6.1.09

Aqui nascemos




I

A terra onde nascemos
vem de longe
com o tempo

Nossos avós
nasceram
e viveram nesta terra
e como ervas de fina seiva
foram veias em corpo longo
fluído rubro perfume terrestre

Árvores e granitos erguidos

seus braços
abraçaram a terra
no trabalho quotidiano

e esculpindo as pedras férteis
do mundo a começar
em cores iniciaram
o grande desenho da vida

II

E foi também
aqui
que eu e tu nascemos

Terra quente
de sol nascente

Terra verda
de campos plenos

Terra meiga
de colo largo

foi a nós
que se entregou
cheia de vida
e amorosa ânsia

III

Crescemos embalados
no canto do chirico
e brotando assima a planície humana
tão fundo impulso germinou
ondas fecundas de cristal

E quando o vento
vergasta o firmamento

e a espada cai
e rasga os corpos
o horror tinge
a face crua

O nosso amor não treme

Esta é a terra
onde nascemos

seu sofrer
é a nossa dor

e a nuvem fel de agora
é momento doloros
que a chuva há-de secar

IV

Nossa terra é de esperança
aberta ao franco amplexo

Na esteira dos passos dados
vão brilhando círculos livres

e como irmãos mais novos
de um século mais velho
vamos levvando em largas mãoes
a herança dos nosso avós

e com folhas do coração
continuar a obra humana
o grande desenho da vida.


Marcelino dos Santos
Moçambique

Diamor



É de cravo. Toque de pétala em minha boca
a tua língua redonda. Talo cálido
macio de ponta subtil de tamanho.
Olhos para cima ardendo incessante de cabelos
girassóis gémeos maduros no corpo do meio.
Punhal de luz de permeio
e no cabo da lâmina a pérola do umbigo.
Algas escorrendo ausência de Tejo nos dedos.
Cabo do mundo dos meus fascínios
dos meus delírios bem fundo que digo?
E o lugar dos joelhos hangares paralelos
insuspeitos de viagens rotuladas.
Ó gulas que as zonas do apetite jogam os dados
com prazer e êxtases estudados.

Outrora disseste rei terei
ó se minha arte tal fosse
porque leal e amor sou
homoalma inscrever-te no cosmos.
Minha mulher. O teu sexo de colher.
De sabor torrencialmente minha.

Beber-te moderno sumo do fruto.
Abundante por espasmos
de enormes segredos menstruados.
Sorver a plenos pulmões teu hálito mais secreto.
Esvair-me de concreto.
Ajoelho-me semeador ante a ternura
do cálice por ti aberto.
Desfoca ao longe a bebida
de já não vê-la de tão perto...
E o talhe de teus rins muito de Florença.

Pés de mármore de si rotativos a Sirius.
Ventre que em movimento flutua.
Fartura de lua.
Nádegas porcelares, carnagens lótus.
Aprumo de haste bambu ao Sol e a Marte.
Sexo de mim cação em teu sexo tubarão...
e o teu clito perdoa que não aparece!

Ó dor! Eis-te amor. Meu amor.
Nem Vénus. Nem de Cnido nem de Milo.
Muito branca muito morena e quente.
Muito querida e nua viva de frente.

É nesta indecisão de folhas caindo caindo
decisão de altas artes plantas plantas
a boca me ardendo nas tuas mamas tantas
soltando-se em alces fugindo fugindo.

As horas sendo em nossos cabelos.
Uma a uma. Um a um. Do tempo a Tagus.
Meus olhos égides tristezas minhas
que as não desejo aos relâmpagos.

Aqui a solução é não sabermos nadar
me chamas irmã dos espaços morenos.
Entre ondas de carne e unhas seremos
medo cisma orgasmo de podermos voar.


Dórdio Leal Guimarães

Quando te dói a alma


Hebergeur d'images

Quando estás descontente,
quando perdes a calma
e odeias toda a gente,
quando te dói a alma,

quando sentes, cruel,
o prazer da vingança,
quando um sabor a fel
te proíbe a esperança,

quando as larvas do tédio
te embotam os sentidos,
e o mal é sem remédio
e a ninguém dás ouvidos,

nega, recusa a dor,
abandona o deserto
das almas sem amor
e mergulha o olhar
em tudo o que está certo,
o mar, a fonte, a flor.

