
O vento
é harpa
sob os negros dedos
desta negra noite
é música fúnebre
em meus versos partidos
amortalhados na noite
é sinfonia macabra
nesta selva espessa de negrume e silêncio
nem rubros contornos
nem cânticos de aves
— apenas o vento na harpa e na selva!
A noite
é fantasma vagueando na noite
e o vento
a harpa
e o som e o salmo
deste negro cântico
nos nervos partidos
no leito vazio
neste poema
que
chora na noite
grita na selva
contorce na dor
agoniza no desespero
e suplica no estertor:
— Mata-me
noite homicida
e sepulta-me
no abismo desta solidão!
João Rodrigues
(Cabo Verde)
(Cabo Verde)