16.5.10

Gatos

Three Black Cats Art Print

Gatos dos quintais,
gatos dos portões,
gatos dos quartéis,
gatos das pensões.

Vêm da Índia, da Pérsia,
da Nínive, Alexandria.
Vêm do lado da noite,
do oiro e rosa do dia.

Gatos das duquesas,
gatos das meninas,
gatos das viúvas,
gatos das ruínas.

Gatos e gatos e gatos.
Arre, que já estamos fartos!

Eugénio de Andrade

Outra coisa




Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre sombra de pedra e golpe de asa
exaltar-te perder-te desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiras

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato

Mário Cesariny

Castanheiros, irmãos




Ó castanheiros de folhas de ouro,
Carregados de ouriços que são ninhos
Onde as castanhas dormem como noivos!

Troncos abertos,

Casas abertas,
Ao vosso abrigo
Dormem os pobres,
Pegam no sono,
Passam as noites
Quando cai neve!

Peitos vazios,
Escancarados,
Sem nada dentro,
Nem coração!
Dais lume, calor
E dais sustento para a mesa,
E dais o mais que eu não sei!...

Ó castanheiros de folhas de ouro,
Apenas sou vosso irmão
Em que a terra vos criou
E criou-me a mim também;
Em que vós ergueis os braços
Suplicantes para os céus
E eu também levanto os meus...

Ah! Castanheiros, mas eu
Grito e vós ficais calados!
Seremos, por isto só,
Irmãos? Seremos? Não sei:
Vós tendes roupas de rei,
Eu tenho roupas de Job;
Vós só gritais quando o vento
Vos abre a boca e fustiga:
Então ergueis um clamor...
— Não calo nunca no peito
A dor do meu sofrimento
E nunca chego a dize-la,
Nem há ninguém que me diga.

Ó castanheiros de folha de ouro,
Não,
Eu não sou vosso irmão!...


Branquinho da Fonseca

Branca de Neve



A corcunda não me pesa, ossos quebrados foram
asas qual nuvem sem voo. Sou velha, mas as letras cirandam-me
como anões em desígnios florais. Era bela
quando a noite tingia os rostos e a morte não me via.
Se a morte não estava dizia o rito, íntima
da manhã e do pão quente ponderava
o que havia de promessas sobre os móveis
Era bela agora apenas deixo o corpo
abreviar-se e resisto aos livores do sono
A solicitude das raparigas solteiras
e peras cozidas para ajudar à digestão
sobrevivem-me


Andreia C. Faria

15.5.10

Nada que tive era meu

Un Gout de Solitude (Detail) Art Print

Nada que tive era meu.
Perdi estradas,perdi leito.
Na pedra onde me deito
Nada fala de alvos linhos.
Se,com cegos,me aventuro,
A caminhar rente aos muros,
É que meus olhos impuros
Sonham Cristo nos caminhos.

Nada que tive era meu
E o corpo não quero eu.
Podia servir de embalo,
Mas serve de sepultura.

Cemitério de asas finas,
Tange e plange aladas crinas,
Canto de praias sulinas
De infinitas amarguras...

Natércia Freire

13.5.10

Poema da amante




Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

Adalgisa Nery
Brasil

12.5.10

Dá-me a tua mão



Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector
Brasil

A hora íntima

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal...
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

Rio, 1950
Vinicius de Moraes (Brasil)



Invento-me...



Invento-me neste desejo de te abraçar...

Invento-me hera, planta trepadeira,
agarro minhas gavinhas,
minhas expansões, com força,
em tuas estacas, para me poder à terra fixar...

Invento-me abelha, insecto,
Apenas para invadir a tua flor,
Que nasceu de meu desejo,
Para em teu mel, esse néctar,
a minha sede eu poder saciar...

Invento-me leoa perdida de seu cio,
À procura de um trilho, um sinal, rasto teu,
Para que na floresta da vida,
Eu te possa encontrar...

Invento-me vento, nortada, brisa, aragem,
Para de forma empolgada,
Agitar teu rio, ondular teu mar...

