11.8.10

Praia da Granja


Pelo que quer que seja a exaltação habito aqui,
nesta casa de sete janelas,
com uma pequena porta e uma varanda verde.

A praia incendeia-me os olhos,
e chamo, chamo à mulher espiral do mundo.

Toco com um dedo o muro branco e acrescento
ao entendimento ervas amargas, animais solares
e obscuros, um antigo instrumento de trabalho,
o búzio, o barco, o arado,
um ramo de salgueiro, esta pedra incisiva,
uma maçã vermelha.

Guardo no coração uma voz que vai de lugar em lugar
a interrogar as sombras
e no poema murmura o poder das cintilações
sobre a cânfora,
a hortelã,
os figos,
o encantamento,
a cabeça da víbora.

A extensão desta casa é a dimensão desta praia
divina sobre as águas,
tal como é divina a mulher que me acompanha
e a quem chamo espiral do mundo
por ter criado um sortilégio assim,
uma casa grega,
branca,
nítida,
com sete janelas,
uma pequena porta e uma varanda verde
sobre o mar.

Amadeu Baptista

Conhecer o Mundo




Conhecer o Mundo
Eis o meu Fado!
De nada vale
Remar contra o vento!


Delmar Maia Gonçalves

10.8.10

Abandonei-me ao vento



Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe

quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.

E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.

Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.

Carlos Nejar
Brasil

9.8.10

Os meus heróis



Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa. Mas
os meus heróis verdadeiros não vêm na história,
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome,
são heróis dos dias úteis da semana
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos,
lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade púdica da vida,
sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas,
são os construtores do meu país à espera
mouros no trabalho e cristãos na esperança
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse a seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha.


António Arnaut

viste que os dias não passavam


viste que os dias não passavam
disto, e viste bem. desse lado
do céu, tens o melhor miradouro
sobre a madrugada. se encontrares
o pintainho que sepultámos,
em segredo e lágrimas, no
quintal das tias, pede-lhe o
arco da sua asa nas noites de lua nova.
remete-me, quando puderes,
pacotes de chuva miúda, gosto
de a ver decalcar a terra, fundir-se
com as sementes de milho
no canto da achadinha.

entretanto, vou montando o
telescópio, com as instruções
que me deste. põe-te à vista
e combinamos um gelado a
meio caminho,
à hora da infância.


Renata Correia Botelho

Grão d'areia



Um só ínfimo grão de´areia
nunca imaginei
pesar tanto...

--------------

eu depondo
no clássico ritual
sobre o nosso adeus
constrangidos torrões
à mancheias.


Noémia de Sousa

Pátria




Um caminho de areia solta conduzindo a parte
nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
tinham nome por que era costume designá-los.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal

e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misterioso, habitado por deuses e duendes
de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios

entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho de uma linha imaginária. A isso
chamávamos pátria. Por vezes, de algum recesso

obscuro, erguia-se um canto bárbaro e dolente,
o cristal súbito de uma gargalhada, um soluço
indizível, a lasciva surdina de corpos enlaçados.
Ou tambores de paz simulando guerra. Esta
não se terá feito anunciar por tal forma

remota e convencional. Mas o sangue adubou
a terra, estremeceu o coração das árvores
e, meus irmãos, meus inimigos morriam. Uma
só e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.

De quatro paredes restaram as paredes. Com as folhas
de zinco e a madeira ferida dos travejamentos
perfaziam uma casa. Partes de um corpo
desmembrado, dispersas ao acaso, vento e silêncio
as atravessam e nelas não dura a memória

que em mim, residual, subsiste. Sobre escombros deveria,
talvez, chorar pátria e infância, os mortos que
lhe precederam a morte, o primeiro e o derradeiro
amor. Quatro paredes tombadas ao acaso e isso bastou
para que, no que era só mundo, todo o mundo entrasse

e o polígono demarcado, conservando embora
a original configuração, fosse percorrido por
um arrepio estrangeiro, uma premonição de gelos
e inverno. Algo lhe alterara imperceptivelmente
o perfil, minado por secreta, pertinaz enfermidade.

Semelhante a qualquer outro, o lugar volvia meta
e ponto de partida, conceitos que, como a linha imaginária,
circunscrevem, mas de todo eludem, o essencial,
Ladeado de sombras e árvores, o caminho de areia,
que se dizia conduzir a parte alguma, abria

para o mundo. A experiência reduz, porém,
a segunda à primeira das asserções: pelo mundo
se alcança parte nenhuma; se restringe ficção
e paisagem ao exíguo mas essencial: legado
de palavras, pátria é só a língua em que me digo.


