30.3.11

Amanhecer em Estremoz



Uma a uma a noite abria
à luz matinal das rolas
as minúsculas portas da alegria.

Eugénio de Andrade

O seu rosto branco


Em tantas casa e praias fui falando.
Estava de copo na mão a saber que me olhavam;
ao sol e quase nu de bruços no calor da areia.
Com os lábios perturbava a saliência de uma orelha,
na minha perna direita repousava, dócil, a face esquerda
de um rosto, pele misteriosa. Os convidados
da festa decidiam partir. Quebrava-se o andar da noite,
eu vi-me só, posta em perigo a minha sede, toda
a ternura. Perseguíamos o prazer, talvez a imagem
da infância, esperávamos pelo sentido dos dias.
A rapariga japonesa tinha-me dito: você quer beber?
E também ela partira, o seu rosto branco
levara para longe a sugestão das flores de cerejeira.


João Camilo

29.3.11

A acrobata deu mal um salto mortal


A acrobata deu mal um salto mortal
e ficou um pouco coxa para o resto da vida
todas as histórias de circo são tristes e sórdidas
esta também é
o empresário era mau
a acrobata não foi despedida
foi obrigada a escrever um romance
em quinze dias
a acrobata escreveu tanto e com tanta força
que abriu o pulso da mão esquerda
o empresário continuou a ser mau
outra vez
agora vai vender nougats
nos intervalos
sorvetes não pode ser
porque os ia deixar derreter
quem mal começa acaba pior
a acrobata ficou tão corada
que os nougats ficaram muito moles
a acrobata para ninguém dar por isso
engoliu os nougats muito moles
à frente dos clientes
e pagou-os do seu próprio bolso
que era o bolso do vestido velho de taffetas lilás
de uma trapezista que se tinha distraído
esta história começa mal mas não
acaba mal
acaba aqui
depois a acrobata combinou fugir
com as aranhas
e fugiram umas atrás das outras


Adília Lopes

Menina Perdida


Menina perdida
no bosque da vida.

Os olhos desertos,
os gestos errados,
os passos incertos,
os sonhos cansados.

Menina perdida,
desaparecida
nos longos caminhos
de pedras e espinhos.
Cabelos molhados,
pés nús, alma exangue,
vestidos rasgados,
mãos frias, em sangue.

Menina encontrada
na berma da estrada.
Andava perdida
mas já foi achada,
de branco vestida,
de branco calçada.

Menina perdida
no bosque da vida.

Fernanda de Castro

Tentáculos de estrelas




Podes agitar
Os teus cabelos esta noite
E sorrires amor
O céu trará
Seus tentáculos
De estrelas


Chagas Levene
Moçambique

Fim de Estação



Como nao sei se adivinham
Tempestade. Não Fim de UMA Estação
ter Borboleta morrem EO quebra vento
in altas Varandas. Por Trás dos Vidros e
defendemos o nosso TODAS contra a surpresas.
Morremos de antemão. E JÁ soluço Trovoada
escurecida dos nossos Pássaros voo-o na chuva.


Carlos Poças Falcão

queria escrever-te uma carta


queria escrever-te uma carta
amor
mas tenho hoje um bico de pássaro
na ponta de cada dedo


Isabel Solano

Cerimónia funesta



O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estremece ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.


Fátima Maldonado

28.3.11

Mudez


Quando por fim voltares, traz no olhar
a nesga de areal onde algum dia
te encontrei entre a espuma e a maresia,
passeando a surpresa de haver mar.

Traz também nos cabelos o luar
e deixa que o veneno da poesia
nos envenene aos dois em sintonia,
como exige o mistério do lugar.

Talvez assim eu possa finalmente
segredar-te as palavras que não soube
dizer-te no momento em que te vi

pela primeira vez e, de repente,
o mundo foi tão grande que não coube
na minha voz e logo emudeci.

Torquato da Luz

O espelho dos magos

para o Heliodoro Baptista

Pombas radioactivas
soltam-se-me das mãos
quando chega o pôr-de-sol
e partem disciplinadamente
varejando o horizonte
que as leva em direcção
às rocas da paz.

