentido
Coisa pouca coisa pouca
Tão aquém do pressentido
Que me dói não sei porquê

Quero um poema ao contrário
Deste estado que padeço
Meu cavalo solitário
A cavalgar no avesso
De um verso que não conheço

Que venha de capa e espada
Ou de chicote na mão
Sobre esta noite acordada
Quero um poema noitada
Um poema até mais não

Quero um poema que diga
Que nada há que dizer
Senão que a noite castiga
Quem procura uma cantiga
Que não é de adormecer

Poema de amor e morte
No reino da Dinamarca
Ser ou não ser eis a sorte
O resto é silêncio e dor
Poema que traga a marca
Do Castelo de Elsenor

Quero o poema que me dê
Aquela música antiga
Da Provença e da Toscânia
Vinho velho de Chianti
Com Ezra Pound em Rapallo
E versos de Cavalcanti
Ou Guilherme de Aquitânia
Dormindo sobre um cavalo

E com ele então dizer
O meu poema está feito
Não sei de quê nem sobre quê

Dormindo sobre um cavalo

Quero o poema perfeito
Que ninguém há-de escrever
Que ele traga a estrela negra
Do canto e da solidão
Ou aquela toutinegra
De Camões quando escrevia
Sôbolos rios que vão

Que venha como um destino
Às de copas às de espadas
Que venha para viver
Que venha para morrer
Se tiver que ser será
E não há cartas marcadas
Só assim poderá ser
O poema que não há

Manuel Alegre


6.1.09

Cenário


Passei por essas plácidas colinas
e vi das nuvens, silencioso, o gado
pascer nas solidões esmeraldinas.

Largos rios de corpo sossegado
dormiam sobre a tarde, imensamente,
- e eram sonhos sem fim, de cada lado.

Entre nuvens, colinas e torrente,
uma angústia de amor estremecia
a deserta amplidão na minha frente.

Que vento, que cavalo, que bravía
saudade me arrastava a esse deserto,
me obrigava a adorar o que sofria?

Passei por entre as grotas negras, perto
dos arroios fanados, do cascalho
cujo ouro já foi todo descoberto.

As mesmas salas deram-me agasalho
onde a face brilhou de homens antigos,
iluminada por aflito orvalho.

De coração votado a iguais perigos
vivendo as mesmas dores e esperanças,
a voz ouvi de amigos e inimigos

Vencendo o tempo, fértil em mudanças,
conversei com doçura as mesmas fontes,
e vi serem comuns nossas lembranças.

Da brenha tenebrosa aos curvos montes,
do quebrado almocafre aos anjos de ouro
que o céu sustêm nos longos horizontes,

tudo me fala e entende do tesouro
arrancado a estas Minas enganosas,
com sangue sobre a espada, a cruz e o louro.

Tudo me fala e entendo: escuto as rosas
e os girassóis destes jardins, que um dia
foram terras e areias dolorosas,

por onde o passo da ambição rugia;
por onde se arrastava, esquartejado,
o mártir sem direito de agonia.

Escuto os alicerces que o passado
tingiu de incêndio: a voz dessas ruínas
de muros de ouro em fogo evaporado.

Altas capelas cantam-me divinas
fábulas. Torres, santos e cruzeiros
apontam -me altitudes e neblinas.

Ó pontes sobre os córregos! ó vasta
desolação de ermas, estéreis serras
que o sol freqüenta e a ventania gasta!

Armado pó que finge eternidade,
lavra imagens de santos e profetas
cuja voz silenciosa nos persuade.

E recompunha as coisas incompletas:
figuras inocentes, vis, atrozes,
vigários, coronéis, ministros, poetas.

Retrocedem os tempos tão velozes
que ultramarinos árcades pastores
falam de Ninfas e Metamorfoses.

E percebo os suspiros dos amores
quando por esses prados florescentes
se ergueram duros punhos agressores.

Aqui tiniram ferros de correntes;
pisaram por ali tristes cavalos.
E enamorados olhos refulgentes

- parado o coração por escutá-los
prantearam nesse pânico de auroras
densas de brumas e gementes galos.

Isabéis, Dorotéias, Eliodoras,
ao longo desses vales, desses rios,
viram as suas mais douradas horas

em vasto furacão de desvarios
vacilar como em caules de altas velas
cálida luz de trêmulos pavios.

