19.4.11

Ao amor



Muito amo as criaturas, porém,

sobretudo eu amo o poeta,
por ser ele o senhor da sensibilidade,
da emoção e do sonho.

Enfim,
eu amo a palavra por permitir-me dizer ela
o quanto eu amo


Ada Ciocci
Brasil

18.4.11

Descoberta


Por ti desço
à madrugada
e desenraízo o tempo
com o arado
do meu corpo
rasgando o teu...

No percurso da
tua pele
os primeiros raios
de sol
são os meus dedos
descobrindo os segredos


Jorge Arrimar
Angola

Doze horas na vida de um mendigo


O mendigo
estendeu suas mão vazias
na penumbra do dia...

Mastigou gestos de indiferença
encheu seus olhos de movimento diurno
e descansou à sombra da esquina do seu destino.

Na penumbra da noite
o mendigo
recolheu suas mãos

— cheias de coisa alguma!


João Rodrigues
(Cabo Verde)

17.4.11

Motivo



juntei na mão
os meus poemas
e lancei-os ao deserto
para que as areias
se transformem em protesto.
sejam catanas armas ou punhais
sejam protesto.
sobre a terra prometida
o mundo:
e uma arma tão forte que construa
os alicerces desta sede insaciável de criar
independência.

II

poesia
será depois a revolução
em seu entendimento permanente.

além da substância
nem o azul
poderá mover
outras lembranças.

lançados no caminho
iremos segredando à continuidade
desde os contos de ninar
aquilo que nos é amor e causa.


Costa Andrade
Angola

15.4.11

Junto de ti


Venho dormir junto de ti
e o meu corpo é uma coisa diferente
do que se vê ou toca ou sente;
é, fora de mim, essa coluna de ar onde respiro,
olhos que beijam o teu corpo exacto,
as muitas mãos que dobram o teu rosto.
Um deus que dorme,
um deus que dança, e mais
que um mero deus,
o breve amor do tempo.


António Franco Alexandre

14.4.11

Passos sem memória



Olho pela janela e não vejo o mar. As gaivotas
andam por aí e a relva vai secando no varal. Manhã cedo,
o mar ainda não veio. Veio o pão, veio o lume
e o jornal. A saliva com que te hei-de dizer bom dia.
As palavras são as primeiras a chegar. O que fica delas
amacia o papel. Pão quente com o sono de ontem
e os sonhos de hoje. Prepara-se o dia, os passos
de ir e vir. Estou cada vez mais perto. Olhas-me
como se soubesses o que hei-de saber mais logo.
Nesta cidade nunca é meio-dia. Há sempre uma doçura
de outras horas. E recordações avulsas. Deixa-as sair
de dentro do vestido, deixa soltar as ondas do mar.
A janela está vazia. O meu filho caminha na praia
e tu soletras as gaivotas. Caminha à minha frente
sem deixar pegadas. Perco-me como todas as mães,
todos os amantes. Invento passos e palavras
para adormecer. A esta hora a minha avó enrolava o rosário
nas mãos. Eu estava dentro das contas, dentro do sono
que rondava a prece. Durante muito tempo estive fora.
Agora caminhamos juntos. Sem memória.


Rosa Alice Branco

Esperança



Não! A gente não morre quando quer,
Inda quando as tristezas nos consomem.
Há sempre luz no olhar de uma mulher
E sangue oculto na intenção de um homem.

Mesmo que o tempo seja apenas dor
E da desilusão se fique prisioneiro.
Vai-se um amor? Depois vem outro amor
Talvez maior do que o primeiro.

Sonho que se afogou na baixa-mar,
De novo há de erguer, cheio de fé,
Que mesmo sem ninguém o suspeitar,
Volta a encher a maré.

Não penses que jamais hás de achar fundo
Nem que entre as tuas mãos não terás outra mão.
Pode a vida matar o sonho e o sol e o mundo,
Mas não nos mata o coração.


JG de Araújo Jorge
Brasil

13.4.11

Um dia



De súbito, entre a sombria
roda dos dias iguais,
às vezes sucede um dia
que se distingue dos mais.
É um dia raro, feito
à medida do teu peito,
onde o meu busca repouso.
Um dia claro, luminoso
e sobre todos perfeito.
Um dia contra o cinzento
correr dos dias iguais,
no qual me invento e te invento
para sermos o momento
que não findará jamais.

Torquato da Luz

A natureza morta numa casa



A mão que embala o mundo traz ao colo
a música de frases tenebrosas
a arder na minha boca. A língua fala
de tudo o que não sei: palavras rasas
entre lábios sem alma, que revelam
a natureza morta numa casa
onde a luz fica acesa em cada sala
até de madrugada. Tudo é belo
quando a vida mal vibra e mal nos pesa,
quando o silêncio abre as suas asas
sob o divino hálito que engole
o aroma das rosas.


