12.4.10

Mania do Suicídio

Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.


Rui Knopfli

11.4.10

Contrato


Contrato
é acto contra acto
é compromisso
é dádiva não dada
nem vendida
é isso
que se troca em cada gesto
da mesma dimensão
Que o resto
é coração com asas de mitologia
Contrato
é
mão contra mão
na manhã fria
inventar o calor de duas mãos.

Luísa Ducla Soares

Na Ásia



As vozes nos telhados de tesoura
São da que gentilmente
Transpões este rio, curvado
A barcaças de remoção de fundos.
Restos de neve em Hohhot.
O amor passa ou não
Passa, corrente.
Acende a luz no busca-pólos, devagar.
Mene, peres, teqel
Constelações em terra e do firmamento, azul.


Gil de Carvalho

Canto e lamentação na cidade ocupada


4.

Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado, acariciarlhe
os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor. Parto amanhã.

Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo doce e
leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.

Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos contornos a
que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.

Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria e apesar
disso murmurar: Somos dois e exigimos.

Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as
etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.

Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante, entre
ruídos de música e interferências aladas.

Não basta ser feliz.

Não basta a Primavera.

Não basta a solidão.


Daniel Filipe (cabo Verde)

10.4.10

Comem de noite


Comem de noite pelos caixotes.
Comem de noite.
Grandes famílias,sob capotes
Que são açoites.

Sob capotes de chuva e pranto,
Pátrias perdidas.
Chave na porta,a cama à espera,
A fuga à terra das suas vidas.

Cumpriram sonhos e não mataram.
Cruzaram sangues e não traíram.
Filhos de humildes embarcações
Árvores soltas de Áfricas vivas.

Quem corta fitas de liberdade
A sua gruda em fundos poços.
Sumam-se contas de ambiguidade:
Milhares de mortes,milhões de ossos.

Antes que o tempo cobre a verdade
Crescem as teias entre as aranhas.

E muitos comem pelos caixotes
Enquanto engordam estranhas espanhas.


Natércia Freire

Canto e lamentação na cidade ocupada


3.
Não fora o grito a faca
de súbito rasgando
a fronteira possível
Não fora o rosto o riso
a serena postura
do cadáver na praia

Não fora a flor a pétala
recortada em vermelho
o longínquo pregão
o retrato esquecido
o aroma da pólvora
a grade na janela

Não fora o cais a posse
do nocturno segredo
a víbora o polícia
o tiro o passaporte
a carta de Paris
a saudade da amante

Não fora o dente agudo
de nenhum crocodilo

Não fora o mar tão perto
Não fora haver traição


Daniel Filipe (Cabo Verde)

8.4.10

A brisa virou nuvem, e parou



Flores,
gemem anémicas em vasos pintados.

Canários
cada vez mais amarelos
cantam sem convicções músicas surrealistas.

Os relógios das Catedrais
(e mesmo os outros também)
continuam batendo 12 badaladas para a meia-noite.

Tudo parece imóvel,
contra a vontade de Heráclito.

(Só de Heráclito?)

Os peixes
nos Aquários,
estão bêbados de tanto rodar.

Mas será mesmo,
e para sempre,
que todos os caminhos vão dar a Roma?

Ruy Guerra
Moçambique

7.4.10

Divagações


Pelo dever
de resistir e caminhar
pelos destroços da nossa utopia,
eis-nos aqui de novo, acocorados,
aqui onde o tempo pára
e as coisas mudam.

E para que o nosso sonho renasça
com a levitação do vento e do grão,
eis-nos aqui de novo,
passivos como os espelhos,
no tear da nossa existência.

Este sempre será
O nosso amanhecer.
E a nossa perseverança
é como a da erva daninha
que lentamente desponta na pedra nua.

Armando Artur
Moçambique

Ser cantor


eu queria ser o mais simples dos cantores, aquele que uma trompa
acompanha em deslocações à província,
ter a teimada obstinação do grilo
e o grito da água, surpresa no alto dos penhascos,
e há pássaros que mergulham e me rasgam
para pousar no silêncio interior da queda

António Franco Alexandre

Véspera

Rose sur Livres I Art Print

Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.

Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.

Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?

Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. É fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.

Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!

Contempla este jardim, os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio
e perseguem o sol no dia findo.

E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreo, são mais leves do que brisa.

E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.

Olha, amor, o que fazes deses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem-palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.

Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.

Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.

Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!

Não ensaies demais as tuas vítimas
ó amor, deixa em paz os namorados.
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.

Carlos Drummond de Andrade (Brasil)

6.4.10

Vírgula



Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. Mais
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.


António Maria Lisboa

Levava eu um jarrinho



Levava eu um jarrinho
P´ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P´ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p´ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.

Fernando Pessoa

5.4.10

Kalumba




Ela veio do mato
e confundiu
as estrelas com as luzes da cidade

Na cidade
os seus olhos eram duas estrelas

E no coração de muitos homens
não brilhou outro sol
se não a linda filha de soba
que viera das terras da Lunda
e morava no muceque Sambizanga

Mas os seus olhos confusos
descobriram na cidade
um mundo diferente
onde a sua alma era aferrolhada
nos navios que levaram do Congo
os homens sobre o mar
Kalunga! Morte

Aquela cidade era um mar
era a sua morte
E na cidade brilhante
que é um mundo, um mar
Kalunga!
onde em cada rua partem navios
para longe de cada homem
perdeu duas estrelas –

Os olhos
da linda filha dum soba da Lunda.