Minha sorte se inclina junto àquelas
vagas sombras da triste madrugada,
fluidos perfis de donas e donzelas.

Tudo em redor é tanta coisa e é nada:
Nise, Anarda, Marília...- quem procuro?
Quem responde a essa póstuma chamada?

Que mensageiro chega, humilde e obscuro?
Que cartas se abrem? Quem reza ou pragueja?
Quem foge? Entre que sombras me aventuro?

Quem soube cada santo em cada igreja?
A memória é também pálida e morta
sobre a qual nosso amor saudoso adeja.

O passado não abre a sua porta
e não pode entender a nossa pena.
Mas, nos campos sem fim que o sonho corta,

vejo uma forrma no ar subir serena:
vaga forma, do tempo desprendida.
É a mão do Alferes, que de longe acena.

Eloqüência da simples despedida:
"Adeus! que trabalhar vou para todos!..."
(Esse adeus estremece a minha vida.)


Cecília Meireles (poetisa brasileira)
Oh flor da noite



Oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde

teus olhos
não são estrelas
não são colibris

teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um passado se esconde

teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um futuro se forma

oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde

teus olhos
não são estrelas
não são colibris

Arlindo Barbeitos (poeta angolano)

Mãos esculturais


image


Além deste olhar vencido
cheio dos mares negreiros
fatigado
e das cadeias aterradoras que envolvem lares
além do silhuetar mágico das figuras
nocturnas
após cansaços em outros continentes dentro de África

Além desta África
de mosquitos
e feitiços sentinelas
de almas negras mistério orlado de sorrisos brancos
adentro das caridades que exploram e das medicinas
que matam

Além África dos atrasos seculares
em corações tristes

Eu vejo
as mãos esculturais
dum povo eternizado nos mitos
inventados nas terras áridas da dominação
as mãos esculturais dum povo que constrói
sob o peso do que fabrica para se destruir

Eu vejo além África
amor brotando virgem em cada boca
em lianas invencíveis da vida espontânea
e as mãos esculturais entre si ligadas
contra as catadupas demolidoras do antigo

Além deste cansaço em outros continentes
a África viva
sinto-a nas mãos esculturais dos fortes que são povo
e rosas e pão
e futuro.



Agostinho Neto (poeta angolano)

Elegia a mamana Isabel

[MAMANA.jpg]
Que tinha 56 anos quando morreu António Caetano


Os jornais o disseram
morreu António Caetano
velhísisimo velho colono.
Lutou por Moçambique
no tempo do Gungunhana.
Lutou por Portugal
durante a Grande Guerra.
Lutou e venceu.
Só agora foi vencido: morreu.

Os jornais o disseram
mas eu sei ah! dolorosamente eu sei
quem morreu não foi ele
foi maman Isabel

quarente e dois anos à sombra
da modesta reforma
do velhíssimo velho colono
esboroaram-se naquele dia

quarenta e dois anos em que foram dois
dormindo comendo esperando
na frágil e velha cabana
do velhíssimo e velho colono
senhor António Caetano
quarenta e dois anos
de ajuda carinho compreensão
quarenta e dois anos
de luta desespero resignação
quarenta e dois anos

ah! quarenta e dois anos se foram
quando morreu António Caetano
velhíssimo velho colono.

Rui Nogar
Moçambique

Aqui nascemos




I

A terra onde nascemos
vem de longe
com o tempo

Nossos avós
nasceram
e viveram nesta terra
e como ervas de fina seiva
foram veias em corpo longo
fluído rubro perfume terrestre

Árvores e granitos erguidos

seus braços
abraçaram a terra
no trabalho quotidiano

e esculpindo as pedras férteis
do mundo a começar
em cores iniciaram
o grande desenho da vida

II

E foi também
aqui
que eu e tu nascemos

Terra quente
de sol nascente

Terra verda
de campos plenos

Terra meiga
de colo largo

foi a nós
que se entregou
cheia de vida
e amorosa ânsia

III

Crescemos embalados
no canto do chirico
e brotando assima a planície humana
tão fundo impulso germinou
ondas fecundas de cristal

E quando o vento
vergasta o firmamento

e a espada cai
e rasga os corpos
o horror tinge
a face crua

O nosso amor não treme

Esta é a terra
onde nascemos

seu sofrer
é a nossa dor

e a nuvem fel de agora
é momento doloros
que a chuva há-de secar

IV

Nossa terra é de esperança
aberta ao franco amplexo

Na esteira dos passos dados
vão brilhando círculos livres

e como irmãos mais novos
de um século mais velho
vamos levvando em largas mãoes
a herança dos nosso avós

e com folhas do coração
continuar a obra humana
o grande desenho da vida.


