9.6.10

Assim clamava esgotado

Hand Holding a Flower Photographic Print

Não direi nada

nunca fiz nada contra a vossa pátria
mas vós apunhalastes a nossa
nunca conspirei nunca falei com amigos
nem com as estrelas nem com os deuses
nunca sonhei

durmo como pedra lançada ao poço
e sou estúpido como as carnificinas vingativas
nunca pensei estou inocente

não direi nada
não sei nada
mesmo que me espanquem
não direi nada
mesmo que me ofereçam riquezas
não diréi nada
mesmo que a palmatória me esborrache os dedos
não direi nada
mesmo que me ofereçam a liberdade
não direi nada
mesmo que me apertem a mão
não direi nada
mesmo que me ameacem de morte

Ah!
a morte

Morreu alguém no meu lar
No meu lar havia uma filhinha
estrela brilhante no céu da minha pobreza
ela morreu

Vejo a grinalda branca da sua inocência
arrastada nas águas sobre o seu corpo
Ofélia negra neste rio podre da escravatura.


Agostinho Neto (Angola)

A multidão das sombras



A multidão das sombras
As hostes das visões
Computadores cruéis
Mais os homens robots
Instalaram nos lares
Ouvidos espiões.
Em corações de corda
Em frios corações
Deitaram a paixão.
- Trituram as paixões.
Mas o massacre aguarda
As ordens implacáveis.

Natércia Freire


Ao sair da infância



Não detivemos a pedra: um pássaro ferido;
não calamos o medo: um rasgão na pele;
não restituímos à luz a serenidade.

É certo que respirávamos,
abríamos as mãos,
esperávamos a noite diante de um livro muito sublinhado.

Até que alguém interrompendo o silêncio
abria a porta do quarto
e dizia: «Já que não sabes rezar
bebe ao menos um copo de leite
antes de te dares ao sono.»


Jorge Gomes Miranda

8.6.10

Sabemos que o tempo passou


Sabemos que o tempo passou
Que alguma coisa deveria ter sido dita
(talvez depois, talvez mais tarde)
Deixamos atrás de nós
Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis
E, feridos,
Por todas as coisas
que poderíamos ter evitado a nós próprios
Caminhamos para o silêncio
E para a escuridão indefinível dos bosques.


Luís Falcão

Meditando



- engoli dum espinheiro um grande raminho -

&

da tese concebida ao prefácio por escrever
teço toc toc enquanto toco levemente o provir
d'outra gestão
daí a cor do sangue escasso caro irmão protestante
que tão bem partes os passeios que passeio
assim que passo passo a passo me ditando!

Lopito Feijoó
Angola

7.6.10

Poesias



Quando eu morrer
não me dêem rosas
mas ventos.

Quero as ânsias do mar
quero beber a espuma branca
duma onda a quebrar e vogar.

Ah, a rosa dos ventos
a correrem na ponta dos meus dedos
a correrem, a correrem sem parar.
Onda sobre onda infinita como o mar
como o mar inquieto
num jeito
de nunca mais parar.

Por isso eu quero o mar.
Morrer, ficar quieto,
não.
Oh, sentir sempre no peito
o tumulto do mundo
da vida e de mim.

E eu e o mundo.
E a vida. Oh mar,
o meu coração
fica para ti.
Para ter a ilusão
de nunca mais parar.

Alexandre Dáskalos
Angola

6.6.10

Cinco reis de gente



Vai sempre na frente
dos outros que vão
cedo para a escola;
corpinho delgado,
o olhar mariola,
- belos os cabelos,
quantos caracóis!
mas as mangas rotas
nos dois cotovelos
são de andar no chão
atrás dos novelos!
Nos olhos dois sóis
que alumiam tudo!
A mãe tecedeira,
perdeu o marido
mas vive encantada
para o seu miúdo.


António Botto

5.6.10

A gravação do rosto

Memories of Serengeti Art Print

Na superfície branca do deserto
na atmosfera ocre das distâncias
no verde breve da chuva de Novembro
deixei gravado meu rosto
minha mão
minha vontade e meu esperma;
prendi aos montes os gestos da entrega
cumpri as trajectórias do encontro
gravei nas águas a fúria da conquista
da devolução do amor.

Os calcários e os granitos desta terra
foram por mim pesados.
Dei-lhes afagos
leves olhares
insónias longas
impacientes esperas.