Fernanda de Castro


5.1.09

Certezas


Tive certezas, tive, mas perdi-as
uma após outra em poucos dias.
Que fazemos aqui, se não sabemos
para onde vamos nem donde viemos
e a vida não é mais aquele rio
que abandona a nascente e ruma à foz
mas este interminável calafrio
feito de laços, embaraços, nós?
Das certezas de outrora, a mais instante
tinha as letras exactas do seu nome
e também essa enfim seguiu adiante,
perdeu-se do que fomos e deixou-me.
Mas o que importa agora é inventar
novas certezas e recomeçar.


Torquato da Luz

4.1.09

Bandeira Branca


E a estrela perdeu-se na noite deserta...
Tentar procurá-la, para quê, se era em vão?
Deixaram-me em casa com a porta aberta.
Mas eu bem compreendo que estou em prisão.

Talvez que pensassem mal imaginário
a mágoa duns olhos em rosto bravio.
Mas eu bem me sinto peixe em aquário,
e sei a amargura de sonhá-lo rio.

Mas eu bem compreendo o cruel desalento
dos gestos frustrados, perdidos no ar.
Foi curta a mensagem, findou meu tormento.
E não vale a pena o que está por contar.


Maria Manuela Couto Viana

Estranha Forma



Estranha forma de engolir subúrbios
de dar sobranceria à urbe nobre
não só com cal não só com traça forte
para afastar o olhar do bairro pobre

As gentes simples que fazem lembranças
que as fundem finas as tecem em prata
pintaram seus sorrisos de brancura
cercando-se de beijos de mulata

Se ateiam lares no fundo rochoso
regados de suor antepassado
na superfície incerta da pedreira
impera o tufo pelo maticado

É este o Sul que eu abro nos meus livros
nas ilhas ou nas terras adornadas
que teimam em subir com o mar desperto
e garrir-se de cor e gargalhadas


Júlio Carrilho
Moçambique


Concerto para a ilha




A todas as horas
há segredos perdidos nas notas de Liszt.

Aos pés da ilha
os degraus de giesta estão em silêncio
e as palavras
tombam pequenas… tão pequenas… fugindo.

Na praça vai haver concerto.
Acabaram de chegar Deus e alguns santos.
(Há confusão:
Quebraram-se cordas de um piano).
As palavras
esbarram no infinito feitas loucas.
A música queima.
Perdem-se sons irrecuperáveis.
Toda a multidão esquece o mistério do olhar,
e Liszt,
com a última partitura
ensaia um coro de anjos.

Na campa
anti-nuclear não há descanso.


Ivo Machado

N'um Batuque



N'um batuque hontem andei,
onde vi certa morena,
tão gentil era a pequena
que nem eu dizel-o sei
- Como está? lhe perguntei
logo que de perto a vi,
- Quer dansar? lhe repeti,
não se acanhe minha bella, -
- tunda bobo, me disse ella,
Ou antes: - Saia d'aqui
- Seja meu par, oh menina
não se zangue por tão pouco;
- Uá salúcia, é você um louco,
Gámessenâ'me qu'quina
- D'esse olhar a luz divina
fascinado me deixou!
se um beijinho, só, lhe dou
gozarei prazer infindo,
- Quicolá, me disse, rindo,
logo de mim, se affastou.
- Por que foge? venha cá,
porque só me deixa aqui?
- Uá móno... mundele inhi...
Guamiâne... ndé cuná
- Por favor, não se vá já,
é ainda, muito cedo,
- Quiússuca, disse a medo
a moreninha tão linda
Caté mungo, disse ainda,
e retirou-se em segredo...

Eduardo Neves
(poeta angolano)

Batucada na noite


Bissau cresce
quando o sol desce
vem com o fio da noite
e só adormece
quando amanhece

O álcool
e o week-end
inflamam corpos
cheios de adornos

Na noite
há insónias
e sónias de muitos nomes
não é só o mote
aqui há funky
há merengada
e antilhesas na madrugada
Lufadas de amor
moldam corpos
suarentos de ardor
há um saracoteio
permanente
na passarelle da noite
sedas flutuantes
coxas remexendo
num sincopado
que dá síncope

O odor
mastiga o ar
sem pudor mistura-se
confunde-se
catinga
chanel
paco rabane
água cheiro
suor
e dior
ça va comme ça…
O old scotch
dá o toque final
É fatal
afinal porque não…

A batucada cresce
abre o espaço
a cidade não dorme.