Marcelino dos Santos
Moçambique

Diamor



É de cravo. Toque de pétala em minha boca
a tua língua redonda. Talo cálido
macio de ponta subtil de tamanho.
Olhos para cima ardendo incessante de cabelos
girassóis gémeos maduros no corpo do meio.
Punhal de luz de permeio
e no cabo da lâmina a pérola do umbigo.
Algas escorrendo ausência de Tejo nos dedos.
Cabo do mundo dos meus fascínios
dos meus delírios bem fundo que digo?
E o lugar dos joelhos hangares paralelos
insuspeitos de viagens rotuladas.
Ó gulas que as zonas do apetite jogam os dados
com prazer e êxtases estudados.

Outrora disseste rei terei
ó se minha arte tal fosse
porque leal e amor sou
homoalma inscrever-te no cosmos.
Minha mulher. O teu sexo de colher.
De sabor torrencialmente minha.

Beber-te moderno sumo do fruto.
Abundante por espasmos
de enormes segredos menstruados.
Sorver a plenos pulmões teu hálito mais secreto.
Esvair-me de concreto.
Ajoelho-me semeador ante a ternura
do cálice por ti aberto.
Desfoca ao longe a bebida
de já não vê-la de tão perto...
E o talhe de teus rins muito de Florença.

Pés de mármore de si rotativos a Sirius.
Ventre que em movimento flutua.
Fartura de lua.
Nádegas porcelares, carnagens lótus.
Aprumo de haste bambu ao Sol e a Marte.
Sexo de mim cação em teu sexo tubarão...
e o teu clito perdoa que não aparece!

Ó dor! Eis-te amor. Meu amor.
Nem Vénus. Nem de Cnido nem de Milo.
Muito branca muito morena e quente.
Muito querida e nua viva de frente.

É nesta indecisão de folhas caindo caindo
decisão de altas artes plantas plantas
a boca me ardendo nas tuas mamas tantas
soltando-se em alces fugindo fugindo.

As horas sendo em nossos cabelos.
Uma a uma. Um a um. Do tempo a Tagus.
Meus olhos égides tristezas minhas
que as não desejo aos relâmpagos.

Aqui a solução é não sabermos nadar
me chamas irmã dos espaços morenos.
Entre ondas de carne e unhas seremos
medo cisma orgasmo de podermos voar.


Dórdio Leal Guimarães

Quando te dói a alma


Hebergeur d'images

Quando estás descontente,
quando perdes a calma
e odeias toda a gente,
quando te dói a alma,

quando sentes, cruel,
o prazer da vingança,
quando um sabor a fel
te proíbe a esperança,

quando as larvas do tédio
te embotam os sentidos,
e o mal é sem remédio
e a ninguém dás ouvidos,

nega, recusa a dor,
abandona o deserto
das almas sem amor
e mergulha o olhar
em tudo o que está certo,
o mar, a fonte, a flor.

Fernanda de Castro


5.1.09

Certezas


Tive certezas, tive, mas perdi-as
uma após outra em poucos dias.
Que fazemos aqui, se não sabemos
para onde vamos nem donde viemos
e a vida não é mais aquele rio
que abandona a nascente e ruma à foz
mas este interminável calafrio
feito de laços, embaraços, nós?
Das certezas de outrora, a mais instante
tinha as letras exactas do seu nome
e também essa enfim seguiu adiante,
perdeu-se do que fomos e deixou-me.
Mas o que importa agora é inventar
novas certezas e recomeçar.


Torquato da Luz

4.1.09

Bandeira Branca


E a estrela perdeu-se na noite deserta...
Tentar procurá-la, para quê, se era em vão?
Deixaram-me em casa com a porta aberta.
Mas eu bem compreendo que estou em prisão.

Talvez que pensassem mal imaginário
a mágoa duns olhos em rosto bravio.
Mas eu bem me sinto peixe em aquário,
e sei a amargura de sonhá-lo rio.

Mas eu bem compreendo o cruel desalento
dos gestos frustrados, perdidos no ar.
Foi curta a mensagem, findou meu tormento.
E não vale a pena o que está por contar.


