6.8.09

Volto à praia



Volto à praia, agora vazia,
e descalça caminho
imprimindo meus passos
na areia escorregadia.
A onda espuma-se branca e fria
molhando, atrevida, meus pés
numa investida mansa
que me arrepia.

De novo, a lembrança
de nossos corpos suados,
abraçados e nus
sob um sol ardente
num coqueiral distante.
Revivo-a na fantasia
da adolescência perdida,
na voz sensual que o mar murmura.

Uma gaivota mia
como um gato assustado
despertando-me da imagem,
como se me trouxesse um recado.
E reparo no contorno
na areia húmida desenhado
E deito-me ali, a teu lado
sentindo o teu abraço por magia.


Isabel Branco

5.8.09

Um poema de Amor.



Amor.
Amor.
Amor,
gostava de dizer
esta palavra até gastá-la ainda mais.
Amor,
gostava de dizer esta palavra até perder
ainda mais o seu sentido.
Amor.
Amor.
Amor, até
ser uma palavra que não significa
nem sequer uma ilusão, uma mentira.
Amor,
amor,
amor, nem sequer uma mentira,
nem sequer um sentimento
vago
e incompreensível.
Amor
amor
amor, até ser nem sequer uma palavra banal,
nem sequer a palavra mais vulgar,
nem sequer uma palavra.
Amoramoramor, até
ao momento em que alguém diz
amor
e ninguém
vira a cabeça para ouvir, alguém
diz amor e ninguém ouve, alguém
diz amor e não disse nada.
Sozinho,
diante da campa.
O amor é a solidão.


José Luís Peixoto

Se Perguntares


Nunca perguntas se algo me fizeste
Quando ao teu lado eu murcho e silencio.
Tu não percebes que estou por um fio
E tão instável quanto o vento leste.

Tu não me vês perdida em meu vazio,
Onde me falta o tanto que já deste,
Onde só vejo o quanto já esqueceste
O amor de outrora, agora tão sombrio.

Tu não percebes quão latente é o grito
Que há nos meus olhos quando os teus eu fito,
Num permanente ensaio de partida.

Se perguntares se algo me fizeste,
Eu te direi: "que nada, amor! só te esqueceste
que no meu sangue ainda corre vida!"


Silvia Schmidt
Brasil

Ética



Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.


Luís Quintais

Reis



está para chegar o inverno
desbotam as cores de estio no teu sorriso
são martinho atravessa a Rua da Palma
e a avó reza a santa bárbara

eu mordo o lábio quando tocam os sinos
no jardim zoológico abrigam-se os leões
passa a última fanfarra à nossa porta
chegou o tempo de jogar ao prego

virá o discurso do patriarca
e o radiador entre os pés e a televisão
o gato dorme ao nosso colo
vamos pôr os músicos sobre o musgo do presépio

depois chegam os Reis (é um dia sempre triste)
e sob a chuva de domingo a alma passeia
envergando o seu fato branco de janeiro


Alexandre Sarrazola

4.8.09

Se eu fosse um padre



Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

Mário Quintana (poeta brasileiro)

3.8.09

26.



assim ficássemos
- selos sobre um álbum, charneira de permeio –
desenhado viagens e países
dentro do nosso corpo.
recebendo e transportando a marca de cada passagem.
entregando em nossa morada o verbo e a saudade do início


Ruy Ventura

2.8.09

Meninos do outono?



Gritam homens do stéreo
Aos quatro passos do vento
Gritam homens do stéreo
Aos quatro tempos da poesia

Gritam puerís
Ainda em primaveras de pombas
ninguém cála seus passos,
Suas rimas e seus encantos
Pelas manhas,
Se espalham as grotas do silêncio
Que drenam ao mar,
Suas emoções ocultas diluidas

Ode ao verão
Aquem se despeja e se limpa o suor
Daqueles homens cheios de torpor!
Gritam homens do stéreo
Aos quatro passos do vento
Gritam homens do stéreo
Aos quatro tempos da poesia

No inverno
Sacodem suas gangas caregadas de orvalho
Embalam suas cangas homens de sóbrio
ninguém escuta seus passos,
Suas rimas e seus encantos
Mas gritam homens do stéreo
não serão estes os meninos do outono?

Noé Filimão Massango
Moçambique

Esta vida



Esta vida
que nos parece tanto,
é feita de infinitas
gotas de acaso,
num dia mar,
no outro espuma.


Maria Sofia Magalhães

Em gotas de ametista e de mamilo



Em gotas de ametista e de mamilo
sorvendo hoje nos favos da romã
escorro vale extenso e, de tranquilo,
o grande olhar de ontem amanhã.

Firme de barco, de terra e de castelo
navegando com o rosto no levante
na paisagem do tempo te congelo
ó múltiplo de ser, ó cada instante!