Invento-me, nestas todas metamorfoses
de ser eu própria, que trago silenciadas no meu espírito,
E ensaio-me assim, neste ser,
Nestas mil formas adoptadas,
Só porque te encontro ao inventar-me,
Mas porque te invento somente a ti!


Beatriz Barroso

11.5.10

Sementeira


1ª versão, 1955

Cresce a semente
lentamente
debaixo da terra escura.

Cresce a semente
enquanto a vida se curva no chicomo
e o grande sol de Africa
vem amadurecer tudo
com o seu calor enorme de revelação.

Cresce a semente
que a povoação plantou curvada
e a estrada passa ao lado
macadamizada quente e comprida
e a semente germina
lentamente no matope
imperceptível
como um caju em maturação.

E a vida curva as suas milhentas mãos
geme e chora na sina
de plantar nosso suor branco
enquanto a estrada passa ao lado
aberta e poeirenta até Gaza e mais além
camionizada e comprida.

Depois
de tanga e capulana a vida espera
espiando no céu os agoiros que vão
rebentar sobre as campinas de África
a povoação toda junta no eucalipto grande
nos corações a mamba da ansiedade.

Oh! Dia de colheita vai começar
na terra ardente do algodão!

José Craveirinha
Moçambique

Ausente quase


Ausente quase,
passeio
ao ritmo das ruas.

Árvores e estações
os pés me dançam.


Flor Campino

10.5.10

Passanoute



Cacilda espevita o fogo mortiço. Inquietas,
insidiosas, chegam as vozes da noite.
Do fundo da mata vêm mal distintas
crepitações, ruídos, quiçá mesmo gemidos.
Arrasta-se o rumor arrepiante, calafrio

da sombra reverberando noutras sombras.
Negras, esvoaçam asas sem ave, ou
será apenas a noite e só a noite?
Xipocué e shiguêvengo acordam
no cerne das árvores, para agitar

mortos e mortificar vivos. Lumes
sem chama, vozes sem fala assombram
de susto e medos inomináveis
quem arrosta afrontar seu território,
zona interdita, chão demarcado

que poucos ousam pisar e percorrem,
sopro maléfico, a densa escuridão. Vamos,
levanta faúlhas e labaredas, incendeia
de luz a noite cerrada, esconjura
para bem longe essa asa funesta.


Rui Knopfli

Filhos da Miséria


Pedaços de fundo
vagabundo
buscando no lixo
um mundo perdido
fugindo de tudo
sábios esquecidos
nunca arrependidos

Vinde
ó ilustres da miséria
a nossa hora está chegando
recompensa merecida
estamos num canto
fechados
vingando o passado
somos o lixo
por este ou aquele motivo

Levantemo-nos Irmãos!
Derrotemos a Razão
vão-se desviar de nós
vão escutar bem alto a nossa voz
rosto aberto
de encontro aos mascarados
somos flores do Inferno
crescemos num deserto
açoitados pelo vento
noite e dia
enfeitiçados
pela morte desejados
somos cinzas
somos restos
despojos amordaçados
corremos mesmo parados
não fujimos quando somos olhados

Esquecidos pela esperança
vagueamos na escuridão
almas desertas
abraços de solidão
entre as pedras adormecemos
companheiros na ilusão
somos pássaros da noite
artistas com vida de cão

Não temos capas de vergonha
não disfarçamos o medo
sentimos o desespero
não trocamos de lugar
não nos podem dominar
já mortos nos hão-de lembrar
enquanto vivos
vão-nos evitar

Está-nos reservado o fel
sabemos porquê
pagamos o preço da liberdade
fugindo do tempo
não temos idade
amantes sedentos
conquistamos cidades

Brincamos como crianças
num jardim de terceira idade
fingimos ser apenas uma flor no paraíso
vingamo-nos da memória
bolsas vazias perdidas no Infinito

Vestimo-nos no escuro
de amor e desespero
saimos noite adentro
buscando alimento

Joaquim Falé
Moçambique

Ficaram-me as penas

Pieper Art Print

O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.

Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glorias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.

Cassiano Ricardo (Brasil)

Nesta última tarde em que respiro

Autumn Skies I Art Print

Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.