Tony Tcheca (poeta guineense)
Tecto de Silêncio



Ergo a minha voz
e firo o tecto de silêncio
nego a morte de crianças
porque há míngua de medicamentos

Na angústia
liberto o verbo
mordo o pólen da desgraça
que grassa
nesta África desventurada
em obra
e graça
Subdesenvolvendo-se

Coloco andaimes
nos alicerces do tempo
Perscruto os ventos
Circunciso as ondas
Nego a convivência da paciência
que amordaça a fala
e cala o sentimento

Exorcizo o paludismo
Apeio a poliomielite
Amputo a desgraça
e eis a graça da criança
florescendo a vida.

Tony Tcheka (poeta guineense)


Balanço


Afinal, toda a minha poesia era verdade...
A noite é infindável, e os dias
são a mesma vastidão de carne apodrecida
morrendo sem saber de que morria.
Os rios são os mesmos, ou as ruas,
que só levam lá de onde não saí.
O silêncio é sempre a única resposta.

Se não pedi, que haviam de me dar?

Adolfo Casais Monteiro
Terra Prometida



Somos filhos da terra prometida
a marcha indelével
de um destino cansado
seguimos o clarão luminoso
escrito de sonhos matinais

Somos a jovem flor
plantada em Boé
a Pátria que se espreguiça
(esperamos imortal)
com veias de criança
voz da selva aromática
e mãos de poeta

Somos filhos de nós
esperanças mil vezes frustradas
mas nos corpos esqueléticos
e faces sem futuro
já desabrocha outra vida
rosa na terra e no mar


Julião Soares Sousa (poeta guineense)

Índico




Pálida e fria como uma estátua grega
a luz do sol me chama e me habita.
No sul sei que o silêncio passa devagar
por isso me perco no vento que me leva lá.
No sul ouço o dia brotar
e não em outro lugar.


Jall Sinth Hussein
Moçambique

3.1.09

É inutil chorar



É inutil mesmo chorar
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»

por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
O importante neles é já se sentir a verdade
de lutar por ela.
Por isso é inútil chorar.

Ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
Ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo...

Mas o que importa é não chorar.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»

Mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor ilumina
Que cada um de nós
lance a lenha que tiver
mas que não chore
embora tenha frio.

«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»


António Cardoso (poeta angolano)

A Manhã


A rosada manhã serena desce
Sobre as asas do Zéfiro orvalhadas;
Um cristalino aljôfar resplandece
Pelas serras de flores marchetadas;
Fugindo as lentas sombras dissipadas
Vão em sutil vapor, que se converte
Em transparentes nuvens prateadas.
Saúdam com sonora melodia
As doces aves na frondosa selva
O astro que benéfico alumia
Dos altos montes a florida relva;

Uma a cantiga exprime modulada
Com suave gorjeio, outra responde
Cos brandos silvos da garganta inflada,
Como os raios, partindo do horizonte,
Ferem, brilhando com diversas cores,
As claras águas de serena fonte.

Salve, benigna luz, que os resplandores,
Qual perene corrente cristalina,
Que de viçoso prado anima as flores,
Difundes da celeste azul campina,
Vivificando a lassa natureza,
Que no seio da noite tenebrosa
O moribundo sonho tinha presa.

Como alegre desperta e radiosa!
De encantos mil ornada se levanta,
Qual do festivo leito a nova esposa!
A mesma anosa, carcomida planta
Co matutino orvalho reverdece.
A úmida cabeça ergue viçosa
A flor, que rociada resplandece,
E risonha, perfumes vaporando,
Embalsamando vai o ar sereno.
De mil insetos um volátil bando
Errando gira pelo prado ameno,
E com brando sussurro de alegria
O astro louva do nascente dia;
Um, verdejante, voa, e reverbera
Da esmeralda o reflexo cintilante;
Em outro brilha da estrelada esfera
A bela côr azul: outro douradas
Mostra as ligeiras asas delicadas.
A formosa plumagem sacudindo,
O soberbo pavão, do bosque espesso,
Respirando alegria, vem saindo;

Da luz os novos raios vai buscando,
Do íris representa as várias cores,
Da longa cauda, um círculo formando:
Volta a cabeça de um e de outro lado,
Por ver brilhar os trêmulos reflexos,
Que nas penas lhe acende o sol dourado.

Resplandecente Aurora, mãe do dia,
Que vens, de frescas rosas coroada,
Encher o vasto mundo de alegria!
Sol luminoso, que raiando brilhas,
Às leis do Criador obediente,
Vens fecundar da terra as maravilhas,
Obras da sábia mão onipotente.

