
Na cidade, a Virgem Santa
Batera de porta em porta:
- “Daí-nos abrigo... Sofremos:
Escurece: o frio corta”.
E disse palavras novas:
Mas ninguém soube entendê-las.
Fecham-se as portas, na terra,
Como, na treva, as estrelas.
E lá foi o par bendito,
Buscar asilo entre as furnas
Onde, à aurora, se escondiam
ladrões e feras nocturnas.
Correra nas profecias,
E ali se fez verdadeiro:
Nascer em cama de lobos...
Divino e humano Cordeiro.
- Glória! Hossana! - Eis Jesus cristo
No presépio de Belém.
São José pôs-se a adorá-lo;
Adora-o a Virgem Mãe.
Entram Reis; entram pastores;
Cantam os anjos em roda.
Andam na altura as estrelas
A arrumar a sombra toda.
Cheira a rosas. Doira tudo
Um grande luar suspenso;
Balem ovelhas; seu bafo,
Parece um fumo de incenso.
E, sobre as palhas, deitado,
O Deus Menino, Jesus,
Sorri, - de braços abertos,
Lembrando a forma da Cruz...
Já no berço, - abrindo os braços, -
Lembrava a forma da cruz.
António Correia de Oliveira