Maria Manuela Couto Viana

Estranha Forma



Estranha forma de engolir subúrbios
de dar sobranceria à urbe nobre
não só com cal não só com traça forte
para afastar o olhar do bairro pobre

As gentes simples que fazem lembranças
que as fundem finas as tecem em prata
pintaram seus sorrisos de brancura
cercando-se de beijos de mulata

Se ateiam lares no fundo rochoso
regados de suor antepassado
na superfície incerta da pedreira
impera o tufo pelo maticado

É este o Sul que eu abro nos meus livros
nas ilhas ou nas terras adornadas
que teimam em subir com o mar desperto
e garrir-se de cor e gargalhadas


Júlio Carrilho
Moçambique


Concerto para a ilha




A todas as horas
há segredos perdidos nas notas de Liszt.

Aos pés da ilha
os degraus de giesta estão em silêncio
e as palavras
tombam pequenas… tão pequenas… fugindo.

Na praça vai haver concerto.
Acabaram de chegar Deus e alguns santos.
(Há confusão:
Quebraram-se cordas de um piano).
As palavras
esbarram no infinito feitas loucas.
A música queima.
Perdem-se sons irrecuperáveis.
Toda a multidão esquece o mistério do olhar,
e Liszt,
com a última partitura
ensaia um coro de anjos.

Na campa
anti-nuclear não há descanso.


Ivo Machado

N'um Batuque



N'um batuque hontem andei,
onde vi certa morena,
tão gentil era a pequena
que nem eu dizel-o sei
- Como está? lhe perguntei
logo que de perto a vi,
- Quer dansar? lhe repeti,
não se acanhe minha bella, -
- tunda bobo, me disse ella,
Ou antes: - Saia d'aqui
- Seja meu par, oh menina
não se zangue por tão pouco;
- Uá salúcia, é você um louco,
Gámessenâ'me qu'quina
- D'esse olhar a luz divina
fascinado me deixou!
se um beijinho, só, lhe dou
gozarei prazer infindo,
- Quicolá, me disse, rindo,
logo de mim, se affastou.
- Por que foge? venha cá,
porque só me deixa aqui?
- Uá móno... mundele inhi...
Guamiâne... ndé cuná
- Por favor, não se vá já,
é ainda, muito cedo,
- Quiússuca, disse a medo
a moreninha tão linda
Caté mungo, disse ainda,
e retirou-se em segredo...

Eduardo Neves
(poeta angolano)

Batucada na noite


Bissau cresce
quando o sol desce
vem com o fio da noite
e só adormece
quando amanhece

O álcool
e o week-end
inflamam corpos
cheios de adornos

Na noite
há insónias
e sónias de muitos nomes
não é só o mote
aqui há funky
há merengada
e antilhesas na madrugada
Lufadas de amor
moldam corpos
suarentos de ardor
há um saracoteio
permanente
na passarelle da noite
sedas flutuantes
coxas remexendo
num sincopado
que dá síncope

O odor
mastiga o ar
sem pudor mistura-se
confunde-se
catinga
chanel
paco rabane
água cheiro
suor
e dior
ça va comme ça…
O old scotch
dá o toque final
É fatal
afinal porque não…

A batucada cresce
abre o espaço
a cidade não dorme.


Tony Tcheca (poeta guineense)
Tecto de Silêncio



Ergo a minha voz
e firo o tecto de silêncio
nego a morte de crianças
porque há míngua de medicamentos

Na angústia
liberto o verbo
mordo o pólen da desgraça
que grassa
nesta África desventurada
em obra
e graça
Subdesenvolvendo-se

Coloco andaimes
nos alicerces do tempo
Perscruto os ventos
Circunciso as ondas
Nego a convivência da paciência
que amordaça a fala
e cala o sentimento

Exorcizo o paludismo
Apeio a poliomielite
Amputo a desgraça
e eis a graça da criança
florescendo a vida.

Tony Tcheka (poeta guineense)


Balanço


Afinal, toda a minha poesia era verdade...
A noite é infindável, e os dias
são a mesma vastidão de carne apodrecida
morrendo sem saber de que morria.
Os rios são os mesmos, ou as ruas,
que só levam lá de onde não saí.
O silêncio é sempre a única resposta.

Se não pedi, que haviam de me dar?