Sombra triste do sono tenebroso,
Dos olhos dos mortais foge ligeira,
Deixa que o esplendor maravilhoso
Possam vir contemplar da luz primeira,
E que à vista dos raios matutinos,
Que uma cena descobrem de portentos.
De prazer cheios, mil sagrados hinos
Mandem nas asas dos ligeiros ventos,
Porque soem por toda a redondeza
Os louvores do Autor da natureza.


Domingos dos Reis Quita
(sec XVIII)
Súplica


Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!

Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez...

Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a lua lírica do xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota – a humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor do lume
(que nos é quase tudo)
- mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longe terras,
vender-nos como mercadoria, acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!

Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos,
e no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume
a palhota que vivemos,
a machamba que nos dá o pão!

E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso...

E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!

- Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:

Tirem-nos tudo...
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!

Noémia de Sousa

2.1.09

Palavras que disseste e já não dizes,


Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.


Pedro Tamen
Alcool

Heavy Red Art Print by Wassily Kandinsky

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longamente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas d'auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de côr e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo -
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de ouro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio d'inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi alcool mais raro e penetrante:
É só de mim que eu ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

Como um malmequer...

A vida podia ser apenas estar sentado na erva,
segurar um malmequer e não lhe arrancar as pétalas,
por serem já sabidas as respostas,
ou por serem estas de tão pouca importância,
que descobri-las não valeria a vida de uma flor.

José Saramago


Terra Tísica



terra sahel
vento
cinzento
esboçando
voos amargos
movediços
esperança a esvaiar
das alturas do futa djalon

-o bombolom
lamina ventos
anuncia eventos
repica forte
e geme
no corpo
do vento saheliano

dores saheis
em contravento
a seca
é um gemido ululante
sublimado
nas cordas adelgaçadas
do nhanhero griot

a chuva
que o vento
levou
mora no imaginário
sumido
de um choro
sem tambores
sem cana sem
lágrimas

o vento
deixou-nos
a ânsia gotejando
no pulmão da terra tísica


Tony Tcheka (poeta guineense)
Vinte de Fevereiro


Aos meus companheiros João Carlos, João Conduto,
Amadeu Cardoso, Quecuta Mané e outros...


Amanheci num interrogatório
de trinta e cinco perguntas
o medo e o terror invadiram meus passos
nos corredores silenciosos

Veio-me à memória
o cativeiro
o rosto da mamã triste
por entre as flores do Ministério
o chilrear dos pássaros
e o sol abrasador que se anuncia

Veio-me à memória
distante em dias contados
o Vinte de Fevereiro
a manhã em que fomos apenas
flores da nossa luta
e outros slogans.

Julião Soares Sousa (poeta guineense)
Cântico



Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.

E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.

E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:

Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza

é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.


Papiniano Carlos (1918)

Moritur



Quando morrermos não saberemos
o que seremos
se som se cheiro se luz
quando morrermos é o tempo para recomeçarmos
tudo de novo
pois nesta vida o que nos resta é aquilo
que nunca foi e o que nunca será
um intervalo entre a ilusão e o desejo

quando morrermos chegaremos finalmente
ao silêncio
a partir do qual serão as coisas que nos falam
em vez de nós
e prescindiremos do que não temos e do que não
teremos
pois essa é a sabedoria da morte

quando morrermos
daremos finalmente o que não temos:
a nossa morte

quando morrermos
apagar-se-ão os fios de luz da alma dos nossos amados
e eles dirão que ninguém é dono de si mesmo
e eles dirão que não somos Deus
e que até o mistério de Deus está revelado: Ele sabe
fazer-se amar
e condena-nos a amá-Lo − eis porque Deus existe

quando morrermos
diremos que é tempo de fazer a paz
e que já vagueámos bastante longe dos outros
e que devemos aproximar os irmãos
uns dos outros
e que essa é uma boa razão para
morrermos
ou seja para juntar a família

quando morrermos
escreveremos o nosso nome com serenidade
com toda a verdade que não fomos
capazes de reunir enquanto
vivos
porque morrer é a melhor forma de ser
sincero

quando morrermos
diremos que era preciso que assim fosse
porque já há barulho a mais
e já não queremos ser uma forma de ruído inútil

quando morrermos
talvez consigamos finalmente perceber o
mundo em que vivemos e para onde
nos conduz esta loucura
da vida sem amor
e do mal por apagar

quando morrermos
deixaremos de ser ofensivos para as outras
pessoas
pois já é tempo de nos libertarmos delas
e os solitários merecem mesmo a solidão

quando morrermos
a terra responderá ámen
e ninguém ouvirá essa voz
porque o som da morte tem limites