Rui Knopfli
Moçambique

Olho o côncavo azul


Olho o côncavo azul do firmamento
é tarde
um sobretudo agita-se para os lados de alcântara

Felizes os que morreram canta um sino
e com certo compasso certa razão se se pensa
na quantidade de espaço ocupado
pelos que sopram coisas há séculos debaixo de terra
os que vêm aqui fazer eternidade grandes ovas do espírito
e não levam para lá coisa nenhuma
nem um pequeno vaso uma estatueta de bolso
um balão de criança que é tão leve
nada
porque o lá não existe lá, nós que carreguemos
as mil missas em ré do bicho-de-conta
as quinhentas pinturas do mão já nenhuma
o bilião de palavras do caveira três
e mais os planetas desertos, que também mandam coisas

Felizes os que morreram realmente ó sino
mas mais felizes ainda os que mataram
mais felizes os que ergueram à altura simples do corpo punhal
fundente
as molas sete e oito da grande máquina
e a quebraram nos ossos do espectáculo
porque ele é a usura
da noite de cavalos submergidos no lago
a estrada contra-curva
onde Harcamone passa a caminho do teatro
a uma mesa de mortos galvanizados

Porque a poesia não é para galvanizar isso
a poesia a poesia
o recôncavo azul do firmamento
que é negro
e outras coisas mais
se ainda é tempo de ver por cima do prato
os vigia os paloma os clandestinos os lâmpara
os invisíveis anjos guardadores
do trabalho que não pode ser adiado
e não esta linguagem de lamento esta linha de rogo que frustra a voz
não este verso exposto a mil vagares na almofada branca de uma página
mil vezes decapitada na praça pública
em oitavas e quartas paralelas e sétimas dominantes cheias de horror
e ainda assim contentes
de bailarem em torno do seu próprio círculo
mas o que na manhã só uma vez quase ouvimos
um para o outro
um dentro do outro
mais interiores à magnificência da espécie
do que aos espaçosos e nobres labirintos do canto

Mário Cesariny

8.8.10

Luanda é a cidade




Luanda é a cidade
que não sabe se é cidade
se é país.
Tanto país se encontra nela
tanta cidade compõe este país
tão país e tão cidade
Luanda mulher criança velha
homem que por ela morre e vive
do Mucussu ás alturas do Belize


Costa Andrade (Angola)

7.8.10

Não sei de amor senão o amor perdido



Não sei de amor senão o amor perdido
o amor que só se tem de nunca o ter
procuro em cada corpo o nunca tido
e é esse que não pára de doer.
Não sei de amor senão o amor ferido
de tanto te encontrar e te perder.

Não sei de amor senão o não ter tido
teu corpo que não cesso de perder
nem de outro modo sei se tem sentido
este amor que só vive de não ter
o teu corpo que é meu porque perdido
não sei de amor senão esse doer.

Não sei de amor senão esse perder
teu corpo tão sem ti e nunca tido
para sempre só meu de nunca o ter
teu corpo que me dói no corpo ferido
onde não deixou nunca de doer
não sei de amor senão o amor perdido.

Não sei de amor senão o sem sentido
deste amor que não morre por morrer
o teu corpo tão nu nunca despido
o teu corpo tão vivo de o perder
neste amor que só é de não ter sido
não sei de amor senão esse não ter.

Não sei de amor senão o não haver
amor que dure mais que o nunca tido.
Há um corpo que não pára de doer
só esse é que não morre de tão perdido
só esse é sempre meu de nunca o ser
não sei de amor senão o amor ferido.

Não sei de amor senão o tempo ido
em que amor era amor de puro arder
tudo passa mas não o não ter tido
o teu corpo de ser e de não ser
só esse é meu por nunca ter ardido
não sei de amor senão esse perder.

Cintilante na noite um corpo ferido
só nele de o não ter tido eu hei-de arder
não sei de amor senão amor perdido.

Manuel Alegre

6.8.10

O Douro



É a vida do Douro que canta...

São retalhos trabalhados
Pela mão de Deus que eu quiser
No corpo soado em cada homem,
Na alma libertada de cada mulher...
São os verdes e os castanhos,
Cepas erguidas do chão.
São brancas ou ôcre,
Casas da doce criação
Abrigos d'amor e de esperança,
Telhados caiados de emoção.

É a vida do Douro do canta...
Entrelaçados na dor,
Das cinzas mortas na dor,
São bordados...
De uma manta,
A cobrir corpos de Xisto
De erotismo desnudado
Deitada sobre o altar prateado,
A exalar-nos a calma,
A respirar-nos os sonho,
A consumirmos a alma...

É a vida do Douro que canta

É o meu corpo que se levanta,
É o meu coração que implora
É a alegria do meu peito que chora
Adormecido na terra santa
É vida do Douro que canta...