Vede a disponibilidade delas
mesmo sabendo tão longa
a escalada do galho onde mora
do outro lado da noite.
Hão-de compreender de certo
quanto mais altos o andaime
para o ensaio da queda
a falésia do cárcere
mais puro renascerei
contra todos os vaticínios
pois reservado fora-me
o destino daqueles
que na dor se desplumam
em lamelas de cinza
como folhas anémicas
dum cipreste qualquer.

Caí vassalo do medo
em território de algozes
sitiado por veraneantes
tubarões sem pergaminhos
a tecerem contas de piolhos
de cócoras sob os autoclismos.
Aprendi a solfejar
com o queixume dos búzios
onde retine a mensagem
dos náufragos da injustiça.
Venho de um continente
de transmigrados de calamidade
em calamidade
com meninos que morrem
desapercebidamente
no dorso das suas mães
a caminho dos centros
de emergência da cruz vermelha.

E quando de modo abusivo
me detive junto das bordas
da indenunciável imagem
dos teus disfarces reflectida
no mármore em que oficias
morri no espelho de um mago!


Julius Kazembe
Moçambique

27.3.11

O povo das Ilhas quer um poema diferente


O povo das Ilhas quer um poema diferente
para o povo das Ilhas:
Um poema com seiva nascendo no coração da ORIGEM
Um poema com batuque e tchabéta e badias de Santa Catarina
Um poema com saracoteio d’ancas e gargalhadas de marfim!
O povo das Ilhas quer um poema diferente
para o povo das Ilhas:
Um poema sem homens que percam a graça do mar
E a fantasia dos pontos cardeais!


Onésimo Silveira
Cabo Verde

Vendedor da vida



Eu só, sozinho no silencio da vida,
saciando a vontade, vendendo a vida.
vestindo de solidão puxando a lua ri a vida.
pagando a divida.

Eu ruço, envelhecido, vendendo a vida.
deitado nas estrelas, agora é a vida
sonhando nas aguas, lutando pela vida.
lutar é viver a vida.

No sol bebo os raios, caregando a vida,
escutando a fala do vento, oiça a vida,
a verdade está na vida.

Navegando nos soures, lágrimas. É a vida,
Chorar é sofrer, vestir a coragem da vida
lutar é sintir a vida.


Adilson Augosto Nancassa
Guiné

25.3.11

O coval



Excêntrica
é a minha indignada
mesquinha forma de sofrer.

Lúcido
eu a desencher o mundo
tapando-me no mesmo coval.

José Craveirinha
Moçambique

24.3.11

Sobressalto



amor,
as luas mortas
caíram no segredo deste amor;
fujamos pela praia
embarquemos no vento!

as luas mortas
são mundos apodrecidos…

o nosso amor balbucia
cantigas da era nova
e nas mãos
temos o húmus adubado e quente
para o jardim redolente
para a seara de pão
para a seara de amor…

nada nos serve fugir
pior que fantasmas
são os miasmas
dos mundos apodrecidos…

amor,
nos vales ermos, esquecidos
de toda a flor,
de todo o riso,
do amor ao amor
das madrugadas e dos pássaros.

(fechadas todas as portas
ao susto e à escuridão,
com um beijo verde de esperança
cantando no coração)

amor,
enterremos as luas mortas…


Lília da Fonseca
Angola

23.3.11

Macela



Macela
Sementes de erva doce
Falco alexandrii
Sementes de endro
Aeonium gorgoneium
Coroa-de-rei
Passar iagoensis
Gestiba
Pandion halieatus
Pandion halieatus


Vasco Martins
Cabo Verde

22.3.11

Poema do amanhã


Num esforço de amanhã hei-de nascer
e dizer aos homens de hoje quem eu sou.


Manuela Amaral

21.3.11

De que serve



De que me serve a placidez da Primavera?
O grito desconjuntado dos pássaros,
a inquietude rumorejante desta paisagem de folhas?
De que me serve o cheiro acre
dos dias terminados e a
memória trémula das mãos,
do desejo pálido da pele?
De que me serve o
sino-marca-horas,
marca-passo-do-desejo,
o augúrio impertinente das horas
que não tornam mais?