Agostinho Neto (Angola)

Correspondência


Com as minhas cartas de amor
vou fazer um castelo de cartas de amor

*

A vida não é um romance epistolar
ai de quem julga que é Marianna
e vive de cartas

*

Mais vale bater claras em castelo no Dafundo
do que ter castelos de vento em Espanha


*


eram de papel de carta
as minhas cartas de amor

*

As minhas cartas de amor
eram tão infelizes
que hoje são cartas de jogar

*

Viver de cartas é viver de vento

*

Não recebo correpondência meu amor
o meu amor não é correspondido
ao contrário do âmbar e do benjoim

*

De Espanha nem bom vento
nem bom casamento

*

O meu castelo de cartas é fraco
como um castelo de cartas
e como um castelo de cartas
O meu castelo de cartas é fraco

*

O vento deita por terra
os castelos de cartas
e os castelos

Adília Lopes

Mar


O mar,
o meu mar.

todo o mar
do mundo
ao meu encontro.

Mar meu,
centro.

Mergulho
no mar.
Entro?

Ou entra
em mim
o mar?


João Pedro Messeder

3.4.10

Purgação Dionisíaca



CELIO
1.
As aves ressequiram.
Não haverá como fugir
aos olhos de Outono…

2.
Ambiciono o relâmpago,
só o silêncio acorda a sílaba
e a desperta para a pestilência.

3.
O que for escrito do hálito
será cumprido – a dilecção
é a sua extensão mais pura.

4.
Quando o cio desmembrar
a fábula sobre os cortiços
impregnarei a terra de paixão?

5.
Na combustão das crias
as palavras como invasoras.
A crueldade como bálsamo.

6.
A matança é uma inferência,
nunca a criação permanecerá
em sua aparente invisibilidade.

7.
Em vulcão de lava, o verbo
procura florir uma flor:
desaba inteiro na língua!


João Rasteiro

Pensameus II


O poder
do agora,
aqui :
vim
estou
aqui
sou
completamente
verso
e
silaba
para um poema urgente


Tânia Tomé

2.4.10

O sorriso


Falta-me ainda construir o poema
que sem rodeios cantará
a festa de estar contigo.
Entretanto, exploro um tema,
sedento de palavras que não há
para dizer o que digo:
o infindável tema do sorriso
que te marca o olhar.
E de nada mais preciso
para continuar.

Torquato da Luz

Presença de Ulisses



- Procuro-te porque os Poetas não gostam de encontrar.
São poetas porque a Poesia lhes foge.
Foge,Ulisses.
Procuro-te,Poesia.


Natércia Freire

Africana


Dizes que me querias sentir africana,
dizes e pensas que não o sou,
só porque não uso capulana,
porque não falo changana.
porque não usi missiri nem missangas,
deixa-me rir...
mas quem é que te disse?!
Só porque ando de «Levis, Gucci ou Diesel«,
não o sou... será?
Será que o meu sentir passa pela indumentária?
Ou que o serei
pelo sangue que me corre nas veias,
negro, árabe, indiano,
essa mistura exótica,
que me faz filha de um continmente em tantos
onde todos se misturam,
e que me trazem esta profundidade,
mais forte que a indumentária ou a fala,
e sabes porquê?
Porque visto, falo, respiro, sinto e cheiro a África,
afinal o que é que tu saberás? O que é que tu sabes?
Deixa-me rir...
deixa-me rir...

Sónia Sultuane

Papagaio gaio



Papagaio insensato,
que te fêz assim?
Que não sabes falar
brasileiro
e já sabes latim?

Papagaio insensato,
ave agreste, do mato,
que diabo em ti existe,
verde-gaio,
que nunca estás triste?

Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?

Papagaio triste,
papagaio gaio,
quem te fez tão triste
e tão gaio,
triste mas verde-gaio?

Papagaio gaio,
quem te ensinou,
em mais
do mato, a repetir,
papagaio,
tanto nome feio?

Gaio, papagaio,
gaio, gaio, gaio,
que repetes tudo...
Antes fosses
um pássaro mundo.

Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?

Papagaio, gaio.
Gaio, gaio, gaio.

Cassiano Ricardo (Brasil)

O poema ensina a cair


O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúptia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge

1.4.10

Desejo

Male Nude Sitting Photographic Print

Aterra-me nos lábios
Com teus beijos
E deixa-me voar nas asas do sonho
Iludido ainda por viver…

Navega-me
O corpo impuro
Do meu casco imaturando,
Com as ondas crespas e revoltas
Do teu negro e revolto cabelo.

Viaja por mim
Teu corpo em carícias
De voltas ao Mundo:
Sejam abraços tão fundos
Sem nunca lhes medir o fim!

António Cardoso (Angola)

O seu santo nome


Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

Carlos Drummond Andrade
Brasil

31.3.10

Visão vinte e cinco



E eis que a mulher aparece dentro da sombra,
largando o sangue entre as árvores, e é o seu
corpo visível que se transforma e se deixa levar
pela noite, esquecendo que a sua alma está
presa ao homem que a algemou para sempre.

Não é ele que eu vejo, espanta-se o pedreiro.
E as mãos dele enlouquecem até à exaustão.

Uma coisa nada humana sai do tronco de um
sicómoro. É a mulher esvaindo-se em cinza,
uma borboleta esmagada por um cilindro.
Porque era tarde demais e o amor do homem,
tal como as aves, morreu com o esplendor
das últimas uvas.


Jaime Rocha