José Braga Amaral

Perdidos



Às vezes, sem ninguém perceber,
sentimo-nos tão sós,
tão ilha abandonada
e isolada no meio do oceano,
tão náufragos perdidos
na imensidão do azul,
tão incapazes de estímulo ou reacção,
tão carentes de mimo e carinho,
tão fartos de ser fortaleza,
de ser para os outros a tábua de salvação,
esquecidos de nós próprios
e do nosso verdadeiro caminho...
Tão nada no meio da multidão,
de tanta coisa que nos sufoca,
de tanta confusão,
de tanta dor e tristeza.
Tudo à nossa volta
nos aperta e estrangula.
Asfixiamos só de respirar.
Gritamos desesperadamente
por socorro a Deus e ao Universo,
por uma gota de água doce
que nos mitigue do sal que nos rodeia.
Até as lágrimas já secas
não consolam, nem saciam.
Cansados de barreiras,
enviamos sinais de fumo,
desfraldamos os lenços brancos
da paz e do perdão,
agitamos as bandeiras
da concórdia e serenidade,
mas o Universo não nos ouve,
nem nos responde,
demasiado ocupado
com outras ilhas precisadas igualmente
do seu apoio e atenção.
Então acenamos as folhas gigantes das palmeiras
do adeus e da despedida
e afundamos lenta e dolorosamente...
Emudecemos...
Silenciamos...
E fechamos as janelas da alma.
Sofremos, solitária e cruelmente...
E a voz de Deus, a voz do Universo
surge, agora já tardia,
rompendo a escuridão
e não nos consegue salvar.
Exaustos, dando fim ao bulício,
mergulhamos no precipício das águas,
engolidos pela ferocidade do mar.


Isabel Branco

Onomatopeia

Little Boy with a Jar on a Trail in the Woods Photographic Print

Menino franzino,
quase pequenino,
pequenino, triste,
neste mundo só...

Menino, desiste
de que tenham dó!

Desiste, menino,
que o mundo é cretino...
Deixa o teu violino,
toca o sol-e-dó.

Cada teu suspiro
cai ao chão no pó...
Canta o tiro-liro
tiro-liro-ló.

Deixa o teu violino,
que não te é destino.
Desiste, menino,
de que tenham dó!

Menino franzino,
triste e pequenino,
pequenino, triste,
neste mundo só...

Menino desiste!
Toca o sol-e-dó.
Canta o tiro-liro, repipiro-piro,
canta o repipiro, tiro-liro-ló.


José Régio

5.8.10

Eterna Dor


Já te esqueceram todos neste mundo. . .
Só eu, meu doce amor, só eu me lembro,
Daquela escura noite de setembro
Em que da cova te deixei no fundo.

Desde esse dia um látego iracundo
Açoitando-me está, membro por membro.
Por isso que de ti não me deslembro,
Nem com outra te meço ou te confundo.

Quando, entre os brancos mausoléus, perdido,
Vou chorar minha acerba desventura,
Eu tenho a sensação de haver morrido!

E até, meu doce amor, se me afigura,
Ao beijar o teu túmulo esquecido,
Que beijo a minha própria sepultura!

Artur Azevedo
Brasil

Vida e morte das palavras

Ladybird Art Print

São vivas quando
o coração do vento amadurece
e a voz vem de repente
e não se esquece
de estremecer as trevas
ou de roer as malhas
da rotina
ou de dar lenha e fogo
(matéria inesperada
e sibilina)
a um barco que arrefece.

São mortas quando
a morte nelas cresce
– com os seus cabelos ralos,
suas ramagens crespas, desgastadas,
seus ossos cabisbaixos
rolados sobre o nada.
São mortas se não queimam
a limalha sobrante – esse pó
de cães exaustos, de dias
fatigantes –
e em podridão se instalam.

João Rui de Sousa

3.8.10

Ausência


Meu amor, como eu sofro este tormento
da tua ausência!... Ando magoada
como a folha arrancada pelo vento
ao carinhoso anseio da ramada...

Procuro desviar o pensamento...
mas oiço ao longe a tua voz molhada
em lágrimas, vibrando o sofrimento
da nossa vida asim, tão separada!

Os meus beijos escutam os teus beijos
exigentes - perdidos de saudade...
crispando amargamente os meus desejos!

E dia a dia essa canção de dor,
ritornelo sombrio de ansiedade,
exalta ainda mais o meu amor!


Judith Teixeira

Nocturno de verão


Havia o verão, o medo de um círculo
fechando-se em torno de nós.
Cada sentimento era somente
a pobre descrição de uma
imagem. Descia a luz sobre nós,
e em nós se repetia o rumor das cicadas,
o milagre das casas muradas
a toda a possibilidade delinquente.
"Não persigas o limite", disse-te.
"Qual o lado interior da fronteira,
este em que segues, ou o que nos
espera do outro lado? Do interior
virá o erro e o precipício: portões
electrificados e, sem que dês conta,
cães farejando a má-sorte de incautos."
Havia o verão e as cicadas e o perigo
de nos perdermos numa cidade hostil.