O zinco dos telhados cobriu-me solidões
e esperanças que tu sabes.

Esperei por ti
Bordei-te flores nos canteiros do céu
abri-te valas, semeei-te milhos
pari colheitas de searas vãs
abri os dedos, semeei calhaus.

Espremi a terra e fiz-lhe água nascente
povoei prados de criaturas doces
ergui torres, girassóis gigantes
dei vida e morte, vi nascer, morrer.

Aqui reinei, julguei, plantei videiras
caminhos, grutas de vestígios
colhi olhares de animais bravios
deixei aos dedos aladas liberdades.

Empilhei madrugadas de atenção
disparei molas, carabinas frias
de traição ao vento.
Combati silêncios, instalei trincheiras
de perdão. Recebi recados de mongólias vastas
acendi fogueiras
para sufocar o medo.

Aqui sonhei europas, verdes ásias
cidades de cristais, antárdidas caiadas
daqui refiz a lua de astronautas;
contei estrelas colhi algumas
para dormir com elas.

Aqui ejaculei delírios verdes
que a madrugada insinua e vence.
Aqui colhi primícias de virgens escandinavas
e coroei outeiros e o meu sexo
com as suas tranças de ouro.

Saltei de monte em monte
e naveguei o ventre do deserto
assinalei o umbigo do mundo e plantei setas
apontando o sexo fundo da terra.
Beijei a carne universal e húmida de uma fêmea em cio,
menstruada.

Aqui me dei, aqui me fiz
desfiz, refiz amores.
Aqui me embebedei e vomitei o espanto.

Daqui abalo hoje, parido para o nada
apalpo a água
afago um bicho
ordeno qualquer coisa
e vou.

Ruy Duarte de Carvalho (Angola)

De antes que expirassem os moribundos


As balas doem companheiros

Não a dor física
Do chumbo percutido
Que o ódio calibrou
No almofadado sossego
Dum gabinete qualquer
Não
Não a presença agónica
Dessa infalível certeza
Que irredutível se insinua

Nas fracções de segundo
Que os séculos devoram

As balas doem sim
O tempo que nos faltou
Para salvar os companheiros
Nossos velhos companheiros
De novas humilhações
Novas rotas de cacau
Cacau oiro e marfim

Novos escravos a leiloar
Nos areópagos da hipocrisia
Novos deuses crucificados
Na subversão das micaias
Que a nossa África abortou

Oh as balas doem sim irmãos

As balas doem


Rui Nogar
Moçambique

4.6.10

Assim

Bleu a l'Ame Art Print

Assim por muito mais e muito menos
Assim por heroísmo e cobardia.
Assim a tarde a noite no momento,
Assim pensar em mim quando vivias.

Assim os dedos longos nos cabelos
Dos mortos abraçados e cativos.
Assim esta miséria de estar viva
E não saber estar viva quando vivo.

Assim nas brancas árvores o tempo
Assim ter acabado o meu destino
E ler-me noutros versos,noutros nomes,
Assim desconhecer onde habito.

Assim por muito mais e muito menos
Se acaba,em vida,a vida ao suicida.

Assim por ser a hora mais cinzenta,
O desamparo assim da minha vida.

Natércia Freire

Ladainha


Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.

Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-
corporal?

Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.

Ó máquina, orai por nós.

Cassiano Ricardo (Brasil)

3.6.10

Confirmações




Um corvo de remota idade e fatigado brilho
vem morrer à beira-mar.

Aguarda atento
que a luz propícia desça no horizonte
para entregar-lhe a força derradeira
numa surtida de acerada angústia.

Descaem-lhe do dorso opaco e magro
as digitais membranas:
acumulam detritos de excremento branco.

Sobe-lhe à tona o olhar antes profundo
a vomitar o fluido da ansiedade.

Projecta-se disperso à contra-luz.
Reduz-lhe o contorno ardendo ao sol poente.
Entra no sonho às cegas ganha altura
e tomba leve e negro no areal fictício.

Breves segundos mais
para que o vento alcance a história curta.

Depois renasce em escamas de carvão.


Ruy Duarte de Carvalho
Angola

Percorro com os dedos o teclado


Percorro com os dedos o teclado
e acaricio nele a tua pele
que imagino morena e macia.

Envolvo com o olhar o monitor aceso
e procuro aí os teus olhos
que suponho escuros e ardentes.

