15.12.09

Carícias


Acaricio-te a barriga a suave ondulação
do dorso a fina cintura
onde o barro montanhoso das nádegas
nasce. Beijo-te nos vales mais íntimos
e nos rios - és a mãe carnívora
que vai morrer que se vai derramar
na terra toda.


Casimiro de Brito

14.12.09

Noite de Natal



Na cidade, a Virgem Santa
Batera de porta em porta:
- “Daí-nos abrigo... Sofremos:
Escurece: o frio corta”.

E disse palavras novas:
Mas ninguém soube entendê-las.
Fecham-se as portas, na terra,
Como, na treva, as estrelas.

E lá foi o par bendito,
Buscar asilo entre as furnas
Onde, à aurora, se escondiam
ladrões e feras nocturnas.

Correra nas profecias,
E ali se fez verdadeiro:
Nascer em cama de lobos...
Divino e humano Cordeiro.

- Glória! Hossana! - Eis Jesus cristo
No presépio de Belém.
São José pôs-se a adorá-lo;
Adora-o a Virgem Mãe.

Entram Reis; entram pastores;
Cantam os anjos em roda.
Andam na altura as estrelas
A arrumar a sombra toda.

Cheira a rosas. Doira tudo
Um grande luar suspenso;
Balem ovelhas; seu bafo,
Parece um fumo de incenso.

E, sobre as palhas, deitado,
O Deus Menino, Jesus,
Sorri, - de braços abertos,
Lembrando a forma da Cruz...

Já no berço, - abrindo os braços, -
Lembrava a forma da cruz.


António Correia de Oliveira

Natal



Nem aqui, nem agora. Vã promessa
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:
É dia de Natal. Nada acontece.

José Saramago

Acalanto



Vai amado.
Busca por onde quiseres,
com quem quiseres,
como quiseres,
o prazer.
Até mesmo,
aquele prazer que um dia alguém apelidou de amor.
E, se por acaso te cansares e,
do compromisso que um dia nos uniu te lembrares,
se desejares, volta.
Serei a que conforta.
Não saberás da dor,
da saudade,
das lágrimas sentidas que tua ausência causou.


Ada Ciocci
Brasil

13.12.09

Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite


Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite –
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas
que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos,
e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,
nem das aves negras nos meus braços de mármore,
nem de te ter perdido – não ter medo de nada. Pudesse

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo –
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde
para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi –
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre
o que valeu a pena ( o mais eram os gestos que não cabiam
nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse

eu deixar de escrever esta manhã, o dia treme na linha
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer,
mas ouço-te a respirar no meu poema.


Maria do Rosário Pedreira

A Estrela dos Reis Magos



Alva estrela refulgente,
no Oriente,
acendida de repente,
derrama estranho clarão;
os povos pasmam de vê-la
por tão bela,
Os Magos conhecem nela
a estrela de Balaão.

Mais de mil anos havia,
profecia
cismada de noite e de dia
cumpriu-se enfim; que fulgor!
Nele, ó mundo, não penetras,
não soletras
nos raios ignotas letras,
nas letras ignoto amor!

Os Magos, sim, olham vendo;
viram, crendo,
nessa estrela resplendendo
a boa nova, que têm;
lá partem à luz da estrela,
sem perdê-la,
caminham guiados d’ela...
Eis entram... Jerusalém!


João de Lemos

Blasfémia de Natal



Antes nascesses de um ovo
mas sem assa que se vissem
Antes tivesse de um potro
só a secreta malícia
Antes crescesses no forro
de um telhado todo em cinzas
Antes pregasses num poço
e nunca de lá saísses
Ou fosses bobo de bobos
na corte dos reis mais tristes
Ou suspirasse de rojo
nos rasto das meretrizes
Ou transido como o bolso
de perseguida peliça
te cosesses pouco a pouco
com receio da polícia
Ou entre judeus e mouros
fosses só balas perdidas
Ou na letra dos acordos
nem para vento servisses
Antes nada ou nado-morto
que nado nesta imundície

Mas nem eu tinha o arrojo
de te dizer tudo isto
de achar o mundo tão porco
se não tivesses nascido

David Mourão-Ferreira

Silêncios



Encontramos a praia deserta. Com os olhares fugidios,
ensaiamos alguma conversa de mistérios abertos
na seriedade do momento musicado pelas ondas do mar
e pelos gritos das gaivotas tristes, mas brancas.
O silêncio está sempre ocupado, mesmo quando não há palavras;
portanto, as reticências podem prolongar-se em suspiro longo,
os pontos finais deitar-se ao abandono do ar fresco.
A manhã parece cheia de vazios repletos de sensações
e as palavras vão ganhando agilidade, ritmo, alguma emoção,
enquanto os silêncios de mar calam brisas ainda húmidas.
As gaivotas alinham-se agora, sentadas na areia molhada,
enquanto batem os corações que as olham, descompassados.
Sentimos o ar tão quente, que queremos ter asas também,
voar contra o vento de penas leves em desalinho.
Enterramos longe as pesadas penas de ontem.
Ainda há pouco o tempo parou em todos os relógios.
E nós deixámos.


