14.5.09

A identidade



a identidade
ou

o voo esquivo
de pássaros nocturnos
em torno da lua

identidade
é cor
de burro fugindo.


Arlindo Barbeitos (poeta angolano)
A alma é como a lavra




A alma é como a lavra.
Quando as nossas mãos voltam a desfiar
O milho amarelo de ouro?
Que outras mãos que as nossas semeiam
O medo e o silêncio da morte?
Porquê este frio? Porquê tão longa a noite?
Como se faz o mundo? Quando começa o mundo?


Maria Alexandre Dáskalos (poetisa angolana)



Fio


No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.

Tu não vês o jogo perdendo-se
como as palavras de uma canção.

Passas longe, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão...

— para que serve o fio trémulo
em que rola o meu coração?

Cecília Meireles (poetisa brasileira)
Botas de Borracha



Dentro das tuas botas de borracha
fizeram teus pés calo e ferida,
mas também desenharam o mapa da tua terra Timor
e sentiram o formigueiro que precede o combate.

Não importa por isso se às vezes quiseste que as botas
tivessem asas, quando o coração disparava
e rezavas alto para que as munições continuassem
a assobiar-te aos ouvidos
em vez de te perfurarem o corpo magro.

E agora quando descansas oculto no matagal sorris
pensando que um dia irás oferecer as botas
a um museu.


Afonso Busa Metan (poeta timorense)
Infância



as crianças brincam na praia dos seus pensamentos
e banham-se no mar dos seus longos sonhos

a praia e o mar das crianças não têm fronteiras

e por isso todas as praias são iluminadas
e todos os mares têm manchas verdes

mas muitas vezes as crianças crescem
sem voltar à praia e sem voltar ao mar

Fernando Sylvan (poeta timorense)



Sobre as Horas



Ver-te dourava
o corpo da pupila.
A sombra. E as estátuas
por onde ver-te vinha
animal. E parava
redondo na retina.

O grande movimento era-nos sempre
margem de olhar um rio.
Ia-se-nos perdendo
ver algum navio
entrar nas águas de tê-lo
alguma vez ouvido.
Ou, se quiserem, havia o movimento.
E, à volta dele, o rio
estava perto de sermos
lugar. Ponto de frio
de onde os amantes sempre
partiram esquecidos.

Fernando Echevarría (poeta timorense)

13.5.09

Sinfonia




A melodia crepitante das palmeiras
lambidas pelo furor duma queimada

Cor
estertor
angústia

E a música dos homens
lambidos pelo fogo das batalhas inglórias

Sorrisos
dor
angústia

E a luta gloriosa do povo

A música
que a minha alma sente


Agostinho Neto (poeta angolano)

12.5.09

A rua respira


a rua respira de um amarelo minúsculo,
nos dedos a poesia gasta-se.
com algemas nasceu uma rosa corroendo a paisagem,
e é Setembro.
chegaram os sopros pungentes da iluminação.

certamente vestirei um acto inútil,
perderei do sentido a noção.

ouve-me,
ainda que as esferas no meu sangue se esbarrem, o vento
continua a empurrar as aves
que conduzem trenós, e a ternura é veloz.


Maria Gomes
Tríptico


I

"Transforma-se o amador na coisa amada" com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor


Herberto Helder

11.5.09

Contratados




Vinham ao longe
aglutinados
baforada de sussurros no horizonte
ressonâncias fundas de uma força
determinados

Uma força que é pendor de gemidos
de levas passadas
que arrastaram pobres

Vinham ao longe
em conversas vagas
na tarde baixa resumando dobres


Arnaldo Santos (poeta angolano)
Timor



Suave, doce, lânguida ilha
Aberta como flor na distância do mar,
Prolonga um pouco a virginal beleza,
Atende, espera!… minha alma suspensa
Em ti respira - corola do mar.
Verdura incandescente, maravilha
Líquida, ritmo, manancial.
A mim vieram melodias infinitas
Das ondas.
E as árvores exaltaram;
Surgiram montanhas de alegria total.
Meus lábios cantaram silêncios sonoros,
Manhãs de sabor pleno e de prazer eterno;
Minha alma atravessava o espaço imenso
Envolta num sol de lágrimas.
Ah! termo
Sonho de um caminho amado.


