20.1.08

Romance do negro que não voltou


1

Um dia
mãe negra começou a inchar
a inchar, a inchar.

Ih!
Sua barriga ficou assim,
grande cuma quê...

Depois
nasceu negro.
E barriga de mãe negra
ficou piquena
outra vez.

Nasceu negro
e barriga de mãe negra
ficou piquena outra vez.

2

Negro quando nasceu
era branco.
Mas depois
ficou negro.


Meu Deus!
Num sei qui lh'aconteceu.

Negro era branco
e ficou negro.

3

Veio seu Padre
lá da Missão.
Deitou água nele
e baptizou.
Antão
negro piqueno
ficar cristão.

Mas ficou sempre
negro cuma quê...

4

Lá no mato
negro brincou,
cresceu.

Lá no mato
negro crescia,
panhando gala-gala,
tingolé
e maçala.

Caçando passarinho,
roubando ovos do ninho
da galinha
da muiér do soba Kutulú.

E negro crescia
cum outro piqueno.
E negro num via
qu'ele era negro,
negro cuma quê...
Mesmo quando tomava
banho no rio,
olhando jacaré
era sempre negro
negro cuma quê...

5

E negro piqueno ficou grande.

Mais nada.


Orlando de Albuquerque


Orlando de Albuquerque Ferreira, nasceu em Lourenço Marques (Maputo) em 1925. Estudou medicina e esteve ligado à Casa dos Estudantes do Império. Organizou em colaboração com Vítor Evaristo a antologia Poesia em Moçambique considerada um marco na historiografia literária do País. Faleceu em 1997.