Isabel Solano

12.12.09

A máscara



Parei
Espreitei
Entrei
Comprei

Saí
Subi
Abri
Sorri

Peguei
Coloquei
Atei
Ajeitei

Desci
Apareci
Rugi
E ri

Um leão
Que aflição!

Mas não...
É o João!


Maria Cândida Mendonça

Natal Timor



Meu Natal Timor
Meu primeiro Natal!

Quantos anos tinha?
Nunca o soube ao certo!

Minha mãe-menina
Fez o seu presépio.
Uma encosta arrancada a Ramelau
Com uma gruta ausente
cheia de maromak
E perfume de coco.
Um búfalo e um kuda
E o bafo quente dos seus pulmões.
E o menino sobre a palha de arroz
E folhas de cafeeiro.

Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Inan, quem é?
- É o Maromak filho e teu irmão!

E eu recuei, porque via no berço
Um menino rosado
Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Ele é mais do que todos teu irmão...
- Mas, como pode ser um meu irmão?
-É teu irmão: Firma-lhe bem os olhos,
meu Amor!
E eu obedecendo
Firmei-me todo n’ele
E vejo-o desde então
Também da minha cor.


Fernando Sylvan (poeta timorense)


Maromak = Deus
Kuda = cavalo
Inan = Mãe

Receita para uma infracção



Toma nas mãos uma manga
desses que verdes o Knopfli sente
na infância do palato
Tens cinquenta anos
dois rins em greve até à morte
e um que pertenceu a alguém que desconheces
e por morto não soube a quem doou
a faculdade de mijar ainda
...

Tomas uma verde manga como um rio
uma simples manga de Novembro
de ti para ti transplantada
nos dezembros da vida


Leite de Vasconcelos
Moçambique

11.12.09

As novas leis



Atrás de qualquer porta
está sempre o mar alto que me espreita
Ou então a capa em que o vento abate
a dúvida ou a suspeita

Linhas rectas seguem cidades
quebrando fazendo nós
quando um homem lança mão num estrado
de abelhas completamente sós

Criaram-se novas leis
novos modelos de calçado
Fotografias com cores
décors do patriarcado

Mas as facas de cortar fruta
que correm a praia de extremo a extremo
dançam em pontas sobre o pequeno
E as mães que já não sabem
fazer as suas contas
deitam-se ao mar pelo que vêem
e julgam-no sereno

Saem dos astros pés das ondas mãos
a taparem os rostos os medos
As fardas que andam nuas
sobram armas lugares amenos

O mundo não previa tanto
e esgotou-se a lotação
Vão pelos canos correndo pardais cegos
como convém à perseguição

Criaram-se novas leis
há pânico pelas nossas varandas
nascem entretanto árvores nuas
tantas
Mas os dentes ainda são de pedra
apesar da nova lei que os não respeita
Embora a máquina de fazer peças para novas peças
seja o mar alto que atrás da porta me espreita.


Fernando Lemos

Natal



Turvou-se de penumbra o dia cedo;
Nem o Sol espertou no meu beiral!
Que longas horas de Jesus! Natal...
E o cepo a arder nas cinzas do brasedo...

E o lar da casa, os corações aos dobres,
É um painel a fogo em seu costume!
Que lindos versos bíblicos, ao lume,
P’lo doce Príncipe cristão dos pobres!

Fulvas figuras p’ra esculpir em barro:
À luz da lenha, em rubro tom bizarro,
Sou em Presépio com meus pais e irmãos.

E junto às brasas, os meus olhos postos
Nesta evangélica expressão de rostos,
Ergo em graças a Deus as minhas mãos.


Afonso Duarte

10.12.09

Ilha


Em ti me projecto
para decifrar do sonho
Em ti me firmo
para rasgar sobre o pranto
o grito da imanência.

Conceição Lima (poetisa sãotomense)

Natal



Sobre a palha loura
dorme, a rir, Jesus:
tudo a rir se doura
de inocente luz

Há no olhar etéreo
do boizinho bento
sonhos de mistério
num deslumbramento...

Chegam pegureiros:
Chegam-se ao redor,
tal e qual cordeiros
para o seu pastor.

Anhos que vêm vindo
põem-se a meditar:
que zagal tão lindo
para nos guiar!

Ajoelham magos,
êxtase profundo!...
Com os olhos vagos
no senhor do mundo...

E a banhada em pranto
mãe se trasnfigura,
por divino encanto,
numa virgem pura.


Guerra Junqueiro

Já lentamente sofro a tua água, o sopro


Já lentamente sofro a tua água, o sopro
da memória nas colinas.
deste-me um corpo, a casa
onde acordar o vento, e a terra, e a paz
desconhecida.
nesta cave de pele te implorei os dias
o óleo da manhã nas mãos desertas.
a cada instante me devora o gume
embotado da tua
luz sonora.

afasta do meu rosto a tua vã promessa. deixa
que seja brando o sono sem lembrança,
um chão de terra nua.
do teu jardim de chamas me despeço.