Ruy Cinatti (poeta timorense)

10.5.09

O silêncio



O silêncio arredonda-se em domingo,
E, dentro dele, um arrepio alarga
sua prévia suspeita de recinto

Fernando Echevarría (poeta timorense)

6.5.09

Colono

à memória de João Luís do Amaral

Quase perdida a memória das frias águas
escorrendo pelas encostas
bíblico fitavas esta chuva
estes ventos
estas árvores de grandes sombras.

Os caminhos da juventude entre Douro e Minho
a casa velha a quinta dos invernos
— tudo palavras de um livro arrumado na estante
que (para o manter vivo)
de longe em longe passava pelos olhos.

Pão levedado de erros e grandezas
aos dentes da vida te deste inteiro
enquanto a cidade nascia sob os teus pés
crescia
e as raízes da rotina milímetro por milímetro
se iam afundando.

Partiste
sem te despedires
para a licença ilimitada mais definitiva
mas entre Chamanculo e Xipamanine
o chão que pisaste
retém teu nome para sempre.

Fonseca Amaral
Moçambique

5.5.09

Que bem sabe o Amor constante


Até no carro te canto,
Fala a fala, seio a seio,
Espantado de um encanto
Que mais parece receio

De te perder à partida
Pra te ganhar à chegada,
Pois tu és a minha vida
Na ida e volta arriscada.

Vai o Godinho ao volante
Com seu ar de conde antigo
Que bem sabe o amor constante
Que me aparelha contigo.

Poupado na gasolina,
Discreto na confidência,
Navegador à bolina
Dos rumos da nossa ausência.

Leva-me à Embaixada, ao almoço:
Travou, mas não sei que tenho:
Um resto de ardor de moço
Contigo no meu canhenho.

Vitorino Nemésio
Algumas reflexões sobre a Mulher


Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.

Eugénio de Andrade


4.5.09


Deixa passar o meu povo




Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimba chegam até mim
— certos e constantes —
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar...
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Marian cantam para mim
spirituals negros de Harlem.
«Let my people go»
— oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo —,
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul
e não são doces vozes de embalo.
«Let my people go».

Nervosamente,
sento-me à mesa e escrevo...
(Dentro de mim,
deixa passar o meu povo,
«oh let my people go...»)
E já não sou mais que instrumento
do meu sangue em turbilhão
com Marian me ajudando
com sua voz profunda — minha Irmã.

Escrevo...
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue da mesma seiva amada de Moçambique,
e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças,
algodoais, e meu inesquecível companheiro branco,
e Zé — meu irrião — e Saul,
e tu, Amigo de doce olhar azul,
pegando na minha mão e me obrigando a escrever
com o fel que me vem da revolta.
Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho lumírioso do rádio
— «let my people go».
oh let my people go.

E enquanto me vierem de Harlem
vozes de lamentação
e os meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insónia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de Strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Marian gritando comigo:
«Let my people go»
OH DEIXA PASSAR O MEU POVO.

Noémia de Sousa
Imerecimento



Adormeço
na
luz
dos
teus
olhos
vejo
Veneza
que
não
conheço

Ondulo
num
círculo
de
ondas
de
levitação

Confesso:
não
mereço
a
ternura
da
gôndola
acariciando
as
águas
onda
a
onda


Tony Tcheca (poeta guinense)

No farol da Guia



Pedi ao Farol da Guia,
Pra que a nau não naufragasse
Na noite que fôr o dia,
Que fosse luz e a guiasse.

E pedi mais:
Que baloiçasse no ar
Os sinais
Do tufão que vai chegar,
Pra que ao abrigo do cais
A nau achasse lugar.

E o primeiro farol
De aviso à navegação
No mundo onde nasce o Sol,
Não me disse sim nem não.

Mas a âncora ancorada,
Como fanal de bonança,
Entre os muros da esplanada,
Disse, sem me dizer nada:
- Tem esperança!