Passeio com o rato no tapete
e sinto os teus lábios no meu corpo,
vagarosamente deslizando
e deixando nele o sabor que imagino em ti.


Maria Carlos Loureiro

Nós Somos



Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos

Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.


António Ramos Rosa

Mete-a-fora



Mete-a-fora
Mete-a-fora
Verso feito.


O a do martelo
Ficou fora
O a da história
Ficou fora
O a da vida
Ficou fora

Eis o verso
Do poeta da escrivaninha


Tacalhe (Cabo Verde)

2.6.10

Poema dos olhos da amada



Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

Vinicius de Moraes (Brasil)



Conselho aos crentes

Magnolia Stretched Canvas Print

Não queirais entrar na dor que se constrói
de verso a verso, de sílaba a sílaba,
num fogo que se expande e adere à boca,
às páginas, às estrofes e às palavras,
queimando todo o corpo e a alma desavinda
ou aspergindo a voz da maldição
(a nossa e a do mundo)
na trémula incerteza de si mesma.

Adoradores de fé qualquer (terrena
ou transcendente) que tudo abarque
e salve e concilie:
não quebreis o encanto com tais nuvens
ou torturas de ardor e entendimento;
não procureis a lápide das dúvidas
colhidas em estações de desalento;
não vos afasteis do vosso rumo
de confiante e pendular porfia.

Não vos deixeis – ó crentes, cujo rosto
tem a candura de um áureo chamamento –
cair na tentação da poesia!

João Rui de Sousa

Eu comedor de catedrais e mitos



eu comedor de catedrais e mitos
atravesso o deserto
com medos e verdades
sentinelas de carne a vigiar o dia

é a hora exacta
de apareceres no meu quadrante
influência súbita permanência e dia:
tu a fera o muro
o pássaro de plumas

serpente que se alimenta de mim
surges e devoras este corpo de fogo
reminiscência frágil de veneno e crime
ou fénix apenas renascida

em qualquer caso surges
exterminas ainda
a eventual sobriedade que denuncio

fidelidade não

não era permitido ver o sol
porque chovia

Lourenço de Carvalho
Moçambique


(A) Mar(te)




Estou tua
pelo sol
ardendo-me
as montanhas descobertas
Agua dentro
Agua azul
neste ponto de luz
Ardendo em rio
chamado amor


Tânia Tomé

Junho


Viver com os outros
Ouvir a voz dos outros
Sentir o calor dos outros
Há beleza em tudo
desde que haja vida
mesmo sumida
num disfrace de entrudo
E, em nós tanto calor
A fresca noite entrou
É Junho, amor!

Saúl Dias

Anti-Lirismo Inútil


Não alfabetizes as palavras.
Lê-as uma por uma, meu amor,
e solda o sentimento ao que elas
juntas e despidas te dizem.

Lindo o verso
faz-se do alfabeto momentâneo
que desejamos liricamente
folheando o livro dos sinónimos.

Mas o poema
esse organiza ou ressuscita
visceral consoante a humildade
com que somos mexoeira do fértil chão
o legível som exterior do xitende
o plasma longínquo dos tambores
ou a espancada
consciência do homem vivo.

José Craveirinha
Moçambique

1.6.10

A casa


A pedra, o pau, o barro,
Os alicerces
Da casa prometida
Sabida
Como certa.

A pedra dura
Madeira que se dobra
O barro que se molda
Coragem que perfura
A timidez que sobra
Paciência que se amolda.

Um bocado de sonho em cada mão,
Um resto de azul
No resto da manhã,
E amanhã,
De manhã cedo,
Sem medo,
A casa que te ofereço
Cercada de amizade.

Aires de Almeida Santos (Angola)

Inventário


De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça da camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.

José Saramago

Donde terá saído?



Donde terá saído
donde terá saído
mas donde vieste
ventania de S. Bartolomeu
que me separou
dos meus

Odete Costa Semedo
Guiné-Bissau

Criança


Qual luz do sol
que brilha pela manhã
es tu inocente ser
que apenas queres brincar

Não sabes odiar, não sabes desprezar
só queres criancinha, amigo arranjar
na tua inocencia, na tua espontaneidade
dizes o que ouves, p'ra um bom amigo cativar.

Tens Mãe, tens Pai
mas pertences a todos
tal como aquelas
sem Mãe e sem Pai

Flor de um jardim
que a todos encanta
embora seja só
o jardineiro a regá-la.


Francisco Conduto de Pina
Guiné