quando morrermos
estaremos condenados a carregar connosco
a nossa vida e a vida dos nossos pais
e a ser a cama onde se deitarão os nossos
filhos

quando morrermos
pensaremos que nos escapou algo
que houve lugares onde poderíamos ter estado

que algo acontece sem nós

quando morrermos
virá o desejo de saber
se poderíamos ter sido outra coisa
em vez do que fomos
ter sido antes de ser

quando morrermos
os nossos olhos verão finalmente as coisas
que não estão onde estão os lugares da vida
e verão coisas que lá não estão

quando morrermos
daremos outro nome ao exílio

quando morrermos
perceberemos então o aspecto do género
humano
perceberemos o que deseja o corpo
saberemos que cada homem é uma esfinge

quando morrermos
saberemos que a vida não era só ceder
no limite
ceder nas questões de vida e de morte
saberemos que a vida era ceder nas coisas
pequenas
muito antes da última palavra

quando morrermos
saberemos dar lugar aos filhos
com dignidade
saberemos que a paisagem se esgotou
e que os outros deverão vê-la
com os próprios olhos

quando morrermos
voltaremos ao ventre da mãe
donde quase nem saímos

pois a vida foi o tempo de olhar para
a nossa mãe do lado de fora
e regressar ao seu centro
para não esquecermos que não começámos do nada

quando morrermos
podemos então lavar duas vezes as mãos
na mesma água do rio
porque tudo é possível na morte
até sabermos a razão pela qual amamos alguém

quando morrermos
contaremos um segredo a Deus
sem grades que nos separem
e com olhos que vêem apenas o bem

quando morrermos
gritaremos muito alto
e esse grito não romperá o silêncio
a barreira que nos separa dos vivos
porque somos agora outra coisa
somos uma forma de bondade
e a bondade faz-nos continuar
a procurar os nossos mortos
eternamente.


António Jacinto Pascoal
Sangue negro


Ó minha África misteriosa, natural!
Minha virgem violentada!
Minha Mãe!...

Como eu andava há tanto desterrada
de ti, alheada, distante e egocêntrica
por estas ruas da cidade engravidadas de estrangeiros
Minha Mãe! Perdoa!


Como se eu pudesse viver assim,
desta maneira, eternamente,
ignorando a carícia, fraternalmente morna
do teu olhar… Meu princípio e meu fim…

Como se não existisse para além dos cinemas e cafés
a ansiedade dos teus horizontes estranhos,
por desvendar…
Como se nos teus matos cacimbados,
não cantassem em surdina a sua liberdade, as aves mais belas,
cujos nomes são mistérios ainda fechados!

Como se teus filhos
- régias estátuas sem par –
altivos, em bronze talhados,
endurecidos no lume infernal
do teu sol
causticante
tropical –
Como se teus filhos
intemerados, sofrendo,
lutando,
à terra amarrados
como escravo trabalhando, amando,
cantando,
meus irmãos não fossem!

- Ó minha Mãe África –
Magna pagã, escrava sensual
mística, sortílega,
à tua filha tresvairada,
Abre-te e perdoa!

Que a força da tua seiva vence tudo
e nada mais foi preciso que o feitiço impor
dos teus tantãs de guerra chamando,
dum-dum-dum-tam-tam-tam
dum-dum-dum-tam-tam-tam
para que eu vibrasse
para que eu gritasse
para que eu sentisse! – fundo no sangue da tua voz – Mãe!
E vencida reconhecesse os nossos erros
e regressasse à minha origem milenar…

Mãe! Minha mãe África,
das canções escravas ao luar,
Não posso, NÃO POSSO, renegar
o Sangue negro, o sague bábaro
que me legaste…
Porque em mim, em minha alma, em meus nervos, ele é mais
forte que tudo!

Eu vivo, eu sofro, eu rio,
através dele.
Mãe!...


Noémia de Sousa

1.1.09

Na passagem de um ano

Hostingpics

Erros nossos não são de toda a gente
tropeçamos às vezes na entrega
mas retomamos sempre a marcha em frente
massa humana que nada desagrega.

Para nós o passado e o presente
são futuro no qual o povo pega
com suas mãos de luz incandescente
que aquece que deslumbra mas não cega.

Para nós não há tempo. O tempo é vento
soprando ano após ano sobre a história
que para nós é vida e não memória.

Por isso é que no tempo em movimento
cada ano que passa é menos tempo
para chegar ao tempo da vitória.


José Carlos Ary dos Santos