Adolfo Casais Monteiro
Terra Prometida



Somos filhos da terra prometida
a marcha indelével
de um destino cansado
seguimos o clarão luminoso
escrito de sonhos matinais

Somos a jovem flor
plantada em Boé
a Pátria que se espreguiça
(esperamos imortal)
com veias de criança
voz da selva aromática
e mãos de poeta

Somos filhos de nós
esperanças mil vezes frustradas
mas nos corpos esqueléticos
e faces sem futuro
já desabrocha outra vida
rosa na terra e no mar


Julião Soares Sousa (poeta guineense)

Índico




Pálida e fria como uma estátua grega
a luz do sol me chama e me habita.
No sul sei que o silêncio passa devagar
por isso me perco no vento que me leva lá.
No sul ouço o dia brotar
e não em outro lugar.


Jall Sinth Hussein
Moçambique

3.1.09

É inutil chorar



É inutil mesmo chorar
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»

por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
O importante neles é já se sentir a verdade
de lutar por ela.
Por isso é inútil chorar.

Ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
Ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo...

Mas o que importa é não chorar.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»

Mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor ilumina
Que cada um de nós
lance a lenha que tiver
mas que não chore
embora tenha frio.

«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»


António Cardoso (poeta angolano)

A Manhã


A rosada manhã serena desce
Sobre as asas do Zéfiro orvalhadas;
Um cristalino aljôfar resplandece
Pelas serras de flores marchetadas;
Fugindo as lentas sombras dissipadas
Vão em sutil vapor, que se converte
Em transparentes nuvens prateadas.
Saúdam com sonora melodia
As doces aves na frondosa selva
O astro que benéfico alumia
Dos altos montes a florida relva;

Uma a cantiga exprime modulada
Com suave gorjeio, outra responde
Cos brandos silvos da garganta inflada,
Como os raios, partindo do horizonte,
Ferem, brilhando com diversas cores,
As claras águas de serena fonte.

Salve, benigna luz, que os resplandores,
Qual perene corrente cristalina,
Que de viçoso prado anima as flores,
Difundes da celeste azul campina,
Vivificando a lassa natureza,
Que no seio da noite tenebrosa
O moribundo sonho tinha presa.

Como alegre desperta e radiosa!
De encantos mil ornada se levanta,
Qual do festivo leito a nova esposa!
A mesma anosa, carcomida planta
Co matutino orvalho reverdece.
A úmida cabeça ergue viçosa
A flor, que rociada resplandece,
E risonha, perfumes vaporando,
Embalsamando vai o ar sereno.
De mil insetos um volátil bando
Errando gira pelo prado ameno,
E com brando sussurro de alegria
O astro louva do nascente dia;
Um, verdejante, voa, e reverbera
Da esmeralda o reflexo cintilante;
Em outro brilha da estrelada esfera
A bela côr azul: outro douradas
Mostra as ligeiras asas delicadas.
A formosa plumagem sacudindo,
O soberbo pavão, do bosque espesso,
Respirando alegria, vem saindo;

Da luz os novos raios vai buscando,
Do íris representa as várias cores,
Da longa cauda, um círculo formando:
Volta a cabeça de um e de outro lado,
Por ver brilhar os trêmulos reflexos,
Que nas penas lhe acende o sol dourado.

Resplandecente Aurora, mãe do dia,
Que vens, de frescas rosas coroada,
Encher o vasto mundo de alegria!
Sol luminoso, que raiando brilhas,
Às leis do Criador obediente,
Vens fecundar da terra as maravilhas,
Obras da sábia mão onipotente.

Sombra triste do sono tenebroso,
Dos olhos dos mortais foge ligeira,
Deixa que o esplendor maravilhoso
Possam vir contemplar da luz primeira,
E que à vista dos raios matutinos,
Que uma cena descobrem de portentos.
De prazer cheios, mil sagrados hinos
Mandem nas asas dos ligeiros ventos,
Porque soem por toda a redondeza
Os louvores do Autor da natureza.


Domingos dos Reis Quita
(sec XVIII)
Súplica


Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!

Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez...

Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a lua lírica do xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota – a humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor do lume
(que nos é quase tudo)
- mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longe terras,
vender-nos como mercadoria, acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!

Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos,
e no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume
a palhota que vivemos,
a machamba que nos dá o pão!

E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso...

E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!

- Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:

Tirem-nos tudo...
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!

Noémia de Sousa