António Franco Alexandre
In Uma fábula

9.5.10

Aforismo



Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.

Estávamos iguais
com duas diferenças:

Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.

Mas aos dois intencionalmente
podiam por-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.

José Craveirinha
Moçambique

O menino de sua mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe

Fernando Pessoa


Esvaziando o cálice existe um tambor.


Esvaziando o cálice existe um tambor.
Esvaziando o amor existe nada.
Esvaziando o tempo existe um vácuo.
Esvaziando o espaço um outro mais fechado.
Esvaziando quem por força se mantém, ficando suspenso sobre o nada, resta a ordem invertida para ser da renúncia um marco na corrente.
- nova alvorada - !
Esvaziando tudo, tirando tudo, não querer mais nada... eis a chegada!


Amélia Vieira

Antídotos



Estacionar o carro é amiúde
o último passo de uma batalha.
Gente há que para fugir ao desespero
liga para as informações. Os lêem
livros velhos, ralham com os filhos, com as mulheres.
Há quem não resista e gaste dinheiro
ou entre numa pastelaria como
quem vai receber a melhor das heranças.
Mas talvez o melhor antídoto da raiva
e da falta de razões ainda sejam essas
vozes neutras e profissionais que cumprem
o salário da mais nobre das tarefas,
as da escuta. Embora sejam de gente
e como tal resvalem e nos deixem sem
outras lágrimas que as dos filmes que
passam na televisão.


Carlos Bessa

8.5.10

Trono


Pus-te num trono, que é o lugar onde
deve estar quem se ama, esse lugar
da alma que, sendo íntimo, não esconde
a aparência de altar
de uma igreja singular.

Mas, como a crença é sempre vacilante
e não se pode ter por adquirida,
hás-de saber que nada nos garante
que eu fique a venerar-te toda a vida.

Torquato da Luz

7.5.10

XII. Modvs


então
as cinzas
resgatarão
os antigos ossos

e estes
herdarão
o seu espírito

já compacto
na identidade
aparente
de invólucro
sem forma alguma

onde reverbera
uma aura
perfurante

como gota d’água
em duna

dócil

qual luz

nocturna


Paulo Teixeira Pinto

Canção do verdadeiro abandono



Podem todos rir de mim,
Podem correr-me à pedrada,
Podem espreitar-me à janela
E ter a porta fechada.

Com palavras de ilusão
Não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
Não tem vislumbres de além.

Não sou irmã das estrelas,
Nem das pombas,nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
De bicho que sofre as pedras
E se desloca de rastos.

Natércia Freire

Fecundou-te




Fecundou-te a vida nos pinhais.
Fecundou-te de seiva e de calor.
Alargou-te o corpo como os areais
onde o mar se espraia sem contorno e cor.

Pôs-te sonho onde havia apenas
silêncio de rosas por abrir,
e um jeito nas mãos morenas
de quem sabe que o fruto há-de surgir.

Brotou água onde tudo era secura.
Paz onde morava a solidão.
E a certeza de que a sepultura
é uma cova onde não cabe a coração.

Eugénio de Andrade


A liturgia dos insanos


1. Por aqui somos de carne e sal,
ou mesmo, de sol nascente,
longe do estéril turbilhão da rua.

2.As palavras que nos revelam,
são de luz pura e de encantamento,
e mais ainda, o delírio incessante
que nos confessa o tépido bafejo da aurora.

Eusébio Sanjane

6.5.10

Ítaca



A salsa, o lúcio não têm pressa
e o fio de azeite aprende a esperar.
Cada dia que passa, não sei como é -
jantamos mais tarde. Precisa uma casa
de ter quem a viva, quem reze por ela,
por isso te espero de roupa no chão,
sem nada vestido debaixo da pele.

Abrimos a água, enxugo-te o rosto
podemos agora deixar de mentir.
Só com o corpo, relógio parado,
deixámos o mundo a rugir no escuro.
Urtiga nenhuma nos vai separar.
Ouvimos o sulco da garra na porta
e rimo-nos baixo. Não sei como é -
cada dia que passa jantamos mais tarde.


José Miguel Silva