Luís Quintais

Anjo



Não o pombo futurista mas a sombra
no ângulo vazio a folha de hera
e as orquídeas brancas na garganta
a vertigem do grito o labirinto a lâmina

as aves que evoluem não regressam
devoraram o espaço onde existiam
assinalam agora outras galáxias
cicatrizes rosáceas

a asa é o recanto da memória
o vértice onde o corpo não pesou
agora só gorjeio a harpa morna
musgo nos olhos o anjo de granito


ANJO II

A ascensão da noite é a memória
o recanto da pomba partilhado
a asa de outra ânfora o regaço
onde os labirintos que te acordam
repousam sob o lago

o horizonte ausente não abriga
a dissonância viva de um limite
o espelho cego aguarda não existe
o nó que te sufoca e reanima
o regresso do rosto à superfície.


Teresa Balté

2.8.10

Este é um recado de amor



Este é um recado de amor, do possivel esquecimento.
Agora os olhos não crêem mais na certeza de chegarem
ao fim, ao mar esfumado dos bordos da ilha,
o imperecível canto da alma.
Como o estrangeiro viajando do rochedo a ondulação das marés,
sabendo chegado na espuma o fim da procura,
eis chegado o momento recostar as mãos
e situar o túmulo.


Rui Cóias

Canto de Regresso à Pátria


Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.

Oswald de Andrade
Brasil

Dá-me as Tuas Mãos



As mãos foram feitas
para trazer o futuro,
encurtar a tristeza, encher
o que fica das mãos
de ontem - intervalos
(duros, fiéis) das palavras,
vocação urgente
da ternura, pensamento
entreaberto até
aos dedos longos
pelas coisas fora
pelos anos dentro.

Vítor Matos e Sá
Moçambique

1.8.10

Em vez de lágrimas



Só um choro em seco
põe no vértice da minha dor
o mais intenso
auge do luto.

Noémia de Sousa

Nas curvas do vento me enlaço



Nas curvas do vento me enlaço
no segredo das ondas me entrelaço
na tormentosa esperança de ouvir
o silêncio das algas
e o mistério da falésia.
Todos os dias me abraço
à loucura deste sonho
e deste laço
que me aperta o coração
na luz macia de Setembro.

Dentro de mim não há ninguém
à beira do rio que me percorre.
Sou poeta dos desejos e das fraquezas
sou lume e enxofre das palavras
que vou parindo
em poemas que ninguém lê.
Sou a exacta distância entre Deus
e as vozes perdidas
o sacrário das mentes que se eclipsam
e dos rios que se suicidam no mar.

Junto ao rio dos teus olhos
há sempre um poema
que tem o sabor da amora
o perfume das palavras sem uso
o som de um violino que chora.

Entre as algas molhadas
E o azul de um abraço
Nasce sempre um poema
No mar do teu regaço.

Sou aquele que ontem dormia
sobre um poema azul
e das asas da ilusão
se desprendia.
Sou aquele que ontem se despia
nos braços do azul poema
que vivia.
Sou aquele que ontem habitava
em silêncio
a canção da harmonia
do poema azul
que acontecia.
Sou aquele que ontem sonhou
em vão
com o poema azul de mais um dia.


Adão Cruz

Tua frieza



Tua frieza aumenta o meu desejo:
Fecho os meus olhos para te esquecer,
Mas quanto mais procuro não te ver,
Quanto mais fecho os olhos mais te vejo.

Humildemente, atrás de ti rastejo,
Humildemente, sem te convencer,
Antes sentindo para mim crescer
Dos teus desdéns o frígido cortejo.

Sei que jamais hei-de possuir-te, sei
Que outro, feliz, ditoso como um rei,
Enlaçará teu virgem corpo em flor.

Meu coração no entanto não se cansa,
Amam metade os que amam com esp'rança,
Amar sem esp'rança é o verdadeiro amor.


Eugénio de Castro

Poema da Coca-Cola


“Eu não quero coca-cola!”
- Cantei, velho, na Bahia. -
E agora já quero cola,
Mais velho, que me sentia…

Co o tempo o bom senso rola.
Que alto mistério do gosto
Me coca, cocando a cola,
Tão velho, às portas de Agosto?

Será que cola sem coca
Ao velhote amarga menos?
Ou sou alérgico à coca
Como David o é aos fenos?

Em todo o caso, é suspeito
(Digo-o sem graça nem ódio):
Não tem juízo nem jeito
Este meu câmbio serôdio.

Bem dizia Moura a Ortega,
Ambos já em cinza ou “cenra”
(Filtra o velho, a ver de pega…);
“A burro velho, erva tenra”.

Vitorino Nemésio