Os sulcos indiferentes
da amarga poesia do teu corpo.
O pousio das horas do silêncio.
A dança equilibrista
das folhas do Outono.

Na sombra onde me encontro
apenas a poalha das estrelas,
uma mácula de luz, ou
talvez só a sua grata memória.


Alexandra Malheiro

Era um encontro impossível.


Era um encontro impossível. Deitados à noite
sobre uma colcha apenas conseguiram tocar-se
com o choro, mas o cavaleiro não conhecia esse
segredo, nem via que o seu beijo se assemelhava a
uma morte definitiva. Porque tudo nele era matéria
flutuante, não suportava a felicidade. Uma luz
que não morria saía dela, como um barco que
demora séculos a desfazer-se abandonado num
porto, já devorado pelas algas. Por isso, o homem
vestia de novo a armadura e esperava até que,
desaparecido o anjo, solta para a caça, ela voltasse
a ser a presa sem covil, à mercê da sua lança, onde
por suas próprias mãos havia colocado uma insígnia.


Jaime Rocha

Borboletas



Borboletas
sonâmbulas
do desejo
-as minhas
tuas mãos.


Albano Martins

Doçura



Os beijos em África são doces
doces como o untué que as crianças
devoram p'la manhã

As carícias em África são doces
doces como a banana-ouro
que teima em desaparecer da nossa ilha

O amor em África é doce
doce como o belo abacaxi
que se cria no mato e no quintal

Os homens em África são doces
porque os seus olhos são o untué das crianças
o seu corpo o belo abacaxi
e o seu sexo a tal banana-ouro
que não vai desaparecer da nossa ilha.


Maria Olinda Beja
São Tomé e Príncipe

20.3.11

Tardes inventadas


As tardes inventei-as.

Fulgurantes umas,
sonolentas outras,
quentes ou arrepiantes
e todas
geradoras de instantes
impossíveis...

Atiro um braço ao ar
e quero que ele prendauma estrela,
um cometa,o floco de renda
de mil cassiopeias...

É dia e há luar...

As tardes inventei-as.

Saúl Dias

Primavera


O homem funerário tirou respeitosamente o boné preto
quando o morto entrou no cemitério
e do boné sairam dois coelhos brancos
um ramo de tulipas
três cravos amarelos
e um cavalo árabe das noites.
É Primavera disse o cavalo árabe das noites
e comeu as tulipas e os cravos
e assustou os dois coelhos brancos
É Primavera
e as pessoas começaram a morrer
porque gostam de flores e de sol
e de música lenta


Y. K. Centeno

Eu vou tirar do dicionário


Eu vou tirar do dicionário
A palavra você
Vou troca-lá em miúdos
Mudar meu vocabulário
e no seu lugar
vou colocar outro absurdo
Eu vou tirar suas impressões digitais
da minha pele
Tirar seu cheiro
dos meus lençóis
O seu rosto do meu gosto
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos “nãos” se faz um sim
Eu vou tirar o sentimento
do meu pensamento
sua imagem e semelhança
Vou parar o movimento
a qualquer momento
Procurar outra lembrança
Eu vou tirar, vou limar de vez sua voz
dos meus ouvidos
Eu vou tirar você e eu de nós
o dito pelo não tido
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
om quantos “nãos” se faz um sim


Alice Ruiz
Brasil

Das paixões





a nudez do teu corpo
é ideia que vaga solta
no campo da fantasia
abre portas,
ressuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.


Ademir Antonio Bacca
Brasil

Noutra praia



(dedicado a FL, que regressou com as cores da ria)

Mas tu pensas
que o mar te não esqueceu:
por isso voltas cada ano a esta praia
onde tudo o que permanece te ignora;
e encaras o mar como se fosses tu,
ainda tu,
quem recebe na face a mudança dos ventos


Luís Filipe Castro Mendes