Com raízes de partida e de chegada
eu bendigo o dia e dou-lhe a mão
abrindo em flor na crua madrugada
para beber o céu e conhecer o chão.

Na pupila do tempo me suspendo,
espero o rio para invadir o monte
e no fervor da sede e do tormento
sou o jorro da fonte que que me irrompe.


Salette Tavares

Como se tudo aquilo em que tocassem


Como se tudo aquilo em que tocassem
as nossas mãos se transformassem em espuma
e os olhos, feitos barcos, navegassem
serenos e altivos sobre a bruma.

Como se não sobrasse mais nenhuma
noite em que os nossos corpos se enlaçassem
e abraçados vencessem, uma a uma,
qualquer barreiras que nos levantassem.

Como se fosses o principio e o fim
do que quis sempre para mim


Torquato da Luz
Liberdade



Hoje obrigo-me a qualquer coisa mais
que seria indefinida se a dissesse textualmente.
Por isso pode parecer que jogo com palavras
quando apenas as quero escrever doutra maneira
repensadas com o coração sobre o lume delas.
Desprendo-me de mim como no acto conjunto
do parto em que a mulher toda se dói
e o filho lança o grito de vida para o mundo.
Descubro a nossa terra inteira que circundo
devolvida à luz natural independente da meteorologia
eu urgente milionésimo corpo integrado
de súbito sem idade a semear pão comum.
A cada companheiro respirando pergunto
que génese nos une o sangue e os músculos
e milhares de olhos respondem liberdade
de nos pertencermos trabalhadores iguais
compondo canções ao ritmo da ferramenta
aquela qualquer coisa que hoje me obriga mais
e seria indefinida se a dissesse textualmente
no silêncio das noites que o poeta já não inventa
e antecipam madrugadas fraternais sem disfarce
onde a burguesia dorme ainda comodidade
com as persianas hermeticamente fechadas
e o rádio portátil na mesinha de cabeceira
para ouvir o primeiro serviço de notícias sul-africano
confortáveis ao estômago-memória pelo resto
da manhã que sempre lhes foi tempo descansado.

Orlando Mendes,
País emerso, caderno 2, 1976

Contra o tempo




Uma leve aragem,
é sopro divino,
o vago começo de um outro destino,
e um cálido romance
borbulha nos dedos,
desabrocham dias ainda por viver,
arcas de segredos,
e logo atrás vem a tempestade,
rebentam flocos no cume altaneiro,
e nascem bailados no desfiladeiro,
a doce vertigem da montanha de cristal,
e uma bola clara, bamboleante,
é meta ambulante,
sem vencedor, nem final.


Helena Figueiredo


Não é o que passa que nos faz estar tristes.
É amarmos que passe na tristeza,
tocado a luz interior que exige
cada vulto chegado a transparência.
Porque amarmos que passe é um limite.
A luz aí se eleva
em cada vulto. E assiste-se
ao apogeu de trânsito e inocência.
Cada qual se despede. E cada qual a triste.
Mas todos cumprem a rotação imensa
e, chegados ao apogeu, assistem.
Amam o lume abrupto da tristeza.

Fernando Echavarria (poeta timorense)

1.8.09

Escreve agora a música


Escreve agora a música
que os muros trauteiam
como eu dilapidei o meu tesouro.

Desenha agora a árvore
que rebentou por dentro.
Mostra agora o coração
com uma flecha no centro.

Vivi de brilho
e cuspi ouro pela boca.
Se ninguém me quis prender
foi porque não dei caça
não dei luta
nem falei em razão de força maior
nem sequer do futuro que me escuta.

Este livro custa a abrir
e aquela porta a fechar.
Desata agora a chorar
mesmo sem querer
mesmo sem sentir.
Chora por tudo
o que não está para vir.


Regina Guimarães

31.7.09

Do lado da Ala-B



Desaguada
Carícia dentária
Desenfeijoada em desprateada meia-lua de xima

Do lado da Ala-B
Qual sol se atreva na treva!

Sinto saudade de mim...


Amin Nordine
Moçambique

Amor Bastante



quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante


Paulo Leminski
Brasil

Tem o cheiro do Verão quando amanhece



Tem o cheiro do Verão quando amanhece
E dos seus olhos, onde é sempre dia,
desprende-se uma luz que me deslumbra.
Ao caminhar, em seu redor parece
que o ar se faz de sol e maresia
sem a mais leve réstia de penumbra.
E eis que em desafio serpenteia
onde o mar vem deitar-se com a areia.


Torquato da Luz

30.7.09


Canção desesperada




Vento que vais passar
Pelos loucos cabeços nus,
Que trazes para contar
Sobre a Noite ou sobre a Luz?