António Manuel Couto Viana

Súplica



Cá entre nós
isto já não é
mais amor
não considero
que seja amor
a mim me parece
mais clamor
sim, sabe a clamor
bem floreado
e um destino
que se mantém.

Domi Chirongo

3.5.09

Minha Mãe


Minha mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste na horas difíceis

Mas a vida
Matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
Sou aquele por quem se espera

Sou eu minha mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para um fé que alimenta a vida.

Agostinho Neto (poeta angolano)


Noite


Filho,
meu filho,
vem-te deitar.
Já sobre o mar
o sol se deitou.

Mãe,
e a lua
se levantou.
Se tenho mãos
é para mexer,
nunca mais quero
adormecer.

Filho,
meu filho,
vem-te deitar.
Já sobre o mar
o sol se deitou.

Mãe,
e a lua
se levantou.
Se tenho pés
é para correr,
nunca mais quero
adormecer.

Filho,
meu filho,
vem-te deitar.
Já sobre o mar
o sol se deitou.

Mãe,
e a lua
se levantou.
Se tenho olhos
é para ver,
nunca mais quero
adormecer.

Pôs-se a contar
estrelas no céu;
chegou a vinte, adormeceu.

Luisa Ducla Soares

2.5.09

O Primeiro Filho


A virgem de ontem é já hoje Mãe:
O leito azul e branco do noivado
Ei-lo, em bem pouco tempo, transformado
Num berço onde existe mais alguém.

Na rósea alcova atapetada, além,
Uma velhota, ex-noiva do passado,
Beijando o pequenito com cuidado,
Diz: - Bom tempo em que eu fui assim, também.

No entanto a boa Mãe cheia de Graça,
Estende-se no leito, exausta e lassa,
Cercada duma auréola de luz.

E beijando o filhito que adormece,
Olhada assim, de súbito, parece
A Virgem Mãe a acalentar Jesus ...

António Nobre


Alguém


Para alguém sou um lírio entre os abrolhos,
E tenho as formas ideais de Cristo;
Para alguém sou a vida e a luz dos olhos,
E, se na terra existe, é porque existo.

Esse alguém, que prefere ao namorado
Cantar das aves a minha rude voz,
Não és tu, anjo meu idolatrado,
Nem, meus amigos, é nenhum de vós!

Quando alta noite me reclino e deito
Melancólico, triste e fatigado,
Esse alguém abre as asas no meu leito,
E o meu sono desliza perfumado.

Chovam bênçãos de Deus sobre a que chora
Por mim além dos mares! Esse alguém
É de meus dias a esplendente aurora,
És tu, doce velhinha, ó minha mãe!

Gonçalves Crespo


Corpo de delito



AS MÃOS E A ROSA

(Relatório)

Na madrugada pardacenta
entre armações veleiras
no cais dos pescadores
era ainda o horizonte
coalhado de vagalumes

a Polícia Geral
surpreendeu
a existência clandestina
temerária
para mais parecendo apetecida
de duas mãos e uma rosa

Estes objectos
se passam a descrever:

Rosa sem qualificação particular
entre rosa e vermelho
pétalas semi-abertas
como a boca da detida
a quem pertencia uma das mãos em questão
A outra mão sombria
de pêlos lavrada
e veias atravessada
pertencia ao cidadão
por quem naquele instante
a detida era abraçada

As mãos possuíam a rosa
A rosa era possuída
As mãos mutuamente
possuíam as mãos
E cada pessoa
depois na prisão
se declarou possuidor
da mão que possuía a outra mão
que possuía a rosa

E cada um deles
com grande arrogância
se declarou possuidor
da pessoa do outro
no mesmo teor

em que o eram da rosa
através dum fenómeno
a que chamaram amor

Detiveram-se os três objectos
mas não havendo instrumento
para separar as mãos
dos corpos respectivos
prenderam-se os corpos também
e ainda bem
pois possuindo-se
mutuamente segundo a declaração
bem é que fiquem na prisão

pois todas estas posses
− tanta posse tanta posse −
se verificaram à margem
da Teoria da Tributação

Eu José Calcador
da Polícia Geral
de Sua Majestade Solar
El-Rei D. Nabucodonosor


Carlos Wallenstein