Fernando Pinto do Amaral

vens de repente com a voracidade



vens de repente com a voracidade
de um pássaro nocturno que não chamei
e a porta fecha-se sobre as minhas ancas
e a noite bebe o hálito que largas na minha pele
enquanto os espelhos escondem o rasto
de todos os segredos que guardavas

(...)

fica comigo peço mas tu não me ouves
e eu sei que vou voltar a esperar por ti na vida que me resta
e em todas as vidas e em todas as mortes
até ao dia em que definitivamente
despeças o teu corpo do meu
e eu repita fica comigo e tu
desapareças

como quem esteve só à espera
de ventos favoráveis


Alice Vieira

11.4.11

Com um só fósforo ilumino o infinito


Com um só fósforo ilumino o infinito.
E muitas vezes o infinito é algo
muito próximo, um livro, uma chávena
de chá, o teu rosto escondido
na penumbra, o retrato de alguém desconhecido
que de uma praça, acena,
um fio de tabaco, um monograma
num lenço muito branco.
O infinito o mais das vezes é
não mais do que o que toca o coração,
uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo
que a mão ousa tocar, esta chama
que de repente amplia a escuridão
e me torna visível a quem passa
e no clarão acende o seu cigarro.


Amadeu Baptista

10.4.11

A riqueza



A riqueza! A tão célebre riqueza
É-me o sol parido na boca
A minha alma no bico dos pássaros
As minhas costas pasto de ovelhas
É um ribeiro seco de sorrisos cheio
O meu cérebro em gargantas amargas
As minhas mãos prenhas nas pedras
Os meus olhos vestidos de vênus
Os meus pés dançando nas vagas
O meu corpo despido nas árvores
Sangrando aneis fulgentes de estrelas.


Manuel Feliciano

8.4.11

Soneto do Único Amor



Fios de ouro na voz e nos cabelos
Andar, o andar do ar, se o ar andasse;
Olhos azuis horizontais e belos
Como se a luz do mar os inventasse:

Recordações sem conto se porfiam
Em desgastar no tempo o fio ardente
E inquebrantável, onde morriam
Desde o início, futuro e presente.

Fria talvez, de chama que morreu,
Muito anterior à Terra; o corpo de ave
Plácida e presa, deusa que desceu

E quebrou portas que não tinham chave:
Essa a medusa que eu fitei sem esperança,
Praia sem água, vida sem mudança.


Alberto de Lacerda

7.4.11

Perfume da Rosa



Quem bebe, rosa, o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? ou que nume
Com esse aroma delira?

Qual é o deus que, namorado,
De seu trono te ajoelha,
E esse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha?

- Ninguém? - Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem ta pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada.

E a cor de púrpura viva
Como assim te desmaiou?
e essa palidez lasciva
Nas folhas quem ta pintou?

Os espinhos que tão duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuros
Tos desarmam, ó rosa?

E porquê, na hástea sentida
Tremes tanto ao pôr do sol?
Porque escutas tão rendida
O canto do rouxinol?

Que eu não ouvi um suspiro
Sussurrar-te na folhagem?
Nas águas desse retiro
Não espreitei a tua imagem?

Não a vi aflita, ansiada...
- Era de prazer ou dor? -
Mentiste, rosa, és amada,
E também tu amas, flor.

Mas ai! se não for um nume
O que em teu seio delira,
Há-de matá-lo o perfume
Que nesse aroma respira.

Almeida Garrett

Toda a poesia é luminosa


Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade

6.4.11

Perdigão perdeu a pena



periódica
e temporariamente
esgota-se-me a pena lírica
por via do ruído
ensurdecedor
que entra despudoradamente
pelas janelas do meu quarto
dir-se-ia o estilhaço de uma bomba no Iraque
ou um grito perdido no tsunami

vai-se a pena lírica
vem o teclado pós-moderno
dum Toshiba qualquer
e já não há Perdigão
que sobreviva


Ângela Marques

Poema, beijo, estrela, afago…


Outra coisa que o corpo há quem conheça.
Eu não. Somente nele me cumpro viva.
Poema, beijo, estrela, afago, intriga
Só no corpo me são pés e cabeça.
E coração também que às vezes teça
Razão de me saber mais que medida
Nessa trágica trama tão antiga
A que chamam ficar de amor possessa.
E é de novo poema, beijo, afago.
É de novo corpo que te trago
A exótica festa da nudez.
E tudo quanto sinto e quanto penso
Toma corpo no corpo a que pertenço.
E aqui estou: de barro, como vês.


Rosa Lobato de Faria

Cão morto



Fomos contemporâneos
este cão e eu

e eu sobrevivi-lhe

e isto é tremendo.