Sol que incendeias a terra
Toda nua e resignada,
Que nos trazes dessa guerra
Sem esperança desejada?

Lua, erma e abandonada
Nos confins do abandono,
Que trazes ,assim calada,
Para além de morte e sono?
- Jaz a terra de bruços
Não canta água na pedra:
Só se ouvem soluços
Da desgraça que medra...

António Cardoso (poeta angolano)

O girassol


O brilho inteiro das galáxias
a latejar no girassol
enfurecido
desdobrando-se em arco-íris
para a morte sobrevivida
entre os gomos do canto.
Um barco é uma faca que rasga
essas dunas cheias de sortilégios
e de luz as salpica.
Reapetece.
A asa fresca da madrugada
encrespará levemente
dos corpos nus a seda
para outra vez.


Julius Kazembe
Moçambique

29.7.09

o profeta anuncia os personagens


o profeta anuncia os personagens
por ordem alfabética
e vira as ampulhetas o futuro é o último sangue
ainda não derramado

pouparão as muralhas os meus olhos em alvo

por eles me fiz náufrago no dorso das areias
por elas o meu peito aguarda que o resgatem

todo o olhar
é um rio
que brota para dentro e mancha o coração o profeta
é um manto tecedor de oráculos
e nós quem o sustem acima do destino


Carlos Nogueira Pinto

Se quiseres que eu me perca


Se quiseres que eu me perca,
buscarei outra ilha.
Esperarei a sombra diante dos olhos,
o milhafre na ravina de crisântemos.
Ao longe, correndo para a primeira luz do dia,
estarei à tua espera,
acenando com a mão esquerda,
avançando sobre o mar.
Não te esqueças,
aprendi um dia como deus nos traz um sono
leve que nos cega.


Rui Cóias

Amor é Síntese



Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.


Mário Quintana
Brasil

Mulher



Procurei palavras bonitas
Palavras caras e raras
Palavras de dicionário
Palavras que só os doutores sabem dizer
Para falar de ti, mulher
E não encontrei

Perguntei ao vento ao fogo e ao mar
À terra, ao tempo e espreitei no ar
Buscando alguém,
alguma coisa
Que me dissesse o teu nome
Para eu falar de ti, mulher
E ninguém me respondeu

Então, vasculhei sentimentos e atitudes
E no fundo de cada um
Descobri as tuas pegadas
Por vezes longínquas,
Outras vezes ténues
Mas sempre presentes
numa caminhada perene, penosa

por fim encontrei-te.
Encontrei-te no rosto das crianças
que geraste e criaste
No amor que criaste com grãos de dor
Na esperança que semeaste
em pedaços de desespero
Em feridas que curaste
com lágrimas escondidas
Para não mostrar a face

Encontrei-te
nas bocas saciadas da família
Em pedaços de percurso
entre caminhões e fronteiras

Encontrei-te
também no sono reparador do teu lar
Que semeaste em cada viagem arriscada
A pé, de chapa ou de boleia
Entre insultos, violência e abusos
respondes com um sorriso

Encontrei-te nesse amor que só tu sabes cultivar
Nos ombros que emprestas a quem precisa de chorar
Encontrei-te nesse amálgama de emoções
Que vives em cada dia
E que transformas num olhar

Mas vi também pegadas recentes
Nas salas de trabalho de políticos e cientistas
Reconheci-te com microfones falando para multidões
Descobri que já começaste a consolidar espaços novos
Nas tecnologias, nas decisões e nos espaços nobres
Nas empresas que algumas já te pertencem
Até condenas criminosos em salas de audiência.

Num momento de pausa
Encontrei-te sozinha com o olhar iluminado
E perguntei-te o teu nome
Respondes: Sou mulher


Fátima Langa
Moçambique

Canção sexta



Tanto o pó de outro dia destruíra
o último sossego novamente
este cheiro de vida embora andasse
a tarde sobre tudo sem sossego
engano
escasso vento
o pó levando ainda de outro dia

Do abrigo do dia novamente
lançados sobre a áspera cratera
dos enganos lavrada do sossego
no uso dos enganos tão ciente
ar doce do amor que leva o pó
do abrigo do dia sobre tudo
frágil disperso fora com o vento
lançados do engano do sossego

Somente já de vida mantivera
não da gruta da tarde as vãs lembranças
o pó do dia
as nuvens os enganos
desabridos da tarde enfim de vida
as crateras apenas despejadas
assim o pó ardia novamente
surdo cansado espesso pó da terra

Não trazia lembranças
sem sossego abrigava de outro dia
da tarde sossegada a escassa vida
De destroços canção somente a vida
não reduz do sossego destruído
de outro dia a lembrança ao pó que a traz


Gastão Cruz