António Franco Alexandre, Visitação

9.12.09

Um amor como este



Um amor como este
não pede mar ou praia:
somente o vento leste
erguendo a tua saia.
O resto é o futuro
além, à nossa espreita:
doce fruto maduro
na hora da colheita.

Daniel Filipe (poeta caboverdiano)


O mirangolo



Testículo adolescente
purpurino
corta os lábios ávidos
com sabor ácido
da vida
encandesce de maduro
e cai

submetido às trezentas e oitenta e duas
feitiçarias do fogo
transforma-se em geleia real:

ilumina a gente.


Ana Paula Tavares (Angola)

Presépio



Nuzinho sobre as palhas,
nuzinho - e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino te pintaram!

O calor do seu corpo,
pra que o quer tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
(Tão injustos contigo,
Senhora!)

Só a vaca e a mula
com seu bafo te aquecem.

- Quem as pôs na pintura?


Sebastião da Gama

8.12.09

Ofertas ao Menino

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Minha pobreza tal é
que não trago presente grande.
Trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues.

Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor.
Trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor.
Cobrindo-se assim de letras vai um dia ser doutor.

Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro.
Trago aqui água de Olinda,
água da bica do Amparo.

Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago.
Trago este canário da terra
que canta corrido e de estalo.


João Cabral de Melo Neto (poeta brasileiro)

7.12.09

Flor de Ventura



A flor de ventura
Que amor me entregou,
Tão bela e tão pura
Jamais a criou:

Não brota na selva
De inculto vigor,
Não cresce entre a relva
De virgem frescor;

Jardins de cultura
Não pode habitar
A flor de ventura
Que amor me quis dar.

Semente é divina
Que veio dos Céus;
Só n’alma germina
Ao sopro de Deus.

Tão alva e mimosa
Não há outra flor;
Uns longes de rosa
Lhe avivam a cor;

E o aroma... Ai!, delírio
Suave e sem fim!
É a rosa, é o lírio,
É o nardo, o jasmim;

É um filtro que apura,
Que exalta o viver,
E em doce tortura
Faz de ânsias morrer.

Ai!, morrer... que sorte
Bendita de amor!
Que me leve a morte
Beijando-te, flor.

Almeida Garrett

Ai, Helena!


Ai, Helena!, de amante e de esposo
Já o nome te faz suspirar,
Já tua alma singela pressente
Esse fogo de amor delicioso
Que primeiro nos faz palpitar! ...
Oh!, não vás, donzelinha inocente,
Não te vás a esse engano entregar:
E amor que te ilude e te mente,
É amor que te há-de matar!
Quando o Sol nestes montes desertos
Deixa a luz derradeira apagar,
Com as trevas da noite que espanta
Vêm os anjos do Inferno encobertos
A sua vítima incauta afagar.
Doce é a voz que adormece e quebranta,
Mas a mão do traidor ...faz gelar.
Treme, foge do amor que te encanta,
É amor que te há-de matar.

Almeida Garrett

Ao Menino Jesus

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Fiz a maldade e olhei Jesus.
Ele baixou os olhos e corou,
e toda a gente julgou
que quem fez a maldade foi Jesus.

E todos lhe perdoaram.

- Obrigado, Menino! Mas agora
tira os olhos do baile e vem brincar,
que eu prometo, p’ra naõ te ver corar,
já não fazer das minhas.
Anda jogar, ao pé das flores, no chão,
comigo, às cinco pedrinhas...
anda jogar, p’ra não esqueceres
o preço do meu perdão.


Sebastião da Gama

6.12.09

Recado para a amiga distante




Dorme Menino dorme
teu sonho quieto lúdico
enquanto longe estoura
a bomba no atol

Que outra coisa Menino
poderemos fazer
ante o inominado
desconhecido crime
que de entre as chamas nasce
no silêncio da noite?

Que palavra inventada
que rubro gládio pode
definir o temor
do começo do mundo?

Que estranho abjecto ritmo
em cogumelo alastra
sobre o teu sono puro
Menino sobre a esperança?


(Um tigre humano vem a cada esquina oculto no rumor
da manhã saciar-se de sangue)

Daniel Filipe (poeta caboverdiano)

Nações do mundo




Vi as nações do mundo reunidas
Apreendi a não me envergonhar da minha
Vi as pessoas trocarem de identidade
Apreendi a conservar a minha
Ouvi gritos de liberdade
Apreendi a lutar pela minha
Vi pessoas com vergonha de ser guineenses
Apreendi a apresentar-me como guineense
Por que ter vergonha de ser guineense?
Se guineense sou
Por que ter vergonha de ser negro?
Se negro sou
Por que ter vergonha da minha identidade?
Por que ter vergonha da minha identidade?
Até quando..
Até quando..
Até quando..


Alberto Oliveira Lopes (Guiné)