A. M. Pires Cabral

4.4.11

É isto: a noite de amanhã


É isto: a noite de amanhã
Tu levantas-te

Manhã e noite não se vêem ao espelho
antes o estilhaçam para dentro
desencontram-se interminavelmente
mas ouvem-se uma à outra entre as salas da casa

Tu estás súbita ali na esquina do corredor
sinto por momentos a tua cara negra
e a imensidão do teu corpo anoitecido

passas-me a manhã devagar
de mão a mão
como um mapa fosforecente

onde por certo íamos morrer


Manuel Gusmão

3.4.11

Para vós o meu canto


Para vós o meu canto, companheiros da vida!
Vós, que tendes os olhos profundos e abertos;
vós, para quem não existe batalha perdida,
nem desmedida amargura,
nem aridez nos desertos;
vós, que modificais o leito dum rio;

- nos dias difíceis sem literatura,
penso em vós: e confio;
penso em mim: e confio;

- para vós os meus versos, companheiros da vida!

Se canto os búzios, que falam dos clamores,
das pragas imensas lançadas ao mar
e da fome dos pescadores,
- penso em vós, companheiros,
que trazeis outros búzios pra cantar...

Acuso as falas e os gestos inúteis;
aponto as ruas tristes da cidade
e crivo de bocejos as meninas fúteis...

Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis ruas com outra claridade
e outro calor no apertar das mãos.

E vou convosco. - Definido e preciso,
erguido ao alto como um grito de guerra,
à espera do Dia de Juízo...

Que o Dia do Juízo
não é no Céu... é na Terra!


Sidónio Muralha

2.4.11

Para a minha lápide




Eis-me aqui. sou eu!
nem santo nem fariseu
(serei filho de ninguém
que me importa tal ouvir?...)
Sou eu, o louco
sem lei nem fé,
o tresloucado
que em todo o lado
sonha ser...
e é!

Sou eu, tal qual!
o incompreendido
que numa noite gelada
sem luz sem nada
Deus ou o Diabo
à rua deitou.
Infausta glória!...
fui vã vitória
assim...
mas sou!

Álvaro Giesta

Lamentações



Que solitária está a cidade
Enviuvou a mais povoada
Das nações.
Está de luto a que foi mãe
E em trabalhos forçados

Passa a noite a dobar a sua noite
À luz do pequeno brilho da lembrança
Não há a consolá-la nenhum dos seus amantes
Cresce o silêncio nos degraus da entrada
E encontra inimigos quando estende a mão

Foi levada para fora das muralhas
Foi levada para terra estéril. Foi humilhada
E posta ao serviço das escravas.
Dorme ao relento e sem repouso
Tomada de aflição.
Perseguida até ao fim
Das suas forças
Mesmo no sono é cercada

Está mais perdida do que numa encruzilhada
E venda os olhos porque qualquer luz
Ou a mínima palavra (ou a noite)
Lhe ferem os olhos rompidos de saudade

E nem os mendigos nas estradas
Têm um coração tão só


Daniel Faria

Entregámo-nos


entregámo-nos
um ao outro
dentro dos lençóis
brancos
à tarde
na posição mais
ortodoxa
e agora sabemos
e não sabemos
um do outro
escrevemo-nos
escrevemos

Adília Lopes

Ocaso



Parado num calendário asteca,
O tempo configura a própria eternidade
Sem duração.
Em total comunhão
Com tudo que vivia,
Outrora decorria
Ao ritmo de inquietos corações
E pulsava também nos glifos do basalto.
Agora, aqui, na sala dum museu,
Onde cada lembrança lembra a morte,
Adormeceu num sono tumular.
E não há voz horária
Capaz de o acordar
Da lousa funerária
Que foi pedra solar.

Miguel Torga

1.4.11

Eles amam-se nos meus versos


Eles amam-se nos meus versos nas
enseadas mais recônditas se escondem. os
nossos gestos repetem. partilham cerejas e
amoras. ao cais chegam sob um concreto luar. levam
galhos de castanheiros cítaras de duendes. um corvo
acode ao aroma dos seus corpos porque neles uma
rosa vai morrer. leram nos meus versos o
rumo de Samos. apartando líquidos cavalos crinas
brancas no incerto barco
partem dos meus versos

chove em Samos a chuva de um poema. Hera os
aguarda no arco-íris que
coroa o pórtico de Apolo. uma Danaide lhes
serve o vinho de cedro. colhem
morangos e romãs nos pomares litorais. nos
aromas das algas e dos mármores rimam as
palavras de adeus que nos dissemos. acode a
saliva ao gosto dos frutos novos. caminham de
mãos dadas no
meus versos

Fernão de Magalhães Gonçalves